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18.4.11




JOÃO CANDEIAS


o testemunho dos olhos


esta gargalhada de mulher não existe
na garganta, sementeira de gargalhadas
mortas e de penas de aves migradoras.
pendente a cabeça passa sobre nuvens
e o torvelinho das vozes sufoca à nascença
o gesto ritual entre os vaga-lumes de nicotina.
é de noite: seja dia: tanta noite, tanto dia.
nas horas do néon a loura seara do corpo, o corpo
ágil, o corpo-desejo estreito, haurindo o sumo
das bocas ígneas de lábios sôfregos, circulares
diálogos estriados de paladares e sons, sede
de lábios no recesso da língua viajando
sensitivas eternidades, língua que resguarda
a voz do sono e as armas que sempre sobram
dos sonhos rebeldes.
perturbante humidade, que chove na rua incontida.
a música, pacific 231 de arthur honegger, toca.
as gatas dançam o ritual do cio e há algures
no espaço um sol que acende luas citrinas
e outro que é pela noite consumido.
a mulher desta gargalhada não existe.
afirmaria afinal a ausência do diálogo
em que apenas participam partículas de som
como campânulas iníquas, implosões de bramidos
e a distância (ab)surda de estar nos olhos fixos
no gume das baionetas vitoriosas, nas esquírolas
das palavras que génios-profetas eternizam.
só os olhares, o testemunho dos olhos

(de Ignição Ozone, espiral, 1984)

29.3.10

JOÃO CANDEIAS

DESERTOS

1


Sabes deste deserto exangue. Aqui te falo
com as caravanas sobre o deserto das palavras.
Nos recantos guardam-se os segredos
que acantos escondem em ramagens aladas.
Na tua boca, no recesso desse murmúrio, tanto corpo despertámos.
Da tua voz vaga, a memória: foi neste remanso
que destruímos vagos ícones, foi no segredo destas
pedras que inventámos a alquimia do corpo
poro a poro fundimos novos destinos.
Cresceu o tempo entre o sol e a noite, templo de ausências.
Encheram-se os olhos de deserto, de lágrimas. Esparsos oásis.
Os pés em fogo, a água ausente, lágrimas apenas. O horizonte
junto ao céu, longe. Rastos, vestígios, peregrinações


2 (variante)

Sabes deste deserto exangue. Daqui te falo
donde os recantos guardam os segredos.
Aqui te falo, com as caravanas sobre o deserto das palavras.
Sabes deste deserto que os acantos escondem
nas aladas ramagens.
Tanto corpo despertámos. Aqui te falo.
Murmúrio, voz e memória: destruímos vagos ícones
no segredo das pedras, nas aladas ramagens.
Inventámos o corpo, a alquimia dos destinos.
Cresceu o sol e a noite, cresceu o templo das ausências.
Enchem-se os olhos de deserto, de lágrimas.
Aqui te falo. Sabes deste deserto exangue

(de Voltei à casa pequena, editorial Diferença, 1999)

23.7.09


O texto de apresentação do livro Chave de ignição (de onde retirei o poema do post anterior), do meu Amigo Ruy Ventura, está acessível.
O Autor é o Poeta João Candeias.

12.7.06

[Quarta-feira, dia da Alegria]

JOÃO CANDEIAS


2


volvamos o olhar sobre a terra
onde se afaga a tepidez da carne e as lavras
se pede a alma do húmus em seu seio.
porque eu sei que de profundos sulcos
fica o rosto quando percorre arados na paisagem
e céus no infinito, pontos que arrastam
zodíacos de lama, rios de prata morta
peixes que passaram e forma vivos.
transcorrido o alcatrão onde morrem cães
pela madrugada da surpresa chegamos
ao lar de granito. séculos, séculos ternos
de água cultivando a sede

(de Voltei à casa pequena, editorial Diferença, 1999)

9.7.06

JOÃO CANDEIAS

este hemisfério

I


quando o homem se senta na sua
cadeira de para quê e escreve
uma labareda inunda de chamas
o apenas lume que parece.
e dentro delas há um corpo eros
que se derrama na efabulação do mito
de tanto ser e da verdade que parece.
pouco a pouco como as orbitas do tempo
se vão construindo os pesadelos sonoros:
algumas falas que de dia se insinuam
de noite fingem dormir atormentadas.
por isso minha avó não teve úlceras
duodenais nem flatos coronários.
ela não tinha a moral inventada
dos párias que agora a têm.
e eros dormia um sono de aguadas
azuis e telas francas.
no ventre um báratro mistério
esguio azougue e invasões de mel.
telhas que se desmoronavam e medravam
quando a ressurreição da fé perdida
gerou um pai que foi o meu


II

retomo o labirinto das adagas
de seu fio uma distância inerme;
como espelhos medem a errância
do gesto, enquanto a certeza divaga
se silaba numa fractura de segundos
destruídos.
passam à janela algumas hordas
límpidas de flâmulas coruscantes
e gritam o sangue cardeal das artérias
que dão o ponto norte e o pólo oposto

(de Ignição Ozone, espiral, 1984)

23.5.05

JOÃO CANDEIAS

Um só começo


um só começo. momento da largada
à bolina das tentações. eu quis a
vida dos impérios, agora quero-lhes
a morte. a esta ordem opõe-se uma
outra ordem, como olho longo de
história irreversível. uma flor colhida
ganha o sentido único da energia resguardada.
um corvo precipita um relâmpago negro
sobre a baba branca do verão.
estamos vivos. estamos vivos ainda
na busca do berço inicial, quando
rejeitamos à lama o corpo pobre e minucioso
a transparência das profecias novas
embriaguez tão plena de outras descobertas
mãos arrastadas sobre o granito das
longas caminhadas nocturnas.
mas cambaleamos, e se finalmente regressamos
à chave do nosso repouso, uma criança
todavia, fere de lâminas nuas, o provecto
rosto que cresceu num outono convulso
de apelos inaudíveis

(de Estamos muito longe Meu Amor de alcançar a Terra Prometida, Átrio, 1992)