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14.12.07

ANTÓNIO RAMOS ROSA

A S. JOÃO DA CRUZ


Por uma secreta escada
desceste ao nocturno horto
onde encontraste o Amado
pastor de invioláveis graças
entre perfumadas nascentes.

Sem arrimo e com rumo
da tua cegueira vidente
te consumaste no centro
da divindade obscura,
alma e amor conjugados.

Num cego e escuro salto
subiste e logo desceste
para de novo subires
à indizível essência
de um não sei quê misterioso
ao qual, inteiro, te rendeste.

Pão vivo e fonte eterna
chamaste ao fruto escondido
que o teu desejo aspirava
e nele encontraste guarida
mesmo dentro da noite.

Sabias não haver caminho
para chegar a essa fonte
de que a origem não sabias
e que de tudo era origem
e a que chegaste num lance.

Toda a ciência transcendias
sem entender entendendo
e no puro imo bebias
o sol da profunda noite
em divina companhia.

Nada mais te contentava
que a vida da tua vinha
que lá no alto pairava
e lá no fundo ardia
com o rosto da formosura.

Chegaste aonde não eras
por onde não eras foste,
sempre às escuras na noite
até esse não sei quê
que é a existência da Vida.


(de Os Signos da Amizade, edições Asa, 2004 - colecção pequeno formato)

14.12.03

São JOÃO DA CRUZ, presbítero e doutor da Igreja

Nasceu em Fontiveros, província de Ávila (Espanha) pelo ano de 1542. Depois de ter passado algum tempo na Ordem dos Carmelitas, foi o primeiro entre os seus irmãos de Religião que, a partir de 1568, persuadido por Santa Teresa de Ávila, se declarou a favor da reforma da sua Ordem, tendo suportado, por isso, inumeráveis sofrimentos e trabalhos.
Morreu em Úbeda, a 14 de Dezembro, no ano 1591, com grande fama de santidade e sabedoria, de que dão testemunho os seus escritos espirituais.


(...) falando agora segundo o sentido e afecto da contemplação e conhecimento das criaturas a alma vê que há nelas tanta abundância de graças e virtudes e formosura com que Deus as dotou, que lhe parece estarem todas vestidas de admirável formosura e virtude natural, derivada e comunicada naquela infinita formosura sobrenatural da figura de Deus, cujo olhar veste de formosura e alegria o mundo e todos os céus; assim como também pelo abrir de sua mão enche de bênção todos os viventes, como diz David (Salmo 144, 16). E portanto, a alma, chagada em amor por este rastro de formosura do Amado que conheceu nas criaturas, em ânsias de ver aquela invisível formosura, que esta visível formosura causou, diz a seguinte canção:

CANÇÃO VI

Ai!, quem pod'rá sarar-me?
Entrega-te, em arroubo verdadeiro;
Não queiras enviar-me
Mais nenhum mensageiro,
Que não sabem dizer-me o que requeiro.

(...)

Como se dissera: eu quero-Te todo a Ti, e eles, os mensageiros, não me sabem nem podem dizer a Ti todo; porque nenhuma coisa da terra nem do céu pode dar à alma a notícia que deseja ter de Ti, e assim não me sabem dizer o que eu quero. Em lugar destes mensageiros, sê Tu o mensageiro e as mensagens.

(a tradução das anotações é a das Obras Completas, edições Carmelo, 5ª ed: 1986; a tradução da Canção é a de José Bento em Poesias Completas, Assírio & Alvim, 1990, que inclui gravuras de Ilda David')