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2.4.17

JORGE LUIS BORGES


O AMEAÇADO

É o amor. Tenho de me esconder ou de fugir.
Crescem as paredes da sua prisão, como num sonho atroz. A bela máscara mudou, mas como sempre é a única. De que me servirão os meus talismãs: o exercício das letras, a vaga erudição, a aprendizagem das palavras que o agreste Norte usou para cantar os seus mares e as suas espadas, a serena amizade, os corredores da Biblioteca, as coisas vulgares, os hábitos, o jovem amor da minha mãe, a sombra militar dos meus mortos, a noite intemporal, o sabor do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.
O cântaro já se quebra na fonte, o homem já se levanta à voz das aves, os que olham pelas janelas já se escurecem, mas a sombra não trouxe a paz.
É, sei já bem, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir a tua voz, a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.
É o amor com as suas mitologias, com as suas pequenas magias inúteis.
Há uma esquina por onde não me atrevo a passar.
Já me cercam os exércitos, as hordas.
(Este quarto é irreal; ela não o viu.)
O nome de uma mulher denuncia-me.
Dói-me uma mulher em todo o corpo.



(tradução de Fernando Pinto do Amaral, in Obras Completas II – 1952-1972, Editorial Teorema, 1998 / original de El Oro de los Tigres, 1972)

12.5.05

GEOGES CHARBONNIER: [...] A partir de quando pensa que surgiu a literatura? Como a reconheceu?

JORGE LUIS BORGES: Reconheci-a de maneira física. Há qualquer coisa que muda em mim. Não me atrevo a falar da circulação do meu sangue ou do ritmo da minha respiração, mas existem coisas que sinto imediatamente como sendo reflexos da poesia. Por exemplo, se tivesse de analisar ou de justificar um verso como: «O vento da outra noite destruiu o amor», talvez isso me custasse muito e a explicação certamente não seria satisfatória. Mas quando digo esse verso, mesmo em mau francês, ou quando alguém diz esse verso, sinto que estou perante a poesia. Da mesma maneira que sentimos, não sei o quê, o mar, uma mulher, o pôr do sol, da mesma maneira se sente a amizade ou a inteligência dos outros. Isso é uma experiência imediata. Por exemplo, você vai a uma reunião, a um cocktail, e apresentam-lhe duas pessoas. Uma pronuncia algumas coisas bastantes inteligentes. A outra não diz senão banalidades. Pensa nisso e tem a convicção de que a pessoa que disse coisas inteligentes é um imbecil e a outra é de facto inteligente! Eu julgo que não nos enganamos. Ora, esta impressão imediata da poesia, da inteligência ou até da bondade é realmente mais exacta. Enquanto o raciocínio é uma espécie de cadeia, não? se nos iludimos uma única vez, o resto não existe. Penso que se sente a poesia como a música, como o amor, como a amizade, como todas as coisas do mundo. A explicação vem depois.

(excerto de Entrevistas com Jorge Luis Borges, tradução de Serafim Ferreira, Início, 1968)

2.3.04

[Nuvens...]


JOHANN WOLFGANG GOETHE

Domingo, 30 de Abril, Karlsbad

O velho jogo das nuvens a dissipar-se e a engrossar, mas sem resultados visíveis.

(de O Jogo das Nuvens, selecção, tradução, prefácio e notas de João Barrento, Assírio & Alvim, 2003 - Gato Maltês)



JOSÉ MÁRIO SILVA

curriculum vitae

Maternidade de Port-Royal, dois de março de mil novecentos e setenta e dois, dez e vinte da manhã. O primeiro grito, o primeiro choro, a primeira luz nos olhos, o primeiro ar nos pulmões. Depois, o leite quente da mãe. Depois, fraldas, pó de talco, colheres de papa, banhos com bonecos de borracha. Depois, as primeiras letras, a tabuada, o quadro negro, o recreio, joelhos rasgados, as férias infinitas. Depois, o corpo a crescer, o mundo a aumentar, as coisas a ganharem outra espessura. Depois, uma teia de alegrias e dúvidas e escolhas e decepções e incertezas e recomeços e júbilos e esperanças, constelação que não desenha - ainda - qualquer figura.

(de Curriculum Vitae & Outros Poemas, incluído em A Semiologia Segundo Tarzan Taborda - Colectânea de textos de Jovens Criadores 2002, Clube Português de Artes e Ideias e Íman edições, 2003)



[...& labirintos]


JORGE LUÍS BORGES

O fio da fábula


O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.

Cnossos, 1984.

(de Os Conjurados - tradução de Fernando Pinto do Amaral)

12.10.03

[gosto muito de inventários XXVI]

JORGE LUIS BORGES

Things That Might Have Been


Penso nas coisas que poderiam existir e não existiram.
O tratado de mitologia saxónica que Beda não escreveu.
A obra inconcebível que talvez a Dante fosse dado entrever,
Depois de corrigir o último verso da Comédia.
A história sem a tarde da Cruz e a tarde da cicuta.
A história sem o rosto de Helena.
O homem sem os olhos, que nos ofereceram a lua.
Nas três jornadas de Gettysburg a vitória do Sul.
O amor que não partilhámos.
O dilatado império que os Viquingues não quiseram fundar.
O orbe sem a roda ou sem a rosa.
O juízo de John Donne sobre Shakespeare.
O outro corno do Unicórnio.
A ave fabulosa da Irlanda, que está em dois lugares ao mesmo tempo.
O filho que não tive.

(de História da Noite, 1977 - incluído em Obras Completas III, editorial Teorema, 1998 - tradução de Fernando Pinto do Amaral)

21.9.03

[gosto muito de inventários XIX]

JORGE LUIS BORGES

Inventário


Há que encostar uma escada para subir. Falta-lhe um degrau.
O que podemos procurar no alto
Senão o que a desordem amontoa?
Há o cheiro a humidade.
O entardecer entra pela casa em lâminas de luz.
As vigas do céu raso estão próximas e o piso está vencido.
Ninguém ousa pôr-se de pé.
Há um velho divã desengonçado.
Há umas ferramentas inúteis.
Ali está a cadeira de rodas do morto.
Há um pé de candeeiro.
Há uma rede de dormir paraguaia, com borlas, a desfiar-se.
Há utensílios e papéis.
Há uma estampa do estado-maior de Aparicio Saravia.
Há um velho grelhador a carvão.
Há um relógio de tempo parado, com o pêndulo partido.
Há uma moldura desdourada, sem tela.
Há um tabuleiro de cartão e umas peças desemparelhadas.
Há uma braseira de dois pés.
Há uma arca de cabedal.
Há um exemplar bolorento do Livro dos Mártires de Foxe, em
[intrincada escrita gótica.
Há uma fotografia que já pode ser de qualquer pessoa.
Há uma pele já gasta que foi de tigre.
Há uma chave que perdeu a sua porta.
O que podemos procurar no alto
Senão o que a desordem amontoa?
Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de erguer
[este monumento,
Sem dúvida menos duradouro que o bronze e que se confunde com elas.

(de A Rosa Profunda, 1975 - incluído em Obras Completas III, editorial Teorema, 1998 - tradução de Fernando Pinto do Amaral)