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24.7.16

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


CRIPTOPÓRTICO

Quem pudera viver sempre pelos dias do
verão, quando o mar é a pele que sentimos
e o sol fica a amassar a erva dos caminhos
nas lojas, nos corredores sob o chão de
Aeminium, sob a vaga luz de uma lucerna
— o âmbar do azeite — o pão escuro,
a doce tâmara, uma cesta de sal, as cores
vesperando de tapetes esperam o repouso, a
conversa, notícia do Império — Caracala
manda assassinar Gela, seu irmão — a
um canto o vendedor de cerâmica de verniz
vermelho e figuras
sob outro alvéolo, os que se dispunham a
celebrar sacrifícios, danças, péan por um
deus por um herói. A água corria das
ânforas, pérolas frias, semelhantes ao gelo
e o vinho, uvas esmagadas deixavam nos
lábios um sabor doce, acidulado de sombras
— as essências ardiam nos turíbulos —
eram vagos, então aqueles que passavam na
cripta, entre um e outro piso. Hoje,
quando regresso ao calor ténue dessa luz
coada, a vida, não mais essa outra vida que
não tenho já, mas que terá sido a tristeza e a
alegria com as quais agradei e frustrei o
génio que me foi dado outrora — também
hoje chegará um verão pelo som dos passos
da ligeira sandália e se fundeará na aeternitas
imperii

* Alicerce do fórum romano. C. 40-50 d. C.


E DE REPENTE IRROMPE A RUA

E de repente irrompe a rua da cidade
aquela que se chama do Cabido
a de S. Salvador, com o
pequeno largo — vejo-as do extenso
vidro da janela. Na igreja escreveram
zona antifascista
um pouco mais abaixo, a roxo, praxe
sedativo n.º 1 em Coimbra

duas vizinhas descem para a Rua do Loureiro, se
acaso nestas ruas ainda vive alguém
num andar esconso, no desvão dos cafés manhosos —
nas mesas cai a dama de espadas
a juventude regressa noite fora — entre
uma porta e uma janela cega
passeia-se o desenho de um gato preto
líquenes nos beirais, a culpa venial
de mais um dia que passa, denso, varrido por clareira
de rogos. E

se nos virarmos
o grande teatro da Capela do Tesoureiro
à nossa espera
como se estivéssemos em tribuna eleita
bem em frente a imagem de Fortuna, festão de pedra.

Vai o olhar pela rua que foi dos açougueiros. Estreitos
quintais entre muros, ancoradouro de laranjas
o casario estremece nos versos de António Nobre
transporta carta selada
leva escrita a distinção entre a morte e o acto de viver.
Na outra margem o que resta de olival e de bosque.


(de Mirleos, Relógio d'Água, 2015)

27.11.13

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


Nós inventamos as formas que nos dão alegria. Claro que estar alegre é cada vez mais e cada vez menos o instante. O instante entre o longo tempo em que não estamos de nenhum modo e o tempo do sofrimento que, sendo pouco, é tempo, tão longo. Nós escolhemos as formas da alegria, talvez seja a única coisa que, de verdade, escolhemos no mundo; uma escolha quase sempre sem grande sentido, sem grande valor e sem alguma imaginação; para além de toda a imaginação, sentido e valor, pois trata-se do acto único que mais soubemos e sabemos construir.
A alegria é um estado de coisas bem simples, do tamanho de um bilhete de autocarro que é pequeno e tem números, pouca espessura e, às vezes, um pequeno anúncio nas costas. A alegria tomo-a como uma escolha absoluta, um instante em que compreendo como as coisas são em si mesmas, como as integro na minha vida e como me deixo ser viajado por elas; pelas coisas, pela alegria das coisas.
Há itinerários de alegria, desenhos que traço e que permanecem como uma linha única na minha, na nossa memória. Alegria: coisa distinta, obrigatória, encadeada no corpo de sangue e nervos que não podemos nem queremos deixar de ser.


(excerto de «Mendes», in Uma paixão inocente, Livros Cotovia, 1989)

6.10.13

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


FANTASIA PARA VIOLA

Ouvi uma das noites deste outono
as fantasias para viola de Henry
Purcell. Já as conhecia. Pela
noite de Óbidos
Savall ia apresentando um por um
os intérpretes, e dizia um pouco
sobre a história de cada viola da
gamba dedilhada, e também sobre
o violone tocado pelo senhor
Lorenz Duftschmidt, austríaco a
quem, e não sei por que razão
oculta, fixei o nome. Quando
chegou a Montserrat Figueras, que
entre as peças cantou além de
Purcell, Byrd, talvez com o sentido
de amenizar o tempo que era
necessário, entre as fantasias,
para o afinamento das violas que
obrigavam a rápidos desacertos, à
fuga de uma nota áspera na húmida
igreja de S. Tiago, intramuros. E
ele disse de Montserrat Figueras
«o único instrumento contemporâneo,
a sua voz».
Ninguém poderá saber como chegaram
as harmonias das violas que tocaram
Purcell
a este castelo que foi o centro do
mundo da minha infância; eu sei
ou julgo que sei todas as cores que
pelo outono descem o pano das
muralhas até ao mar,
do alto das ameias vê-se que não é
longe, basta seguir o áspero
caminho dos sentidos e depois tudo
se passará como quem descobre o
parentesco entre deus e o mundo.
Castelo e muralhas já não são
pedras de nenhum destino, a voz
foge da pressão da vida, queria
que cantasse sempre,
sem parar,
eternamente.


(de Não É Certo Este Dizer, Editorial Presença, 1997 / colecção forma)


11.10.11



JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


TIMOR

Talvez não seja suficientemente bom poeta
para uns versos, sequer, sobre Timor.
Timor, lembro-me como todos os outros do Ruy
Cinatti e de um mapa antigo que fecha um
dos seus livros sobre botânica timorense. O mapa, a negro,
traz nomes escritos a vermelho e regista o
avanço dos portugueses pelo interior da ilha.
Mostra-nos pequenas e altas casas de estacaria
que eu próprio desenhei num mapa de Timor
quando na escola nos ensinaram as províncias do
ultramar mais distante.
Timor era uma ilha que colori a amarelo. Havia
um enclave — Ocussi
Ambeno tinha sobre mim a sedução
das coisas mais que longínquas, perdidas. Ocussi e
Ambeno que soube resistir aos holandeses
nomes que persistem com as ilhas de Ataúro e Jaco
de mistura o lagarto-voador Draco, Solor
sândalo e o pico mais elevado das montanhas do
Ramelau. Coisas assim tão altas e distantes,
assim perdidas.

Lembro-me hoje, ainda e cada vez mais de Timor
do Timor de Ruy Cinatti, do Timor do irmão do Manuel
Gusmão que lá morreu e tinha os olhos cor
das gencianas azuis. Escrevi
o nome das povoações com uma estreita caneta
de tinta da china. É correcto que escreva sempre
no passado, porque poucos timorenses irão
sobreviver e o Ruy Cinatti volta a cruzar os meus
olhos. Sustenta aquela dança de paz e guerra
que bailou na noite em que nos conhecemos. «O corpo é
sempre o corpo de Cristo. Uma pequena superfície que
recebe todas as feridas do mundo. Qual-
quer corpo não é mais do que
corpo de Cristo.» Lembro-me dele na cama do hospital: a
dor, a rede de soro e sangue. À sua volta, os amigos. E
de todos dizia serem «maiores poetas». Talvez
fossem, sejam, e isso que importância tem?
Por entre ciganos e nevoeiro e tendas de pano
velho como se estivessem cobertas de lepra, vejo-
-o no distante dia em que me visitou
pelos começos de oitenta. Fotografia
que sofreu o abandono no fundo de uma gaveta. Vejo-
-o com aquele sorriso de leve troça a que prendia
verdades de profeta e junto a si o meu pai,
talvez da sua idade, talvez um pouco mais velho.
(A minha mãe não quis a prisão dessa imagem. Pensou
que eu não gostava dele. Não percebeu
que se fiquei inquieto com a sua chegada
foi porque supondo-o santo, um santo é
naturalmente uma coisa incómoda.) E lá estão a
Ana, o Manuel Rosa, a Ilda e aqueles a quem chamava
«os meus anjos-da-guarda». Há ainda umas crianças
com espadas de plástico. Não sei como apareceram,
mas os santos trazem muitas vezes consigo putti. E
ele disse, quando o levei
pelos caminhos da aldeia que perdem sobre o mar
até à casa onde vivera o Ruy Belo; pelas ruas
sob o nevoeiro dessa manhã de agosto, por
entre vendedores de quinquilharia, camionetas e
tractores embrulhados em serapiheiras e cordas,
onde pernoitavam camponeses e gente vinda dos bairros
periféricos de Lisboa, ele disse
«é a idade média. Chega nestes dias do verão,
um tempo de necessidade em que tudo apodrece.»

Senhores da palavra Timor,
memória,
canção em teia-de-lavor.

Quando fiz a quarta classe
Timor era uma língua de terra
cuja largura só dava para uma estrada
limitada pela água do mar.
Timor. Não sei o que possa escrever. Um
só verso que valha Timor. Só me lembro do Pedro
Brazão à porta do pavilhão de queimados de Santa
Maria: «Aqui, a vida é uma luta perpétua,
pequenos avanços contra um enorme desastre».
«Malhas que
o Império tece» por entre dedos de anéis e que ofereceram
um punho cerrado. Por isso, hoje, os timorenses que restam
olham o lugar vazio do nada-
dor-salvador, Portugal, alguém que julga ter já
vivido o suficiente para merecer o privilégio de recordar
e deixa que Timor desapareça do ecrã,
como quem cancela a última série
sobre o Império, reconhecido olhar de
antiga posse e de história
um silêncio povoado de ruídos no outro extremo da vida.


(de O Barco Vazio, editorial Presença, 1994 - colecção forma)


18.8.11

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


27


Recusarei a ave que pergunta
no inverno a floresta que jurei
plantar? E se a asa não passa de
um adeus, depois pedra corroída?

O rosto, rosa e junho caminhando.
Não há terra nem água no nosso
pensamento. Tu, destruída, os olhos
foram verdes ou castanhos?

Não conheço entre amor e festa,
entre erva e dedos. A alma toma fim
em nenhuma destas partes, creio?

Um rei procura os limites do mar,
o poeta o sono através da unidade.
E eu erguendo recordação ou fuga?


(de Sob Sobre Voz, 1971)



Sétima Legião
Os Limites do Mar
(de Mar d'Outubro, 1988)

17.1.11

HIERONYMUS BOSCH


Tentações de Santo Antão, c. 1500
Óleo sobre madeira de carvalho
131,5x53 cm / 131,5x119 cm / 131,5x53 cm
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO


Lá está o peixe de espada à cinta e o grande fogo em noite
de natal. O capitão da barca voa altos céus e o ovo deu à
luz o pranto das Eríneas. Tudo o que quisermos está aqui: a
virgem cavalgando uma árvore num céu gelado, manto azul,
mãos orantes, segue-a a gadanha da morte e a ave e outra ave
e os peixes e outro peixe. O facho aceso aquece a paisagem,
o descalabro da vida e o humano, de tão humano o quero, diz
em voz baixa o timoneiro enquanto passa sob a neblina.
Sob o som de pesadas botas ninguém, alguém anuncia a mesa
posta: frutos silvestres, pedaços, pedacinhos de ferro: o
grande diospiro abre sob o comando do símio: mendigos,
desejos obsessivos, pequenos monstros desembarcam em murmúrio.
Dias inteiros, séculos ergueram da água baixa e pútrida altas
torres. Perdeu-se de esmolas a cidade e o monge reza, meio-
-louco, fantasiador. Nos campos não há pastos nem rebanhos,
mas os sinos anunciam a ração da tarde e logo a da manhã.
Um manto rubro, uma serpente, as raias, o homem cabeça e pernas
e as figuras anunciam a novidade do feminino corpo nu:
continuam a passar, obstinados, em fúria, agora com lentidão
eterna, os meses e os anos, tempo e sempre mais tempo. O
peçonhento sangue dos humanos é igual ao sangue dos répteis:
gerações erguem gerações e o homem de negro encerrado no focinho
de urso formigueiro leva o alaúde. O mocho contempla a guerra
da noite e todos escutam impronunciável palavra a coberto de
maravilha: coxos, sem orelhas, órbitas vazias e logo plenas
de cega luminosidade; ninguém, todos experimentam a mente do
santo. A longínqua visão reflecte-se. Na gruta, um Cristo
crucificado assiste os animais e as árvores, o devaneio, as
casas, o derruir da verdadeira e profunda identidade. Fascinado,
estático, possuído pelo entusiasmo, o frade morre no
espelho: entre o seu rosto e o teu rosto inscreve-
-se e logo se rasura a pálida e terna forma de um rosto de
criança: traz guelras no exacto lugar da respiração: talvez
por isso não tenha a coragem da esperança quando
acompanha a barca dourada que se desloca para o sol e
de novo aparece e de novo desaparece —
ave do sonho dentro do sonho.


/Hieronymus Bosch, c.1500/


(de Museu das Janelas Verdes, Relógio d'Água editores, 2002)

21.4.10


(Óbidos, 21 de Abril de 2010)



JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


UM PASSO DENTRO DA VILA


Nenhum dos vivos escapará à pedra de toque que
é a morte. Mas primeiro passou pelo limite do deserto — a dor
e as areias crescem ao seu redor. Por entre as casas da aldeia
jamais são portadoras de um acaso feliz
sobem a rua direita de grande laje
da porta da muralha à igreja mais cimeira. Em Óbidos
ouve-se melhor o de profundis, há um registo daquilo que se
perdeu.

A laje, dizem que foi lançada para o passo do viático.
Passo último que concede transfiguração. Quem
hoje pisar o longo dessa pedra
perdido no abismo mais íntimo das areias do deserto
na vegetação da floresta
já não atende ao som breve da torre sineira. A violência é
o que recebe de próximos e
vizinhos quando não se ajustam, como a palma das mãos, ao seu
olhar; desterrado, dentro do termo de Óbidos (as margens vão
até ao mar, morrem nas salinas a oriente
e a norte, a grande nave cobre-lhe os sentidos), respira o
espaço longínquo e o tempo remoto para além, muito além do
espesso muro da matéria.


(de Termo de Óbidos, Relógio d'Água, 2006)

19.8.09

(Furna do Enxofre, Ilha Terceira - Agosto de 2009)


JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

A FURNA DO ENXOFRE


A primeira coisa que se conhece é uma longa
escadaria que leva à espessura, a um velório
de vegetação sombria. Ergue-se por entre a
rocha que ladeia os degraus, até ao momento
em que mergulha na golpeada ressonância da
caverna. Não há corpos projectados pelo
fogo, apenas o enxofre se consome e a furna
se transforma num pequeno altar de lama que
sustenta extrema temperatura. Ninguém nomeia
a asa de um morcego e o rasgão de luz
desce a altíssima gruta para que possamos
atribuir uma forma aos objectos reais: a
laguna onde o pequeno barco aguarda a voz da
sombra que se desdobra em múltiplos ecos:
fantasmas, coisas vãs que ficaram fora do
coração da ilha: no líquido exílio, sob a
ilha, está um campo subterrado, bolsa imensa
que sustém a própria ilha: e os olhos vindos
das trevas regressam à plácida luz, como
quem ressuscita, numa súplica, a tristeza das
_______________________coisas.

(de Bellis Azorica, Relógio d’Água editores, 1999)

12.8.09


[Angra do Heroísmo, Agosto de 2009]


JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

[excerto de] VEÍCULO PERFEITO

(...)
Uma outra casa. Recém-pintada de um azul.
Aí viveu no mês de maio do segundo ano do século
o rapaz Pessoa. Na rua da Palha
o 26 tem um barbeiro na porta ao lado. No tempo
distante de sua mãe ouvia odeio o céu o mar
a minha terra o meu sangue o meu futuro o meu presente
o meu passado eu odeio esta coisa sagrada da
pátria incómoda cadeira dourado subterrâneo.

(de Terra Nostra, editorial Presença, 1992 - colecção forma)

26.4.09

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

[excerto de] FLOR DA ROSA

Na passagem do século XIII para o século XIV, D. Gonçalo Pereira teve filhos e filhas que não interessam para a chegada, até nós, da fundação do mosteiro da Flor da Rosa. Mas houve um filho que teve o seu exacto nome, Gonçalo Pereira, e que foi arcebispo de Braga. Este arcebispo um outro filho teve, Dom frei Álvaro Gonçalves Pereira, que foi prior do Hospital e que depois de ter vivido na sede da sua ordem, na ilha de Rodes, viria a erguer a igreja de Santa Maria da Flor da Rosa. Igreja, mosteiro e fortaleza ficam nas proximidades do Crato. Entre filhos e filhas, em número superior a trinta, ele seria o pai de D. Nuno Álvares Pereira, segundo o capítulo inicial da «Coronica do Condestabre».
(…)

(in A Flor da Rosa, Relógio d’Água editores, 2000)



MÁRIO BEIRÃO

NUN'ÁLVARES


Senhor! Por mim, teu espírito visita
O Reino onde servi como soldado,
Por ti, meu coração alevantado,
Por ti, este burel de carmelita!

A humilde cela que o teu filho habita
É um cárcere de lágrimas banhado;
Condoa-se do olhar do emparedado,
A luz desses teus olhos, infinita!

Senhor, perdoa ao monge arrependido
Se ainda não mereço a tua dor,
Reduz-me à escuridão do eterno olvido!

Soberbo eu fui, perdoa ao vencedor,
Ao vencedor dos homens, - o vencido
Por teu pranto humaníssimo, Senhor!

(de Lusitânia, 1917 / 2ª edição: Livraria Tavares Martins, 1964)



ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

EXORTAÇÃO FRENTE À ESTÁTUA DO CONDESTÁVEL NA BATALHA



Para Mário Saraiva


Cavalga no bronze da glória
À ilharga do túmulo real,
Aqui, onde ficou, em pedra e fé, memória
Da mais vital vitória
De Portugal.

E ergue a espada nua. (Em certo dia
Bastara meia espada
Para enfrentar a cobardia
E vencer a batalha antes de começada.)

E o peito ovante oculta, floreada,
A cruz do seu brasão:
Como a sua alma e coração (branca e encarnada),
É divina divisa devotada
Ao Mestre, ao Rei e ao Irmão.

E olha o céu, caminho seu, seguro,
Pois sabe que no céu tudo se escoa
E Deus é sempre o futuro,
O último senhor do ceptro e da coroa.

Ó português que passas, indiferente,
Frente à estátua do Santo, do Herói:
Não te dói o presente?
A tua pátria doente
Não te dói?

Não sentes o desejo, o ímpeto de orar
Àquele que nos foi o salvador;
Pedir-lhe para regressar,
Formar quadrado contra o agressor?

De ter de novo como Capitão,
Por Deus e Pátria e Rei, o Herói, o Santo?
E de poder dizer altivamente não,
Seguindo o seu pendão,
Onde arde a esperança que perdeste há tanto?

Ah, se não queres marchar, em som de guerra,
Tal como ele, por um ideal,
É que não vale a pena o sangue, a terra,
E morre Portugal.

(de Estado Estacionário, edições Cultura Monárquica, 1988)

7.6.07

[dia do Corpo de Deus]

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

(...)
E depois o que poderá restar? O fatigado corpo, essa, essa pequena alegria de todos os dias por onde dizemos o mundo. Agora me lembro que passávamos o tempo no erro de muitas palavras. Não éramos deus, não tínhamos o domínio da sua arte. Por isso errámos, erramos nas muitas palavras. Mas de uma coisa estamos certos, estávamos certos: somos matéria de deus, coisa que por si só deixa motivos para muitas perguntas e para nenhuma resposta.

(excerto de Somos matéria de deus, in Uma paixão inocente, edições Cotovia, 1989)

1.4.07

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

6


A árvore. De novo a passagem de
uma árvore a outra árvore.
Foi a árvore que deu lugar a esta árvore
o calmo reino da lei tombando do tempo, da árvore
ou de outra coisa assim: memória de dizer a aparente
árvore.

Um elemento de força. O facto de dispor
grande quantidade de folhas ramos troncos ou raiz.
Esta história reunida começou há muito
sobre esta linha.

Árvores foram preenchidas por círculos
árvores recebendo afluentes - ramos desenhados nas
lajes brancas, caminho que não está inteiramente terminado
a árvore voltarei a falar. Sem mediação.
Resta o estranho desenho de ramos
pequenos ramos.

(de Direito de Mentir, 1978)

21.4.06

[500 anos depois - 5]

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

CEMITÉRIOS JUDEUS


Também eu tenho mortos sob
a praça e a rua da cidade
e quando me sento, pelo fim de
uma tarde, no conforto dos pesados
bancos de madeira
das igrejas mais antigas
repouso sobre os corpos mortos que
talvez tenham sido lugar de vida. Então
eles também me pertencem e os lábios
como podem dizer palavra de
oração?

E estando vivo o meu pai já não o tenho
porque perdeu o meu nome.

O amarelo, a cor da alegria, junto a
um rosto que se vai esquecer.

Nem os meus sonhos são de um amante
forte. (Resposta a Yehuda Amikai.)

(de Bellis Azorica, Relógio d'Água, 1999)

12.4.05

JAN VAN SCOREL

Joris van Egmond, Bishop of Utrecht
c.1535
Rijksmuseum, Amsterdam


JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

TERCEIRO CASTELO DE HOLANDA

O retrato de Joris van Egmond
bispo que foi de Utreque
adormeceu na primeira sala que dá para o
claustro da catedral.
Não há manhãs nem tardes
os olhos empalidecem
sob as bandeiras
dHolanda. Eternidade, cânticos longínquos
casas de dor reflectem os magros braços de
Cristo. Joris van Egmond fechou a loja
a sala onde repousa o seu próprio retrato
seguiu pela margem do canal. Ainda vi,
por instantes, um pato
sombreado de penas verdes
a que prendera a corrente do suave olhar.
Acabara de lançar severo anátema sobre a
cabeça coroada de um negro. Infligira-lhe
a torre de um castelo
o peso da existência de deus
sobre os escuros cabelos. Mas não era possível
encontrar uma alma triste, noite de nevoeiro e
outono; castanho que chega sempre
p'lo Novembro de Joris, bispo que foi de
Utreque.
Quantas moedas juntou para comprar um dia
o dolente corpo de um anjo
a Francesco di Valdambrino? Obstinado ladrão
quanto amoedou para que Jan van Scorel
pintasse o seu retrato? Cativo, ei-lo
agora, episcopus traiectensis etc. coroado.

(in As Escadas não têm Degraus, 3, livros Cotovia, Março de 1990)

11.9.03

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

IN MEMORIAM ALLENDE


Se eu fosse marxista - porque me abandonaste? Se
neste meio ano vivemos tanto e construímos a nossa casa
num bordel.

Basta-me empurrar uma porta: ajuda-te que
o céu te ajudará - só repito as palavras da Bíblia.
E depois?
De que é que vive o homem? De comer.
E depois?
Talvez um pouco da moralidade ou dos inventos de
Francesco di Giorgio Martini perdão
quero dizer Salvador Allende Gossena. Uma insinuação.
Em setembro de 1970. Esta praia. Esta mesa. O
jornal aberto sob o teu nome escolhido pelo povo de
Santiago pelo povo de Valparaíso e
por aquele que vive ao longo dos Andes falando aracuano.
Lembro
o teu gesto de paz a tua entrada na catedral para seres empossado
lembro e lembro-me que sorri.
Em setembro de 1973. Esta praia. Esta mesa. O
jornal ainda. O teu nome dito.

Olha meu amigo
o que se promete raramente se cumpre eu
eu sou tão infiel a tudo
mesmo às árvores que com certeza plantaste e
onde as rolas hoje fazem ninho (por certo há rolas no teu país).

Olha meu amigo
trago-te esta comida. Tem cinco mil anos ou só a
velocidade dos meus dedos
- uma romã nozes frutos secos e
sob o pequeno armário da manhã
passas de uva.

Olha
vamos morrer? mas morrer não é tudo: seria preciso morrer
muito tarde e
não esqueças: Washington sabe Washington sabe quem sacode os ramos dos
castanheiros.

(de Turvos Dizeres, 1973 - incluído em Obra Poética, volume 2, editorial Presença, 2ª ed: 1987)

6.7.03

[Passei a manhã deste Domingo no Museu Nacional de Arte Antiga, aproveitando a borla.]

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE
nasceu no Bombarral em 1943. Tem cerca de 40 livros publicados, entre poesia, ficção e reflexão/ensaio sobre arte.

São surpreendentes e subversivos estes poemas. Aliam a atenção aos pormenores e o erudito conhecimento das obras e seu contexto a uma imaginação não fantasiosa.
João Miguel Fernandes Jorge desvia-nos do mero pitoresco e do factual para nos remeter para uma dimensão mais profunda das obras sem pretender estabelecer roteiros ou interpretações formais.

DESCIDA DA CRUZ

Fez-se homem para que nos aproximássemos da ideia
de deus;
manifestou-se através de um corpo para que recebêssemos
a ideia do pai invisível;
suportou as injúrias do homem para que pudéssemos herdar
a imortalidade.
E perdemos o olhar no horizonte;
uma lama podre a oriente e no ocidente.

/círculo de Quentin Metsys, 1510-20/

OS FUMADORES

A bolsa de cabedal está cheia de bom tabaco holandês.
Levaram-me para a lareira onde ardia um lume
de teixo. Em grande sertã de cobre frigiam os peixes
e uma espécie de pão. A um canto mais escuro
uma candeia,
mas dava para ver: o homem mijava de encontro à parede
e logo um outro se lhe seguiu. A taberna cheirava à
humidade marítima e a tabaco; o meu dedo polegar
calcou o que me ofereceram e acendi-o com uma acha
erguida do lume.
O escuro da sala e o fumo dos cachimbos cedia a todos
esses homens pesados corpos amassados de vento e areia
das dunas: confundiam-se com um ponto de luz que
reflecte no vidrado de um pote de grés, numa garrafa
que se esvaziou com um som de límpido claro-escuro flamengo. Fumam. Como
quem confia as preocupações a um amigo
para depois se sentir como quem viu sonhos na sua noite.

/David Téniers, 2ª met. Séc. XVII/

ARCANJO S. MIGUEL

Miguel, o anjo, calcário branco de placidez.
Era pelo S. Miguel e o Outono tinha já iniciado
a descida dos seus vermelhos escuros. A banda
do Carvalhal percorreu a vila e tocava na gare
da estação. As crianças da escola vestiam as
batas brancas e tinham nas mãos ramos de flores.
O comboio entrou na estação ao som de uma marcha.
Não sei quem vai chegar. Não sei quem vai partir
pelos anos cinquenta do século passado
neste meu sonho recorrente.
Não me vejo entre essas crianças, mas reconheço
alguns rostos.
A locomotiva entra na gare. Pesada. Envolta
em fumo. As vinhas, vermelho castanho macerado
sobrepõem-se à toada monótona da banda: procura
dar alegria ao espaço de toda a gare; não
consegue.
Era pelo fim de setembro. Pelo S. Miguel: o
plexus solar incendeia todo o peito
desde o triângulo divino. A música desce, cai
como se fosse chuva, fria, muito fria
sobre a aldeia da vila,
como quem enterra, brutal,
um prego no meio dos olhos.

/esculturas portuguesas, séc. XV e XVIII/

CADEIRA DE SECRETÁRIA

Cadeira de secretária -
na sua forma de cadeira reside o que de mais
sedutor existe no mobiliário ocidental; trago alguns
dos meus versos na sua imagem: cadeira Mic Mac,
as cadeiras de Beuys e de Scott Burton: uma, erguida
ao peso dos embutidos,
simuladas as outras duas, metafísicas, ao peso do cimento
e da pedra; cadeira de van Gogh; cadeira da filosofia da
pergunta,
trono tibetano dourado de James Lee Byars.

Cadeira de secretária -
entre ela e a vizinha cadeira de barbear, e também de
secretária, hesito - estão na mesma sala do museu.

Cadeira de secretária -
na masculinidade da sua forma
o corpo vai sentar-se, as pernas estendem-se
os colhões repousam no recortado rebordo do assento
almofadada reentrância disposta a receber o viril
bolário
quando as pernas descansam e a mão sustém, sobre o papel
de carta
setecentista pena.

/Madeira de Gonçalo-Alves, 3º quartel, séc. XVIII/

(de Museu das Janelas Verdes, Relógio d'Água, 2002)