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6.8.09

JOSÉ ÁLVARO AFONSO

O sol das férias desfaz sem remédio
Os ramos da estreia deixados na gaveta
No labirinto das hipóteses vãs
Insistem dolentes melodias roucas
Presentes por abrir abandonados nus

Já tardia a sombra desce sobre a nuca
Repete para dentro o que estava longe

Vislumbrada a fugitiva ausência
– Sede de mel a mel semelhante
Prisão de asas em desalinho –
Vai descontar à perfeição o inconsútil
Tolerar gladíolos e o primeiro frio

(de Furtiva a Luz, edições Salamandra, 1999 – colecção Garajau)

12.7.09

JOSÉ ÁLVARO AFONSO

A janela ilumina o deserto
Procura de outras margens
Limite adivinhado das águas

Corrente cativa as palavras
Soam como vidros quebrando-se
A pele hirta por há muito as esperar
Água escrevo como escrevi paz
Como de novo o medo
Exorcismo – convocar as luzes
As navegações de vidas só além
– Perplexo repito: Onde está a nudez
Dos sentidos impossíveis de trocar?

O sol brilha
Até amanhã

Chamo-te silêncio sem poesia
Como quem lavra a terra e
Constrói noite dentro a casa do gado

(de Furtiva a Luz, edições Salamandra, 1999 – colecção Garajau)

19.2.07

JOSÉ ÁLVARO AFONSO

MUSA 1


Se diz: - chamarei falcões mas não
Irei ao campo, pensa em concreto e
Torres de ruído e sombra?
Cegos pela premência
Falcões são aço, estiletes, ângulos

Rectos de concentração e fúria

Nas ruas da cidade há poços
De lama e irrisão mas é
Na limpidez vertical do que está
Sujo que surpreende
A irisação do que é humano


MUSA 2

Entregue às musas de rapina
O destino busca – seu olhar
Amplo e concentradas asas
A curva do concreto no voo essencial

A filigrana dos gestos dança terrestre
Dueto de tempos longos e segundos
Deslumbres na comoção de ver
Poliedros na superfície lisa de uma laje


MUSA 3

Se lhes disser adeus
De onde virão, alinhados, os helicópteros
Da imaginação? Ainda que as guarde
Como no futuro em dicionários se resfriam
Tão breves como o horizonte
De vê-los - os helicópteros -


MUSA 4

Diz-me em quantos quartos dividiste a minha alma
Onde estão os pés de caminhar que deixei esquecidos?
Quantas são em chamas as agulhas as rosas as enxadas?

Crescem ervas no templo que não vou mondar
E sei que estás inclinada sobre o colo de outro
Mais atento. Não queres dar-me mais - as que
Uso para descansar minha cabeça no tempo?

Leva-me à tua quinta. Deixa que ignore os nomes
Dos teus
Frutos. Dá-me o sumo e o veneno que ela tenha


MUSA 5

Diz-me da surdez em que me fundes
Digo-te que as que salvam vidas que perdoam
E recolhem os náufragos nas casas
Dos amigos e nos adros das igrejas
Estão em agonia

(de entre passos sobrevivem eras, edição do Autor, 2006)