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3.8.11

JORGE VELHOTE


Um mapa para regressar ao vento

A lucidez é a ferida mais próxima do sol
René Char

Quem partiu para escrever estas palavras? Há uma haste
de silêncio no olhar de quem observa a sombra que se despede
no caminho. A imobilidade das aves desce sobre a nossa
voz como numa prece o ouvido se exalta.
O que podemos esperar desse silêncio que pertence
aos mortos, repara: se toco com um dedo nos
meus lábios sinto que o sangue tudo inunda
é como se a luz descobrisse
a noite e a purificasse de segredos para alguém.

O caminho que se destrói, a respiração que se escuta
distante, o olhar que nos entreabre as janelas
e se fecha, não é um plano amoroso.
O meu nome já não é um sulco de lume nos teus
lábios nem uma sombra no leu peito.
Sou um arado esquecido na tonalidade dos dias.
As folhas caem, sento-me, é preciso muito tempo
para ler o silêncio de um rosto.
Um lençol basta para cobrir um corpo.

Se eu fosse cúmplice das águas que se guardam
nos rios, se o meu olhar abandonasse o reflexo
das fotografias, repara: como sou inconfidente,
receio o sono, o rugoso das víboras nas feridas,
o rumor da noite esquecidas as carícias.
Não desejes nada, apenas o vestígio da margem,
o odor do esquecimento que amadurece
a curva dos olhares, o sigiloso labirinto
que o tempo ergue nas dunas.

Um mapa para regressar ao vento, à cicatriz
da luz, ao desenho que decifra o vazio, ao segredo
das pedras e das mãos que se afastam.
Todos os dias o nevoeiro chega frio para dentro
de mim, o mar deixa na areia sulcos escondidos,
conchas cuidadosamente recortadas, a claridade
do azul, a nudez da morte ausente o corpo.
Alguém procura na escuridão o gume das lágrimas,
a melodia da neve, a aresta mais delicada do silêncio.

Amamos sempre quem nos ama, a ferida mais próxima do sol.


(in Palabras – Poemas para el Festival, XXI Festival Internacional de Música Ciudad de Ayamonte, 1999)

30.5.11

JORGE VELHOTE


PIAZZALE MICHELLANGELO


Silenciosos pássaros esmigalham sementes, espiam
a noite, o secreto labirinto das janelas, o regaço
da água que chameja a terra. Os herbáreos

celebram o ritual da botânica, as sombras, requintados
aromas que os estames de luz, delicadamente,
tecem. Há uma floresta

onde escrevo um momento, o abraço
do amigo, as praias, os animais
da infância. Vêm

com o perturbante olhar, nos tanques, junto à casa,
por entre a cúmplice dormência dos nenúfares, o fascínio
da água, beijam os peixes,

os meninos, com maldições no olhar e bibes muito azuis,
que arborescem no outono, surpreendentemente.


(in Orfeu 4, organização: Amadeu Baptista/Egito Gonçalves, Limiar, Dezembro 1988)

5.8.07

JORGE VELHOTE

A vertigem das rosas e da luz


ao Egito Gonçalves


Agora o mar é uma grade na clausura do coração, uma planície
minuciosa, uma essência atando os vidros contra o frio,
uma caligrafia gratificando os odores da chuva e da pele, que escorrem no olhar.

Agora as aves descarnam os últimos rostos na barreira do silêncio,
sobre a ilha infindável da memória chega a doçura lenta das tuas mãos,
a vertigem das rosas e da luz, as palavras na sombra mais luminosa dos regatos
fosforescentes de relâmpagos e serpente.

O dia é uma ferida nua, numa labareda de conchas, é pura a carne das pedras,
às vezes o canto dos rouxinóis pára de súbito, nós calámo-nos mais cegos, junto à
quietude da água e da noite, dos muros e do musgo, na melodiosa melancolia da
memória e da ironia.

Que fazer diante do imenso abismo senão amar.

(in Saudade - revista de poesia, n.º 1 / Dezembro de 2001)