JOSÉ ÁLVARO AFONSO
MUSA 1Se diz: -
chamarei falcões mas não
Irei ao campo, pensa em concreto e
Torres de ruído e sombra?
Cegos pela premência
Falcões são aço, estiletes, ângulos
Rectos de concentração e fúria
Nas ruas da cidade há poços
De lama e irrisão mas é
Na limpidez vertical do que está
Sujo que surpreende
A irisação do que é humano
MUSA 2Entregue às musas de rapina
O destino busca – seu olhar
Amplo e concentradas asas
A curva do concreto no voo essencial
A filigrana dos gestos dança terrestre
Dueto de tempos longos e segundos
Deslumbres na comoção de ver
Poliedros na superfície lisa de uma laje
MUSA 3Se lhes disser adeus
De onde virão, alinhados, os helicópteros
Da imaginação? Ainda que as guarde
Como no futuro em dicionários se resfriam
Tão breves como o horizonte
De vê-los - os helicópteros -
MUSA 4Diz-me em quantos quartos dividiste a minha alma
Onde estão os pés de caminhar que deixei esquecidos?
Quantas são em chamas as agulhas as rosas as enxadas?
Crescem ervas no templo que não vou mondar
E sei que estás inclinada sobre o colo de outro
Mais atento. Não queres dar-me mais - as que
Uso para descansar minha cabeça no tempo?
Leva-me à tua quinta. Deixa que ignore os nomes
Dos teus
Frutos. Dá-me o sumo e o veneno que ela tenha
MUSA 5Diz-me da surdez em que me fundes
Digo-te que as que salvam vidas que perdoam
E recolhem os náufragos nas casas
Dos amigos e nos adros das igrejas
Estão em agonia
(de
entre passos sobrevivem eras, edição do Autor, 2006)