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13.5.11

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO


o anjo e o vitral


venha o teu anjo
que nos trespasse a alma
de palavras novas

venha o teu anjo
como raio que atravessa o vitral
e não o quebra
e o transfigura

venha o teu anjo
extirpar do corpo
o demónio da surdez e do mutismo
que não guarda a alma
nem o seu jardim canoro

não se tornem as palavras que dizemos
lama ou sapos,
mas evangelho,
alegria do mundo

venha o teu anjo
mostrar o túmulo vazio
de onde o Logos corre
e de onde outros corpos sacramentais
se formam

que do interminável léxico das coisas
a nossa voz te diga
e o nosso corpo te bendiga,
pela hora que passa
e o rosto acreditado


(de dizer DEUS ao (des)abrigo do Nome, Difusora Bíblica, 1991)

11.5.10

[poemas com o Papa por cá - I]

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO


das coisas peregrinas


que ousemos o entusiasmo
da luz de cada dia,
a agilidade dos vindimadores
socalco acima

mantém-nos, Deus ao rés da terra
e altos, de inquietos, vigilantes voos

não se esgotem as cisternas
da paciência para a vida,
nem os agapantos azuis
nos encharquem de clandestina morte

dá-nos o paladar das coisas peregrinas,
o lugar do vento que não sabe donde,
o sítio dos comboios nos apeadeiros breves

que no rodopio das horas
a tua mão nos mostre o pino do sol
e o cheiro a mosto e a pão de milho
anuncie a ceia, a mesa da justiça, do bem e da beleza


(de dizer DEUS ao (des)abrigo do Nome, 1991)

2.4.10

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO

DA CRUZ



abre os nossos olhos, Deus
aos sofrimentos dos que ao nosso lado sofrem,
tu que percorreste a distância que vai
do que se faz no tempo,
ao juízo último
e passaste pelos sofrimentos visíveis
à glória pela cruz,
cordeiro inocente em quem todas as vítimas
do mundo se reconhecem;

que percorrendo os caminhos obscuros dos que
connosco passam,
te reconheçamos, Deus, que conheces o dia
e a hora das nossas acções e dos nossos desejos;

acolha-nos a água da tua misericórdia,
Deus do homem para todos os homens,
Deus no Espírito do estremecimento e da alegria.

Deus, tu que conheces as pedras
em que tropeçamos
ou em que fazemos os outros tropeçar –
porque essa é a lógica do desejo
que nos cega os olhos
e nos traz acorrentados à ambição e ao ressentimento,

abre o nosso coração ao acolhimento
que não aliena
e os nossos olhos ao Evangelho
que não se muda em ídolo

pedimos-te, Deus,
que não nos tornemos obstáculos
uns para os outros,
nem o saber violento da violência
seja a palha no olho do irmão que julgamos sempre,
nós que vivemos debaixo da tua cruz
esperando que se cumpram em nossa vida
os dias da tua criação contínua
e o dom do teu amor no Cristo
que venceu a morte
e no Espírito que nos faz rezar-te
hoje e nos dias todos da nossa esperança.

Deus que nos colocaste
no jardim da tua decisão primeira
para o cultivar e o guardar,
tu que conheces o animal que chouta à nossa porta
que imita o animal que se devora
e no sangue das guerras
e da dominação que faz escravos se sacia;

vem buscar-nos, Deus,
ao fundo dos nossos medos e do nosso ressentimento acusador;

que a espada de fogo da tua palavra
nos aponte os caminhos da diferença boa e feliz
até ao teu encontro face a face no teu Dia
hoje e em todos os dias da nossa viagem para ti.

(de Vazio Verde (o Nome), 1985)

23.12.08

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO

Salmo de advento



rasgue-se o céu, o teu olhar nos cubra
rodem os portais esquecidos e as sebes

secaram de excessivas as fontes do silêncio
só o desejo sai ao mar com algum lume a bordo,

a mais estão as luzes alcandoradas
se para apagar as brasas deste chão se arvoram.

desçam os teus barcos os rios do amargor
cegam-nos de evidência pântanos e vórtices

exorcizemos a impostura da língua
e as palavras amestradas que não andam.

dá-nos o dom do seminal, não do sacrifício
que até os deuses compra e a nós desculpa,

baste à vida como cais o limiar
e a intensidade dos afectos que responda à Voz

altere-nos o largo do dom e da misericórdia
que o rocio da noite que é a esperança nos afague.

rasgue-se o tempo e o teu dom nos ritme
na dobra do Evangelho vigiamos: vem!.

daremos a esta hora o nome: Expectação
e a noite e o sal em comum partilharemos.

a sentinela que precede a luz e a epifania
nos disponha a viver na noite vendo o dia.

fique-nos da tua passagem o traço e a cinza
e a crença de que o vazio é prenhe e habitado.

de apurar o ouvido e os afectos
se pressente a nascente só da fé sabida

se perdemos a memória das feridas
como aguardaremos a face da justiça que caminha?

confirme o teu Anjo os vestígios
de mundos que os batedores do sopro prenunciam,

que a flor da amendoeira aqueça esta vigília
e preludie o fim do inverno e a crueldade,

entremos no Jardim como num barco
hão-de levar ao Rosto os poços visitados.

(de Declinações o Nome e a forma, DL n.º 205863/04, 2004)



[a propósito, ver também este post de José Leitão]

12.10.05

[hoje é dia]

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO


jubilação de nomes

ajuda-nos, Deus,
a sair do labirinto das coisas (mal)ditas,
a meada da retórica
que debita a máscara

tu que és a graça e o rigor
das linhas desenhada,
a onda que regressa e que advém
neste intervalo de terra prometida
e de deserto

empresta ao nosso ouvido
a graça da rocha mãe do solo,
a cedência ao ritmo do que vem de longe,
e se não prescreve

e que a tua alegria permaneça

(de dizer DEUS ao (des)abrigo do Nome, Difusora Bíblica, 1991)