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27.4.06

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

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vamos então falar de arvores antigas abrigos e
outros ventos. olá: diz-me o teu nome (se quiseres)
tenho dois ou três pensamentos (nunca mais que)
penso já em escrever o romance das brisas húmidas.

uma vez li um poeta que dava vida aos castelos
ensinou-me: pequenos cheiros à margem dos
sentidos não te prendas à noite (a visão mais
perfeita do mar é tomada do cimo das falésias).

queria agora acrescentar-me a ti mas (sabes?:)
faço destas linhas a eternidade algo assim
como o diálogo (nosso) entre o corpo e o riso

resta ficar dentro dos dias. é verdade: de que
me querias falar? perdoa mas a manhã está-se
a esgotar (não tenho tempo: a perder)

(de Há Violinos na Tribo, 1989)

1.1.06

Poesia & Lda. é um novo blog, de autoria do poeta João Luís Barreto Guimarães.

A propósito, recupero aqui um excerto duma carta de Fernando Pessoa que postei no dia do aniversário da sua morte:
Quando vi que o Orpheu era dado como propriedade de «Orpheu Ltda.» observei ao Sá-Carneiro que era preferivel dizer «Empreza do Orpheu» ou coisa parecida, e não empregar uma designação de sociedade por quotas. «E se alguem se lembrar de pedir a certidão de registo no Tribunal do Commercio?» «Você crê?» disse o Sá-Carneiro. «Deixe ir assim. Gosto tanto, tanto da palavra limitada».

14.12.05

[da Alegria]

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

estamos dentro dos dias eu: na cidade do mar hoje é Dezembro
quase Natal quase partilha conheço alguns que têm contribuído
para a construção da terra (oh peço perdão desculpe mas:)

nunca trago trocado comigo. edificamos barreiras nos dias
(a nossa pequena história) reconhecemos nossos passos
desejamos o corpo dos amigos por entre mesas de taberna

entre a sangria e o mimo. na hora de todas as coisas: para
onde vamos? alguém nos irá julgar? talvez não seja esse o
momento final (as partidas foram feitas para se poder
regressar). vivemos para o efémero tentando convencer um

deus mas deuses assim têm um tempo de humanos. passamos
ao lado dos barcos (o tempo avança por sílabas) pode parecer
estranho escrever assim mas é quase manhã e ninguém
confessou ainda quem foi que deu o desfalque no meu coração

(encontrado na antologia Natal... Natais, de Vasco Graça Moura, Público, 2005)

17.2.05

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

7


um gato assim era quase um sítio perdido entre
o pêlo e o acordar (pequena fábula sonhada por
entre as patas) quem o enviou quis ensinar ao
mundo o sentimento da inveja. a mãe tirava da

boca para lhe dar assim mesmo o lorde mentia
na hora a que chegava das sete vidas paralelas.
um dia fugiu pela manhã o (in)g(r)ato mesmo
sem se despedir ou pagar o que levou:

a coleira nova e o guizo ....................... 150$00
duas latas de comida ............................ 395$00
um saco de areia higiénica ................... 200$00

dá notícias pedaço de deus se acordares desse
intrigante sono repousando de (qual?) cansaço
que pensas tu afinal de Ivan Petrovich Pavlov?

(de Rua Trinta e Um de Fevereiro, 1991)

13.1.04

[mesmo sem perceber nada do assunto, sugiro ao Tiago, em face das últimas notícias, que comece a fazer-se acompanhar deste poema:]

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

ANSIEDADE


Os
últimos passos do dia pela casa
são os meus. Cerro a
porta de entrada na
última ronda pela sala
deixo
o ruído da noite tocar a
ruína da alma. A
manhã que vai trazer? Será dia de perder? Na
arte
da grande roleta: o que irá tocar aos meus?
A
trégua que ora me assola parece
querer demorar
mãe e
filha já dormem dentro deste território onde
devo parecer norte
onde me
toca
ser homem.

(de Rés-do-Chão, Gótica, 2003)