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27.5.06

[para uma antologia de bicicletas - 7]

JORGE LISTOPAD

Teatro e bicicletas


Já se sabe o que vou dizer: os teatros em Praga estão cheios. Porém, alguma coisa nova. A maioria dos espectadores são jovens - excepto nos teatros nacionais e afins, e chegam de mochila às costas. E mais do que isso: de bicicleta. Nos pequenos teatros encontramos um espaço onde as bicicletas se repousam durante o espectáculo.
Aliás, a febre da bicicleta apanhou a cidade. Os meus amigos professores universitários vão de bicicleta para as aulas, e um querido amigo de literatura comparada fez-me um estudo comparado sobre andar de bicicleta em Roma, Paris e Praga.

(Segundo capítulo de Algumas vezes sobre qualquer coisa, in Jornal de Letras n.º 930, de 24 de Maio a 6 de Junho de 2006)

4.2.04

Jorge Listopad, no seu blogue em papel de jornal, Sol & Sombra, fala de duas das exposições que referi a semana passada:

23 de Janeiro - A fotografia de Gérard.
Gérard Castello-Lopes, amigo de muita gente porque gosta, é (excelente) fotógrafo, pela mesma razão. Quando não gosta, não fotografa. Homem feliz. Actualmente, expõe sob o título "Oui Non" no CCB: 150 ou mais fotografias desde 1956, pretos nos brancos.
Observemos o que observa o fotógrafo e como o faz. Dos plongés sedutores do início, de vidas distantes, até chegar mais perto, aos bancos públicos, horizontais sem horizonte: eis a agitação aparentemente tranquila do mundo. De ligeiros toques neo-realistas até à arquitectura da solidão. Tudo real - tudo ficção. Tudo ficção - tudo real.
Em síntese: do primeiro processo de assimilação ocasional em evolução até ao processo selectivo e exclusivo. Uma vida de pudor: o seu documento; o alibi fotogénico.

28 de Janeiro - Noronha da Costa
Não haverá muitos dias para ver (rever) a exposição de Noronha da Costa no Centro Cultural de Belém. Mas imaginemos, essa pintura tão anti-euclidiana, sem sustentação de ângulos, se fosse apresentada em espaços deformados, ambíguos, as superformas soberanas, embora tudo mal definido, em vez dessas paredes regulares iluminadas regular e correctamente. Imaginemos a exposição de Noronha da Costa dramatizada, encenada: que grande teatro do heterocosmo. Que simulação de outro mundo sem vertical, sem horizontal.

(na última página do JL que saiu hoje)

8.7.03

JORGE LISTOPAD
Já aqui falei dele. Da outra vez esqueci-me de dar a referência do primeiro volume da sua prosa reunida. Aqui vai: Fruta tocada por falta de jardineiro, edições Quasi, 2003 (colecção Em Nome da Terra). No prefácio, Agustina Bessa-Luís diz que “não há como um humorista para ser poeta; delicioso e autêntico poeta” e explica-se: “não gosto daqueles poetas a quem, como dizia Nietzche, a dor faz cacarejar como as galinhas. Nos autênticos poetas, o humor é prova duma desilusão profunda. Algo que, por subtil, não tem nome, nem aspecto. É uma sombra da dor, mas não é dor. É como o nome de Tristão – só é triste porque foi nomeado na tristeza.”

Outono

Qualquer dia tens finalmente de contar a alguém, talvez a teu filho, ao nosso filho, refractário indivisível, que te amei muito e fazia bem amor contigo. Uma vez, hoje, tomámos banho nus, ouvimos o Requiem KV 626, trouxeste a pêra parda cozida até à água transbordante; depois vesti-me com a camisola comum e fui, vou comprar a canela para fazeres o arroz. Com a canela compro sempre um pouco de proa ao vento azul do velho barco de um oriente de estampa, criado na pátria de água doce. Ao regressar, subindo a rua, amo-te. O futuro ainda vai no adro; a leve aragem do indicativo presente ondula o ar, mas quase não há fronteiras, tempos verbais, margens, e se não houvesse as colheitas de castanhas, não sabia soube que é era será outono no outeiro chamado mais exactamente outubro segundo o calendário gregoriano.

Cavalos

Os cavalos são amigos se forem muitos ou pelo menos mais que dois. Com um só cavalo não sei como falar. Com vários cavalos tudo é fácil, trocamos ao de leve as experiências da vida, queixamo-nos um pouco, rimos também, é preciso saber que os cavalos não gostam de todos os cavaleiros nem de todos os carros que os seus avoengos puxavam, de igual forma eu não gosto de todos os que em mim mandam nem de todas as pastas e dossiers que trago.
Ao fim da tarde despedimo-nos, cada qual irá em sua direcção, se calhar, vou beber chá feito por mim e os cavalos, é verdade, não sei se estarão condenados à palha doirada um pouco desdoirada. Hei-de perguntá-lo amanhã de manhã. Amanhã.

Chuva

Vamos acordar de manhã e estar mortos. Será tudo ainda mais leve e perguntarás: «Queres o pequeno almoço?» E eu, mais tarde: «Daremos parte do acontecimento aos nossos amigos?» E tu: «Quais?»
Não nos será difícil descer a rua. Vamos então lembrar-nos de que é mês de Agosto, em Lisboa, apesar do chuvisco suíço.
«Quantos dedos tem a chuva? Muitos?»
«Cinco», digo.
«Só?»
«Em cada mão.»
«Apanha-se bom ar». Pego os teus dedos com desapego. Dedos de yoga.
Iremos. Leves. Em simpatia térmica com tudo. A paz finalmente. A administração frugal: excepcionalmente banal, como a saudade de corpo e alma sem regresso e sem perspectiva além dessa rua longa, estreita, irregular, de natureza boa e segura.
Continuará a chover mas não vamos ficar molhados. As frases curtas, sempre mais curtas. Mais curtas. Curtas.
Acabo a perguntar: «Escrevo tudo isto?»
Escrevo no meio da cidade silenciosamente percorrida, com chuva a cair nas artes gráficas.

(de primeiro testamento, edições rolim, 1985 - colecção A Hora do Lobo)

26.6.03

«17 de Junho – Diário imaginário . … Nada. Ainda hoje esquecemos que somos felizes. Nada. Esquecemos que somos felizes ainda hoje…»

[Selecciono isto do meu blog favorito que não é destes da internet; é em papel de jornal e vem quinzenalmente na última página do Jornal de Letras – chama-se Debate-Papo. Quem o faz é um senhor nascido em Praga, na então Checoslováquia (e que agora é a capital da República Checa), que aprendeu português em seis meses, lendo o Crime do Padre Amaro sem dicionário. Escreve contos, teatro, poesia e é encenador. (aliás publicou recentemente o 1º volume da sua prosa reunida, nas Edições Quasi)

É Jorge Listopad.

É ele também o responsável pelo melhor refúgio dos jornais nacionais: um espaço com 5 cm de largura e altura variável, com fundo negro e um coelhinho branco, onde não se dão informações nem opiniões, não se fala mal nem bem, efémero e sem pretensões estéticas ou filosóficas. Indispensável!!]