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29.11.13

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA


CADERNO

Tudo o que fizemos e dissemos e amámos — ou
talvez nem isso —
cabe num mísero caderno onde o esplendor não
lança os seus raios.
De mais ou menos palavras se faz o tempo de
semear,
mas nenhuma colheita retomará o calor do feno,
nada que se possa tocar com a alegria dos dedos,
nada de inocente e sagrado
que nos deixe adormecer sobre o linho.



(de Agora e na Hora da Nossa Morte, Assírio Alvim, 1998)

9.12.08

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

LEITOR II


Deixa que se fechem as pálpebras que já não
dominas,
enquanto o lobo uiva atrás das minhas costas.

Sentes a aragem que traz do sul um aroma de
acácias?
Vês a igreja, o adro, e na falésia distante,
entre as brumas,
os senhores das inaudíveis flautas que anunciam
a alba?

Aproxima-te então,
e toca-me ternamente no ombro,
para que se abram enfim os gladíolos da minha
pele à deriva,
no meio da terra.

(de Filho Pródigo, Assírio & Alvim, 2008)

20.4.08

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

EDEN MAR HOTEL


Anoitece.
No promontório a oeste,
as aves do mar parecem adormecidas.
Uma única estrela acende a sua luz sobre o
horizonte,
sobre as lanternas brancas e azuis,
sobre a inquietação dos peixes vermelhos.
Mas nada se ouve.
Ninguém bate à porta,
os amigos são apenas uma palavra vazia,
sepultada para sempre.
Silenciosamente,
duas lágrimas descem o meu rosto,
na varanda deste hotel,
entre as árvores do fogo e a noite em ruínas.
Fecho os olhos.
Dói, às vezes docemente, dói a vida.

(de Quatro Luas, Assírio & Alvim, 2006)

7.6.04

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

A ÁRDUA CIÊNCIA


Ao subir a montanha
assistimos ainda ao júbilo dos construtores.
Os seus martelos acordam em sobressalto ao
alvorecer da pedra.
O seu coração é invisível.
Vive com o meu na inocência das terras,
iniciando o alicerce.
E a pedra rasgada compõe a obra como se fosse a
terrível verdade dos salmos,
uma rima atroz.
A visão das catedrais alimenta-se da tua ira.
Tu és a arte de erguer aos céus uma palavra baixa,
murmurada rente ao chão,
esculpida em ti.

(de Paixão e Cinzas, Assírio & Alvim, 1992)

16.2.04

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

8.


Outra vida não concedem os deuses.
Dourados templos;
douradas naves; o altar em que perecemos -
ares de vago incenso apaziguam a febre, ardem devagar,
tumultuosamente.

Sombras vi na locomoção do tempo.
Vai-se de uma véspera às horas mais altas.
Em frente -
ouve-se como um eco de pirâmides, muito cedo.

Chega-se ao fim quando tudo se cala.
Fecham-se as cancelas, os lábios.
Fechamo-nos no ocaso das rosas, não florimos com o trevo.
Um sonho de água atravessará o mármore, as galerias do sangue -
consumai o sacrifício.

Que seja a dança, claridade.
Baías onde a mágoa não perdura.
Um vinho incandescente na orla dos mares.
Remos, sinais de alegria, nenhuma morte no intervalo das luas.

Eu cantei as tempestades, o presságio dos ventos.
Eles arremessam os dardos.
flechas que me habituam ao tempo e ao coração -

assim emudecem os astros na clara noite do norte e das montanhas -

assim estremece o peito, a morada de um homem.

Se o lançarem às vagas desfolhar-se-á vivamente.


(de Autoretrato, Assírio & Alvim, 1986 - cadernos peninsulares / literatura - sublinhado meu)

8.1.04

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

11


noite.

sobre as pedras quase brancas, mármores do sul
talvez,
jazem os cordeiros de maio,
algures, mais longe,
nos montes de Putney e Vilna, agora floridos,
ocres e sem fim, como nunca.

aí se demorou jeremias
apenas o tempo do sacrifício,
tempo certo, tempo inútil,

... tempo... tempo... tempo...

receberam-no as ruas estreitas,
sob a transparência das pedras outrora brancas na
estação oriental
onde se abrigam os vagabundos dos estios propícios,
sobreviventes de atlântida e sodoma.

essa foi um dia a região das chuvas escassas, dos
velhos cedros e dos viajantes de outras eras,
de perto sentida pela loucura de jeremias,
o primeiro cantor;

eis uma vez mais, a última,
eis Putney e Vilna entre as muralhas e o castelo e o vale adormecido,
e, algures, mais longe,
as cabanas ao lado do cais;

ei-lo ainda,
jeremias que passa sob a morada das pedras
outrora brancas,
talvez mármores do sul,
onde se escondem a memória do ritual e os cânticos do ritual,

ei-lo ainda,
jeremias que enlouquece à sombra da breve
cerejeira.

(de jeremias o louco, Centelha, 1978)