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29.12.13

JOSÉ AUGUSTO SEABRA


DAS CINZAS

Lançar ao largo as cinzas diluídas
onde se esvai o rasto de entrever
o sonho ténue onde bordeja o início
da luz dourando a margem a morrer.

É isto indício ou nem sequer o resto
do que não foi nem há-de vir a ser?


DO INDEFINIDO

Enseada do fim
debruada nas águas
efémeras, sem mitos
nem mágoas.

No aqui
do nada
indefinido.


DO AZUL

Da franja diluída
que ao vento se incendeia
não toco nem a esquiva
transparência. Clareia
o fogo a lume brando
do rubor que tacteia
o azul e desmaia.


(de Do Nome de Deus, Instituto Cultural de Macau, 1990)

19.9.07

JOSÉ AUGUSTO SEABRA

Não cedas à leveza estéril do vento, quando uma respiração fácil te impele ao abandono dos remos e à ancoragem horizontal do olhar, rendido à ondulação flácida, sem prumo. Endurece a espalda das vagas, flectindo as suas vértebras dolentes, até ao âmago da espuma, amuralhada no dorso mineral do ar.

(de Fragmentos do delírio, Eurosigno publicações, 1990)

28.11.06

JOSÉ AUGUSTO SEABRA

O ECO


Ouves o sulco doutra voz ainda
dentro da voz daquele instante presa
ao só instante de hesitar-te, ainda
perdida a voz pela garganta presa?

Ouves o rasto doutros dedos vindo
sobre os teus dedos tão a medo breves
pousar-se aonde o só receio vinha
pelos teus dedos quase ousar-se breve?

Ouves apenas? Ou da demorada
memória acordas mansamente a cada
bafo do tempo em tuas mãos geladas?

Ouves ainda? Ou da voz gelada
o tempo em teus ouvidos cada
palavra na memória demorada?

(de Tempo Táctil, Portugália editora, 1972 - colecção Poetas de Hoje)

29.5.04

JOSÉ AUGUSTO SEABRA
Nasceu em 1937.
Foi militante anti-fascista e a sua acção ficou marcada pela união entre civismo e cultura, quer antes, quer depois do 25 de Abril. Doutorou-se na Sorbonne com uma tese sobre Fernando Pessoa (de quem foi um dos mais destacados estudiosos), orientado por Roland Barthes. Fundou em 1980 a rvista Nova Renascença. Além da carreira académica foi deputado à Assembleia da República, Ministro da Educação ente 1983 e 1985 e Embaixador de Portugal na UNESCO, em Nova Delhi, em Bucareste e em Buenos Aires.
Morreu na passada quinta-feira.
(vd. também a evocação do Almocreve)
António Ramos Rosa disse acerca dele: "No âmbito da sua vida individual, procura o poeta apoderar-se de algo que o salve da mesquinhez e da frustração ambientes, do inexorável fluir do tempo - «Quase salto / sobre as garras do tempo» -, sendo o fruto desse combate a recuperação de gestos e impulsões vitais numa progressiva redução em que a consciência da linguagem acaba por ser determinante" (Líricas Portuguesas - 4ª série, 1969)


Nem nos defende a ausência:
é o reverso.
Sabemos todos já bem a ciência
da traição que se oculta a cada verso.

Nem nos salva a desculpa
de anoitecer, poetas:
por cada mea culpa,
apontam-nos a morte noutras setas.

Ficar nem chega. Ou ir
ou sepultar-nos.
Foge-nos o tempo já de decidir
Sequer suicidar-nos.

A bem ou mal, poetas.
Liberdade
só esta que sorri por entre as frestas
hesitante do peso da verdade.

(de A Vida Toda, edição do Autor, 1961)

A PALAVRA

Esperar o limite dos lábios, o limbo da palavra.

Ela chega do ritmo, desborda e cria o espaço, a música e o tempo.

Ela chega e contempla.

Visita-me uma sílaba, apanho-a à flor dedos dedos. Como pétala, cai.

Ilumina-me o abismo. Tombo aos pés do silêncio. Só a palavra salva.

Às vezes é tumulto. E sombra. Cerro os olhos e acordo. A palavra é manhã.

A água da palavra. A sede, a água, a sede.

(de Os Sinais e a Origem, Portugália editores, 1967)


SUBTERRÂNEO

Soterrei as palavras. Pelos canais do sono: ó catacumbas líquidas.

Desacordes os lábios. Decepados os dedos. Só trincheiras de ausência.

De um jeito curvo avanço: inviável toupeira. Sem mais noite que as unhas.

Desertar do limite. Para lá das narinas: no focinho do tempo.

(de Tempo Táctil, Portugália editora, 1972)

ACTO

Se iluminar-se
o puro acto
lento se ousasse
no tempo exacto
quase só graça
de ser o espaço
de nada a nada
no puro acto
de iluminar-se.

(de Desmemória, Brasília editora, 1977)

As cigarras rondavam
as espaldas da Acrópole
vergada. Repetiam
as sílabas roídas
por séculos
de nada.

(de Gramática Grega, edições Nova Renascença, 1985)

Nem sei de quando
amo este amor sombrio
e amado, nem se amando
ódio a ódio o adio,
brando, tão brando
e a frio.

(de Enlaces, em colaboração com Norma Backes Tasca, Fundação Eng. António de Almeida, 1993)

CICATRIZ

"Uma ferida, tudo o que há de mais esquemático"
(Ana Blandiana)

Desenhavam as nódoas
do silêncio, mediam
suas feridas todas
com a fria esquadria
das grades: tão a modos
que o esquema corria
da cicatriz dos bordos.

(de Conspiração da Neve, livraria Minerva editora, 1999)

RUGAS

Se a mágoa não perturba
a luz dorida e vaga
filtrada como a chuva,
que sombra já divaga
na mente que se curva
ao vento onde resvala
o tempo ruga a ruga?

(de O Caminho Íntimo para a Índia, Lello editores, Fundação Macau e Inst. Intern. de Macau, 1999)

7 de Agosto [de 1991]

Da alva ao crepúsculo, aí está a luz de Creta a distender-se sobre a matéria visível em cambiantes infindas, que só com uma experiência apurada apercebemos, ao olhar demoradamente as coisas, captando-lhes a tonalidade exacta a cada hora do dia. É de Cézanne que me lembro, quando a coincidência de algumas percepções inesperadas me domina, sob o sol que nos penetra até aos ossos.
Carnação sensual desta terra calcária, seca e dura, curtida pela história: quem saberá tocá-la ainda? A ela me rendo, com os sentidos todos.

(de A Luz de Creta - Diário Poético, edições Cosmos, 2000)

28.5.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

JOSÉ AUGUSTO SEABRA


Cai-me das mãos o resto de cansaço
e gela. Escorre inútil. Débil fio
à flor do corpo: transparente ou baço?
Dos braços verticais dedos esfio.

Abri-los. Distendê-los. E não faço
o fácil movimento. Só desfio
pela memória o nítido regresso.
Voltado sobre mim me desafio.

O círculo não fecha. Enquanto aflora
o leve estremecer. Uma demora
dum gesto me suspende. Quase salto

sobre as garras do tempo. Breve e incauto
me prolongo no rasto dum desejo.
E o milagre: apalpo, sofro, vejo.

(de A Vida Toda, 1961)

VARIAÇÕES

«Basta pensar em sentir
para sentir em pensar»

(F. Pessoa)

sempre te sinto ou penso ou sinto tão
sem te pensar sentir pensar ou sem
sentido ou não que só pensar-te vem
sentir-te ser pensando ser ou não

amor sentir pensar sentir só quão
te penso ou sinto ou penso ou quase nem
sentindo sei se o sei ou mal ou bem
pensei senti pensei sabendo em vão

pensar pensar pensar ou só sentir
não ser sentir senão sentir pensar-
-te sempre sentir sentir sentir sentir

já não pensar-te amor mas só pensar
sentir pensar sentir pensar sentir-
-te amor amor amor sentir pensar

(de Desmemória, 1977)

Qualmente as vagas
víneas volteiam
a bruma apaga
teia por teia

a luz que alaga
a ulisseia
ilha onde as águas
tecem a Ideia.

Só entre as pregas
do tempo espia
a velha deusa

tramando o mito
de um infinito
e vão regresso.
_____________

Que rasar cerce
de asas declinas
se o sol declina
e o voo excede

o voo, ó Ícaro,
filho de Dédalo
mas não do mesmo
raso destino?

Um pouco menos
de azul e a brasa
que te incendeia

derrete a cera
de cada asa
fundindo a Ideia.
____________

Aqui Ulisses
vai aportando
ao cais do mito,
aonde e quando

o infinito
se tece, enquanto
tudo é escrito
ou declinado

de canto em canto
pelas sereias
em seu descante

e em nada a deia
destece o manto
da pura Ideia.

(de Gramática Grega, 1985)

DA ALEGRIA

(Ouvindo a IX Sinfonia, de Beethoven, em Bucareste)

Que voz reconcilia
o sangue, assediado
pela música fria
dos lábios, modulada

na clave tão sombria
onde a loucura arde
assim cega e vazia?
Não é a voz: só o bafo

sereno da alegria
atravessando a alma
num íntimo arrepio

enquanto a melodia
circula pelo sangue
que a voz reconcilia.

(de Conspiração da Neve, 1999)