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2.5.09

[para uma antologia de bicicletas - 15]

JOÃO CAMILO

DE BICICLETA


Como se o teu olhar me perseguisse,
eu preocupava-me em executar da maneira mais perfeita
todos os gestos. Via-me de fora como tu me verias
se fosses atrás de mim quando pedalava na bicicleta,
sentada no banco confortável de um automóvel.
O rio à direita da estrada tinha certa beleza
e as árvores, como sempre, faziam do asfalto preto por onde eu ia
um caminho em que apetece passear ao fim da tarde.
Enquanto me olhavas ias conversando para o lado
com os teus companheiros de viagem. O cabelo
loiro sobre os ombros iluminava o teu rosto à janela
e aqueles que te viam passar ficavam a pensar em ti.
eu lá ia, tranquilo e inquieto a pedalar,
convencido de que ao ver-me sem esperar assim ali
descobrias mais duas ou três razões para me amares.
Não olhava para trás para que tu não te escondesses
e em cada pedalada deixava a atenção
com que poderias falar-me e eu escutar-te.



MEMÓRIA DE RUY BELO

Madrid está deserta do teu corpo, só os fantasmas
do desejo se digladiam ainda ao sol das praças.
Era tão curta a distância entre a eternidade
e a luz nas esplanadas dos cafés, na pedra dos edifícios?
O amor, ave desencontrada das estações, acena ainda
nos olhos das raparigas de braços nus. E tu,
morto mais discreto da pátria, adormeceste
sem ter beijado a mulher e os filhos, longe
para sempre das romarias e do mar.

(de A mais nobre das artes, editorial Caminho, 1991)



(…) quando jogava futebol na equipa da Faculdade de Letras de Lisboa nunca joguei a guarda-redes, em geral jogava a defesa direito, às vezes ao lado do Ruy Belo ou do Arnaldo Saraiva, do Moreira, do Madeira, do Carlos Correia, etc.; e gostava muito de arrancar por aí adiante a caminho da baliza adversária. Uma vez, depois de vários passes com o Pissarra, um puto cheio de talento, fui rasteirado na área adversária e tivemos direito a uma grande penalidade. Imagino que o Pissarra a deve ter transformado em golo. Velhos tempos. (…)

(daqui)

1.5.09

JOÃO CAMILO

OS POETAS SÃO SERES DOENTES


Muitas vezes os poetas confundiram a poesia
com a arte de cantar. E outras vezes
procuraram dolorosamente um ritmo digno das histórias
da literatura, esses monumentos ao tédio.
A rapariga que atravessava a rua à sombra dos plátanos
com a simplicidade inquietante da sua beleza fê-los sofrer,
mas em vez de falar do segredo eterno das suas pernas
e do perfil pesado dos seus seios nus debaixo da camisa aberta
esforçaram-se por esconder a perturbação e o pressentimento da morte
no castelo de mármore barroco dos símbolos e das metáforas.
Para aquele que não sabe olhar todas as tardes são a mesma tarde
e para quem não sabe ouvir todos os sons se assemelham ao ruído.
As pessoas passavam. Homens e mulheres que não iam a lado nenhum
e no entanto concentravam o espírito cheio de perguntas
nas pedras amarelas do passeio. Rapazes e raparigas
sentavam-se nas esplanadas dos cafés. Tinham os olhos
tão limpos. Neles podia reflectir-se
o universo inteiro e observando-os de longe
adivinhava-se que as palavras com que tentamos orientar-nos
no nevoeiro da existência são todas excessivas e até erradas.
E no entanto eles ignoravam as árvores e as casas, só sabiam
olhar para si mesmos. Como se um lume oculto
os subjugasse e faziam pensar na borboleta que queima as asas
na claridade brutal da lâmpada eléctrica. A tarde avançava.
Os poetas são seres doentes e têm medo da vida. Sem fim
apagam as luzes para que o quarto fique às escuras. As coisas
ferem-nos, pesam-lhes excessivamente no espírito. E eles preferem
a espessura protectora das sombras. É tão injusto ter de viver
para além da infância e da adolescência. Mas pelas persianas de madeira
o ar e a música da rua não cessam de querer entrar. E de longe
as montanhas e os rios enviam o cheiro de arbustos, de pinheiros.
Para resistir os poetas começam a cantar. Ou enterram debaixo das palavras
a violência demasiado quotidiana, excessivamente selvagem do mundo.



REALIDADE

Já não sei por que razão
escrevi o meu primeiro poema.
Os sentimentos «delicados» alguma vez me interessaram?
Nem eles nem a «beleza», verdadeiramente.
Foi por isso talvez que uma tarde me sentei num banco
e enchi a primeira página de palavras.
O sentimento poético no meu caso não é
exactamente o sentimento poético no caso dos outros.
Mas nesse tempo eu ainda não tinha aprendido
a respirar segundo o meu próprio ritmo.
Toda a gente viu o que fez um dos irmãos Marx
à roupa que ficou de fora da mala fechada:
pegou na tesoura e cortou-a.
Ou era o Charlie Chaplin e estou a confundir?
Todo o meu esforço tem consistido
em fazer entrar na mala o que lá não cabia.
Realidade, o máximo de realidade que for possível,
tem sido a ideia que me tem guiado.
E nada de comover-se com as palavras,
opor-se sem piedade aos desejos que elas têm
de ser aristocratas entre a plebe anónima da frase.
Tratei-as a todas segundo o princípio da igualdade,
em todo o caso esforcei-me por isso.
Não nego que tenho tido preferências e obsessões;
mas a privilegiada de um verso confunde-se
no seguinte com a sua sombra na parede.
A sociedade deve-me muita coisa e eu devia-lhe isto:
estar-me nas tintas para as suas estátuas,
para o oiro e a prata que ela distribui.
Não me ajoelharei diante de altar nenhum.
Quanto às palavras, trato-as como o domesticador
ao tigre e ao leão que depois do espectáculo
regressam humildemente às grades da jaula.
Escrever poesia é a minha maneira de participar
na luta das classes.
A tentação da beleza e os sentimentos delicados afogo-os
na velocidade do verso democraticamente longo.
E o «transporte» permite-me viajar de um verso
para o seguinte sem perder de vista a luz
ao fundo do túnel. Um subterfúgio ainda, evidentemente,
para meter dentro da mala pequena
o excesso de roupa que apesar de tudo possuo.
A César o que é de César e a cada palavra
o papel que é o seu. Se alguma
tem de brilhar, que brilhe; mas não contem
comigo para me prostrar aos seus pés embevecido.
De qualquer modo poucas ou nenhuma valem o bastante
para ocupar sozinhas o pedestal do verso inteiro.
Penso estas coisas e convenço-me
de que tenho vindo a abrir caminho com a proa
do barco da minha pouca ou nenhuma estima
pelos sentimentos dos que nos oprimem.
Há dias, porém, não li em Theodor Adorno
que o artista se confronta simultaneamente
aos materiais da sua arte e à sociedade?
Não escrevemos o que queremos escrever,
não cantamos o que nos apetece cantar;
escrevemos e cantamos as palavras e a música
que a sociedade, insidiosa, deixou ao nosso alcance.
Do estilo e da sintaxe é ela que decide.
É provável que eu não o ignorasse;
mas fiquei um pouco desiludido.
A liberdade que eu pensava que tinha conquistado
era apenas aquela que me tinham imposto.
Perdera tempo a reflectir e a lutar por ela,
exercitara-me em estratégias e manhas subtis;
mas em vez de alargar os limites da experiência,
tinha ficado no mesmo sítio a marcar passo.
Tudo estava previsto de antemão. Riam-se de mim:
não pus no papel o que senti, não disse o que pensava,
não me opus tanto como o imaginava
à ditadura de tudo o que não sou;
só falei daquilo de que podia falar
E o censor não era eu? Queria que me lessem.
Devo ter esperado que me amassem pelo que escrevia.
E não tive asas, limitei-me
a andar de gatas à volta da mesa
a que tinha presa a perna com um cordel.
Se é verdade que lutei contra o desejo
que tem as palavras de se lhes dar importância,
não posso negar que me servi da tesoira salvadora:
borracha que apaga o que não cabia na página do caderno,
cortina que esconde o que não fazia parte do cenário.
Ter preferido o país democrático da frase
à monarquia absoluta da palavra
não pôde livrar-me dessa insuficiência.
Este poema, pelo menos, podia ser o início de outra era.
Mas calha mal. Já passa das duas da manhã
e arrefecem-me os ossos na sala onde entra o vento.
Além disso, antes de ser definitivamente mal-educado
tenho de dar algumas provas mais de respeito e consideração.
É por isso que o poema vai terminar aqui:
o poeta, coitado, está cheio de sono,
tem a cabeça baralhada por causa do Theodor Adorno
e raciocinará mais tarde sobre a essência da poesia.

(de A Mala dos Marx Brothers, editorial Caminho, 1988)

30.4.09

JOÃO CAMILO

AS CRINAS DO VENTO


O vento: música ou murmúrio da árvore.
Encosta a obsessão à parede branca dos quintais.
Vento de mar? E jovem leva a nuvem.
Os sinos de bronze, o cimo das searas:
viver é brusco, tão incerto.
E a minha mão, desabituada de sentir que toca
e é gesto
e me deixa possuir,
a minha mão quer a janela aberta. O vento não tem,
não, não tem
crinas.
Nem as costas luzidias de cavalo ou égua.
Áspero,
vidro partido espetado na terra.
Os dentes de uma serra,
espaço de repouso e cume que agride.
Pôr a mão em tanto
e sem respirar
quando parecia que era tarde e apenas
hora de dormir?



ABRIL PROVENÇAL

A noite de primavera imobilizada na sua quietude.
O ar quase quente, o azul do céu entre os ramos das árvores,
enquanto na avenida as pessoas não paravam de passar.
Um rapaz em tronco nu deitava-se nos vidros partidos,
um violino e uma flauta cantavam na esquina de uma rua.
Os braços despidos das raparigas, os olhos com que elas olhavam,
com sombras azuis na pele tão jovem das pálpebras.
E debaixo das camisas os seios nus como os rebentos nas árvores
iam surgindo do inverno, incitavam-nos a ver no verão
o tempo da nossa plenitude. A noite: horas que o sol
usa para colorir frutos distantes de outros continentes.
E raparigas aproveitam para sorrir nas margens desses rios,
no centro dessas cidades, às janelas entreabertas sobre a manhã.
Concentrada na perfeição em que se fixara,
a cor azul, como a ausência de vento, dir-se-ia eterna,
destinada a noite a não viver senão certa idade jovem,
a morrer adolescente nos braços trágicos de uma luz brusca.


(de Para a Desconhecida, Fenda edições, 1983)

29.4.09

LUDWIG VAN BEETHOVEN

Piano Concerto No 2


(Berlin Philharmoniker, conduzida por Claudio Abbado; Solista: Mikhail Pletnev)*



(continua aqui, aqui e aqui)


JOÃO CAMILO

NÚMERO DOIS


Beethoven, concerto número dois para piano.
Com um canivete corta-me devagar por dentro
a parte da alma mais encostada à carne.
O prazer que a Camões também doía e as palavras
de depois de inventá-lo. O sol que brilha e ilumina
o verde das primaveras que nesta se repetem. Enu-
merar: como quem coloca cada som depois do outro
e parte para a solidão. Uma lâmina pequena corta-me
por dentro das próprias veias no meu corpo
desconhecido as mais pequenas fibras. E sei que
existem e é delas que se extrai
a revolta com que vou nascendo para
ver-me de pé enquanto reaprendo
a não esquecer que um dia finalmente
tudo terá passado. E esta aventura
de estar aqui hoje há-de perder-se
no tempo que consome tudo e nos consome
a nós no uso de nós mesmos. Afeiçoarei o meu
corpo cada dia mais definitivamente à imagem
da pequena morte que nos chega que toca
os olhos na retina os ouvidos na membrana
do tímpano e passa a circular no sangue com a
embriaguez. Assassínio lento de mim mesmo,
Claudio Arrau pianista chileno vai
pontuando o tactear da lâmina
no meu corpo e eu sentado contemplo as cores
dos objectos à minha volta e vou dando pelo
espanto de assistir à passagem de mim
mesmo pelo que me rodeia.



O CAMPEÃO DE ROLAND GARROS

Esta tarde sou eu o homem da raqueta mágica.
A minha juventude resplandece no terreno central
de Roland Garros. Ergo o braço vigoroso, olho fixamente
o meu adversário ao fundo sobre a linha a saltitar.
Lanço a bola ao ar e bato com força, vejo-a rasar a rede,
quem poderia pará-la e devolver-ma perigosamente?
O público aplaude e eu limpo o suor do rosto com a mão,
tomo posição de novo e vou bater a bola com a mesma convicção.
A minha perna esquerda suporta o peso do corpo, a mão direita
segura na raqueta com energia e o braço corta o ar veloz
enquanto o ruído seco da bola batendo na terra soa no silêncio
como a música da perfeição. Mais quinze pontos. Dentro de pouco
tempo tenho mais um jogo ganho. Para isso passei as manhãs em exercícios,
me privei do álcool e do fumo, das distracções fugazes e inúteis.
Se o olhar das raparigas não me escapa, nem os belos dentes
brancos que elas têm, nem os seus braços nus, os seios redondos,
a minha preocupação maior é respeitar o andamento deste concerto,
responder ao meu adversário com o rigor dos gestos que surpreendem
e causam admiração. Dói-me como o problema do desemprego
nas sociedades modernas escravas do lucro e da vontade de produzir
a bola mal batida que sai fora das linhas brancas deste jogo.
Tem-me atormentado noites inteiras a devolução defeituosa
que fiz de uma bola fácil que me enviara um jogador medíocre.
Às vezes impede-me de comer a sensação que tenho de não poder
colocar todas as bolas no interior do rectângulo. Mas o homem
é um ser imperfeito apesar de todas as horas de aprendizagem,
de todos os minutos passados a aperfeiçoar os gestos mais simples.
Erros de cálculo, a bola que devia passar a rede e não passou,
ou a que vai sair ligeiramente ao lado dos limites fixados.
Esta tarde, porém, a sorte sorri-me. Ou antes: os meus gestos
são de uma perfeição à medida da minha lucidez e energia.
A consciência que eu tenho de dominar os elementos inebria-me
e em cada corrida que dou crescem-me asas e aumenta
a minha confiança nos limites e capacidades humanas. Estou
contente comigo mesmo. Não sou vaidoso, estou apenas satisfeito
com este rigor. O meu adversário é obrigado a deslocar-se
de um canto do terreno para o outro a toda a velocidade. Às vezes,
claro, não chega a tempo. Terá trabalhado tanto como eu, passado tantas horas
a ensinar o corpo a obedecer-lhe, a não traí-lo? A atenção,
a enorme concentração é que explicam em grande parte a minha precisão.
Conheço também as manhas e manias das bolas que batidas
vêm a rodar sobre si mesmas ao encontro da minha raqueta.
O meu jogo de pernas, segundo os entendidos, assemelha-se ao de um
jogador de golfe, ou de hóquei, ou de boxe. A mim parece-me
que sobretudo é idêntico ao gesto do violinista que percorre a corda
e cria o som de um rigor e intensidade que penetram
em todas as fibras do espírito. A minha única vaidade é estar contente.
Bem sei que à margem deste campo desportivo (com gente sentada nas bancadas
a seguir atentamente o mais pequeno dos meus gestos) existem
outras coisas. O desemprego dos jovens, a ameaça atómica, a vida absurda
nas cidades modernas, porém, não me são desconhecidos. Sei também
que a beleza é um pássaro excessivo ao lado da miséria e dos defeitos físicos.
Ao ver-me agir, porém, e ignorando quanto da minha imperfeição se esconde
na facilidade com que executo estes gestos rituais e calorosos,
quantos não terão sentido por momentos que a força secreta
que governa o nosso destino se podia finalmente libertar?
Nunca discuto a decisão do árbitro, mesmo se o público assobia,
mesmo se vi a bola cair dentro ou fora ao contrário do que ele diz:
o jogo é humano e os homens erram, tenho muitas bolas
e toda a tarde para provar o meu talento e a minha força.
É altura de pôr em jogo bolas novas. Vejo-as brancas
a saltitar na terra vermelha e tomo-lhe o peso, sinto
na mão a aspereza nova dos seus pêlos. Ah, ser sempre jovem.
Bato-as com força e o meu adversário do outro lado da rede
não consegue resistir durante muito tempo à pressão que eu exerço.
A dado momento acaba por enervar-se, pensa que vai surpreender-me,
e lança a bola para lá do risco. Paço depressa quarenta pontos.
O jogo está muito perto do fim. Admiro o jogador
que me faz correr a mim e me obriga a ser inteligente,
é ele o instrumento da minha glória e do meu contentamento.
É ele, também, quem me impede de atingir enfim a perfeição divina.
É por isso que não sorrio por fora, que nem sequer deixo o entusiasmo
ganhar-me muito por dentro? Continuo sem perturbar-me
a executar da maneira mais austera esta partição.


(de Na Pista Entre as Linhas, Gota de Água e Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982 - Plural)


* Aparentemente, o Concerto No 2 é o único de Beethoven que não se encontra no YouTube interpretado por Claudio Arrau, o intérprete referido no poema.

28.4.09

JOÃO CAMILO

NAS ALÇAS DA MEMÓRIA


Chovia. Na minha memória.
E eu chorava. Mas não chorava.
Lágrimas ou as saudades das manhãs no campo
eu sou um ser remarcavelmente com saúde.
A água corria. Na torneira estornecia.
Ou entornava-se ou destorneirava-se
a mim é que ninguém vinha dizer
os hinos que se escutam nas banheiras
nas tardes em que o sol aquece porque sim. E porque não.
E amarela e vai descolorindo. As paredes.
Dos conventos. Os muros das adegas das aldeias
as torres das igrejas nas planícies. Histórias.
A minha infância que me caía ou escorria
não sei se dos meus pés se do tecto branco
da casa branca onde então seguia. Vivia
e ia morrendo. Mas vivia. Dava por isso
quando punha o cinzeiro na frente da mulher
em quem as minhas mãos procuravam recordar-me
de qualquer coisa em que não pensavam.
Se estar vivo é isto de tão triste e não saber.
Se saber é triste de tão isto e não estar.
Que sei lá. Quem o dirá ou o diria
a mim que com olhos verdes me arrependo
me arrepenteio nos cabelos dos meus dias? Assim?
Assim. Há caranguejos e outras banalidades
há a mesa em que me apoio e os prédios ao lado
de que serviria pô-los para cima? Assim.
É assim que se dá conta do olhar com óculos
que do buraco de madeira cavado no vazio
me lançava as chispas com que se misturam
à noite em casa os ócios e o desejo. E a raiva.
Mas quem dessa camisa com suor na manga
havia de extrair o papel branco
com o poema quase redigido? Uma camisa
é uma camisa. Nada a fazer. Constatar
que um homem dorme quando o sol circula
nas alturas pouco vertiginosamente. E a pressa.
E o binóculo. E morrer e pedir e esquecer
e esmolar com que se esmurre a cara
daqueles que nos têm ofendido. Que são
muitos. Eu estava e estive
tenho estado e revejo que estarei
para suportar o peso ainda desses anos
em que a camisa finalmente despedida
– ah as histórias que a gente inventa
para não ter de falar da viabilidade da vida.
Ou é nos intervalos do silêncio
que se rompem os vidros da janela
onde estivemos com ideias de voltar?
E não voltámos não revimos nunca mais
esse quarto de cama essa cama de quarto
esses bonecos espintalgados na parede.
Na parede branca. E havia a janela.
E o tecto era baixo e estava-se bem
ali certamente no outro dia de manhã
longe dos homens com aquele corpo
com aqueles olhos da desperdiçada rapariga.
E hoje é isto. Vaga recordação de natais que se perderam
olhos e lâmpadas ruas de cidade onde passámos
muito brevemente numa janela de comboio de viagem.


À HORA DO CAFÉ

Há salgueiros na margem e um rio sobe nas tuas pernas,
a planície começa na lenta rampa do teu seio.
Os peixes jovens exploram a areia,
conserva a montanha suave o segredo da solidão.
É não provocar no sangue que corre sobressaltos
enormes que é melhor. Mas a inocente
violência da infância tão cedo terminada,
a exigência áspera dos ossos dos joelhos?
Antes de ires, desconhecida, olha para mim.
Como se te bastasse estar ao meu lado no cinema
ou fôssemos depois de amanhã passear à tarde no campo.
Antes de partires, e nunca mais te verei,
de me pores, como à carne quase crua e doce, de lado
na tua memória.


(de O Ruído Fino, in A Jovem Poesia Portuguesa / 1, Limiar, 1979 – Os Olhos e a Memória)

16.4.09

JOÃO CAMILO

3


citai-vos uns aos outros, ó metidos até aos olhos no óleo castanho da nossa civilização milenária, cantai-vos, também, não me convidareis a mim para a celebração dos vossos banquetes inevitáveis, não respondereis às minhas cartas quando da cave das cidades vo-las envio, haveis de detestar-me e esquecer-me-eis antes que eu vos esqueça, será porque não participo convosco do ritual com que prateais as atmosferas, porque não toco as vossas mãos nem estendo a minha língua à comunhão do pão quotidiano que entre vós dividis? e no entanto como eu vos admiro quando da humidade dos cafés de bairro, sentado à mesa das tabernas, infeliz, anónimo, mal vestido, vos recordo, por vossa causa também as raparigas são menos raparigas — ao aceitarem das vossas mãos as palavras com que se abriria um caminho na cidade, por que deveriam ser amadas, não recebem mais do que o cobre que a humidade corroeu, moeda triste com que não poderão comprar nada que não seja de segunda mão. havia de chicotear-me até ao sangue só porque em qualquer parte vos citais e vos amais e continuais a contribuir para a decadência do que vale? vós não me conheceis, quem sabe o significado que os mais atentos de vós atribuiriam ao meu protesto.


(de aos modernos, in Os Filmes Coloridos, edições Árvore, 1978)

17.9.07

JOÃO CAMILO

I


1

É de manhã, os pássaros
cantam. De que infinito guardaram
a nostalgia? Enquanto a desconhecida dorme ainda
ao lado da janela. E eu contemplo o cimo das árvores.

2

Ao lado da janela dormes.
Desconhecida.
E um rio, como esquecer, separa-te da luz.
Um peixe ou pássaro descansa na tua orelha,
a folha - ou som? - é cor nos teus seios.

3

O cabelo desviado da fronte
a construir a margem da orelha.
O seio nu no lençol branco,
página de livro nova
no cheiro e no olhar.
Ventre liso, céu, mar,
viola,
onde se esconde o acorde. Ao lado
da janela dormes. Desconhecida,
e eu sopro sobre as folhas do arbusto,
na solidão do silêncio.

4

O tambor do revólver
roda
à volta no teu sangue.
Melro inquieto das tuas veias.
O ponto de mira no cano
da pistola
descobriu o meu olhar,
acompanha-me:
quotidiano como os minutos
e segundos
do nosso encontro
na escada.

5

As tuas pernas tocam a claridade.
No calor da noite.
Perto das florestas,
na inclinação das colinas.
E aprendes com que colorir-nos
o dia.
Enquanto os teus cabelos acariciam o terror

E despertas repousada.

6

Os teu cabelos alongam-se,
roubam a cor à árvore
(é outono)
e a luz e brilham.
No esconderijo da noite.
O sono: estás distante,
tão calma.
Na sombra das árvores o silêncio
das colmeias
inquieta o pólen das flores.

7

Ao lado da janela,
desconhecida dormes.
Com o sono
- ponte de vidro -
E o teu pé nu.
E o ar que te respira
deixa de esperar

o azul da luz do dia.

8

As árvores em frente de casa
não perderam de vista o teu cabelo.
Imitam
o método de cair no ombro,
a linha, a curva lenta, a cor,
o sobressalto de tocar a orelha.
E eu?

9

Da adolescência das tua pernas,
da sua solidão,
o pequeno caminho conhece a sombra:
calor do mármore.
E o silêncio
- luz e água,
tensão -

que nelas se move.

10

Longe das florestas dormes
desconhecida.
Distante das montanhas,
das colinas.
O algodão do sonho separa-te da sombra,
um arbusto - ou árvore? - adormece no teu rosto.
E eu?

11

A água das fontes,
o calor dos campos,
pulsam no teu corpo.
Desconhecida,
no refúgio do quarto descubro o teu olhar.
Lago escondido, visto
do cimo da montanha?
Página, arbusto, árvore,
folha, peixe, som,

rio,
floresta,
melro.


(de Para a Desconhecida, 1983)

1.1.06

J. Camilo é como se identifica o autor de Blue Everest, um blog com mais de um ano, mas que só há umas três semanas encontrei.

De poesia, predominantemente em inglês, mas também em português e imagens.

31.8.05

[outros melros XXIX]

JOÃO CAMILO

4

O tambor do revólver
roda
à volta no teu sangue.
Melro inquieto das tuas veias.
O ponto de mira no cano
da pistola
descobriu o meu olhar,
acompanha-me:
quotidiano como os minutos
e segundos
do nosso encontro
na escada.

(de Para a Desconhecida, 1983)