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25.4.11

JOSÉ GOMES FERREIRA


XXVII


(Entro no café de Monte Carlo. Revolução.)

Então aquela mulher desconhecida que me beijou
com boca de sol de punhal
saltou para cima da mesa
e pôs-se a cantar
com uma rosa na mão
onde ainda retine
o cristal
do coração
de Lenine.

«Ouve»... gritou-lhe um companheiro a meu lado...
deita essa flor fora!
«Foi feita em moldes de perfumes burgueses no centro da Terra
com hábitos de lume secular, beleza dirigida pela seiva
de repetição enigmática».

Então, no meio do café,
a mulher pisou a flor burocrática,
despiu-se
e com simplicidade de nudez de bandeira,
veio para a rua,
misteriosa,
entregar-se à multidão
com o destino de tornar mais livre e puro
o sonho de (todas as flores
no futuro.

Depois, ouviu-se um tiro
de propósito para a mulher cair morta.

Morta de tão longa...

Só nos olhos a mesma chama vermelha
que na rosa foi perfume
e agora na respiração do sol
ateia
magicamente no basalto,
uma raiva de pés de lume
que começou a caminhar, sonâmbula e sozinha,
na luta contra o sonho da solidez morta
que nos rodeia.

E agora dêem-nos armas, palavras, gritos, versos, poetas,
navalhas, baionetas
para destruir
esta maldita teia!


(de Maio-Abril 1968-1975, in Poeta Militante - Viagem do Século Vinte em mim - 3º volume, Moraes editores, 1983)

31.3.10

JOSÉ GOMES FERREIRA

VIII

(Futuro: a Censura não deixou publicar estes versos n'«O Diabo».)

Posso lá compreender os teus olhos resignados
com qualquer mecânica de Primavera!

Eu que estou farto das canções vazias dos pássaros
e dos montes de pedras
que já ninguém sabe quem criou
neste enredo da preguiça das árvores
a repetirem sonâmbulas
a herança azul
do primeiro caos da criação.

Eu que quero outra luz,
outro sol,
outra morte,
neste planeta de cadáveres
enfurecido de flores.

Eu que só choro diante das paisagens
quando me lembro que por dentro das pedras
corre, negro e escondido,
o sangue humano de todos os fuzilados.

A Primavera queremos nós criá-la.
Nós, os homens.


(de Pessoais, in Poeta Militante / Viagem do Século Vinte em Mim - 1º volume, Moraes editores, 1977 - Círculo de Poesia)
JOSÉ GOMES FERREIRA


VI


Dulcineia, Dulcineia,
volte ao que era:
uma plebeia
sem primavera

Volte aos redis,
coberta de chagas
— sem espuma em gomis
nem brilho de adagas.

Volte ao que foi,
pois ainda conserva
um cheirinho a boi,
um cheirinho a erva...

Volte a apanhar pinhas
e bosta para os fornos.
E a tanger cabrinhas
com flores nos cornos.

Volte a andar de gatas
como os outros bichos...
E esqueça as serenatas
aos seus caprichos.

Esqueça o castelo
onde os donzéis
se batiam em duelo
à século XVI...

E volte à aldeia
da sua labuta.

Dulcineia, Dulcineia,
deixe de ser Ideia
e torne-se a carne e a alma
da nova luta.

(de A Morte de D. Quixote, in Poeta Militante / Viagem do Século Vinte em Mim - 1º volume, Moraes editores, 1977 - Círculo de Poesia)

14.8.09

[Em face dos últimos acontecimentos]

JOSÉ GOMES FERREIRA


V

(Lágrimas de raiva nos olhos. Ainda água.
Notícia da proclamação da Monarquia no
Porto. As pedras preparam-se para acor-
dar. Em 1918-1919 a República era uma
religião burguesa muito grave.)


A palavra República
tornou-se de repente tão real,
sonho com recorte
— envólucro de chamas,
corpo de mulher ritual
que todas as noites condenava o sol à guilhotina,
para sentirmos respirar melhor a morte.

Uma palavra
que tornava a liberdade mais misteriosa
para além da luz e das trevas.

República
— religião em que os deuses se evadiam dos templos
para se misturarem com os homens no suor das labaredas!


VI
(A bandeira monárquica içada no Mon-
santo em Janeiro de 1919. As pedras acor-
daram. O povo assalta os museus para
se munir das armas velhas que lhes res-
tam. Cantava-se «sobre a terra, sobre o mar».)

As mãos fugiram, dos braços!
e durante a noite
entraram no sonho exacto
de colarem com pincéis de lume
nas esquinas das ruas
os editais da cólera
a favor da morte com sentido
(a morte no passado é o que depois chamamos tempo):

ÀS ARMAS, CIDADÃOS!

Era nítido que todos queriam continuar a sonhar em comum,
e recusavam as superfícies com fronteiras.

ÀS ARMAS, CIDADÃOS! ÀS ARMAS!

Todos metem à pressa nos olhos os incêndios necessários
para acordar em asas
a liberdade presa ao vento do agitar das bandeiras.

(de Memória - III, 1962-1963, in Poeta Militante - Viagem do Século Vinte em mim, Moraes editores, 1983 - Círculo de Poesia)

12.3.08

JOSÉ GOMES FERREIRA

XI


Não te analises.

Não procures no perfume das flores
a tempestades das raízes.

Nem queiras
desatar o fumo
do carvão das fogueiras.

Ama
com ossos de cinza
e cabelos de chama.

E deixa-te viver
Em rio a correr…

(de Poeta Militante II, 1978)

26.3.07

[Salazar e a Poesia - IV]

JOSÉ GOMES FERREIRA

XXI

(Todos andámos a matá-lo em pensamento. É horrível! – dirão alguns moralistas do futuro)
Todos nós
trazemos punhais
no sonho
fora da lei.

Mas ninguém sente remorsos de pensar:
«Fui talvez eu que o matei.»

XXII
(Ouve-se dizer por toda aparte: «oxalá não morra antes dele!» - «Do Salazar, claro».)

Os mortos vão entrando nas covas
(alguns saem de noite para respirar às escondidas)
e logo correm outros, ainda vivos, para ajudar
a construir a ponte
com lume, sangue, pedras, nuvens, ferro, covardia, coragem,
desalento...

Mas haverá outra margem
para além do vento?

XXIII

Já muita gente pisa
o chão
com terror de magoar a luz
e esta sensação estagnada
de que os nossos mortos
em vão mordem a terra
com os dentes do coração
- à espera do socialismo do Nada.

XXIV
(O Salazar morreu e vai hoje a enterrar: «O velho abutre é sábio e alisa as suas penas. / A podridão lhe agrada e seus discursos / têm o dom de tornar as almas mais pequenas» Sophia de Mello Breyner)

A morte dantes era tecida por aranhas de crepes,
necessidade de haver corvos e flores,
solidão exportada para criptas de trevas.

Claro, os tiranos também morrem como nós,
na mesma cera estendida à espera de haver asas
e liberdade nos abismos.

Mas parecem diferentes quando passam como hoje
em cortejos de longos véus de vento e luto
onde só faltam tochas humanas nos passeios para aquecerem a pompa.

Também às vezes acendem os candeeiros nas ruas
para ofuscarem o sol com tules negros
do tamanho de haver sempre noite no planeta.

Nestas ocasiões, os jornais vestem-se de noite
põem as primeiras páginas ao serviço das caveiras,
batem adjectivos nos tambores do papel.

E então principia a raiz solene
da estátua oficial necessária
por subscrição dos Bancos que arrecadam nos cofres montes de mãos suadas.

Depois emitem-se selos para concluir o equilíbrio das pedras
com argamassa de suor alugado
para o morto de bronze, lá em cima, fingir de cristal.

Mas que é isto? De súbito a marcha fúnebre da Heróica volta-se do avesso
com ouro nos trombones em festa
brilhantes de tão esfregados pela pomada Ódio.

E o povo não chora... Que se passa? Guardaram as lágrimas para os filhos presos?
Depressa! Tragam baldes de água podre para encher os olhos desta gente.
E tirem as crianças dos ombros dos pais, para não avistarem o futuro.

Proíbam esta alegria lúgubre de quando a vida parecia só do outro lado
e os homens em redor das aras das clareiras
devoravam a carne dos cavalos de crinas incendiadas

abatidos por Sacerdotes com cutelos de lâminas de sangue
que lhes decepavam as patas para os convivas rituais
beberam a magia vermelha dos Quatro Jorros.

Nesse tempo, morrer não era apenas o peso horizontal do pesadelo,
mas voo, continuação da vida no vinho das ânforas fúnebres
quando os corações mastigados sabiam ao centro do mundo.

Hoje as libações combinam-se pelo telefone,
saboreia-se de boca em boca o entusiasmo de existir a morte
para dançarmos a embriaguez da liberdade em segredo.

Escrevem-se datas nas rolhas do champanhe votivo
que todos tínhamos guardado nas caves
para beber neste grande Dia da Cova Aberta,

em que ninguém consegue esconder a volúpia da sede.
E até eu vou agora erguer, como os outros, a taça negra
- feliz por não ter de obedecer mais a Sua Alteza, o Devorador de pequeninos sóis.

Sua Alteza, que tornou esta pátria mais pequena do que é.
E não somente a Pátria. O Inferno, o Céu, a hora da Morte, a Agonia,
Deus, o Sol, a Lua, a Revolução, as almas, a Fé.

Não é verdade, Sophia?

(de Maio-Abril 1968-1975, in Poeta Militante - 3.º volume, 1978)

25.4.06

JOSÉ GOMES FERREIRA

XXVIII

(Comício.)

Tudo começa na boca
- ao princípio era o verbo -
combinação de palavras com o sangue.

Discursos, discursos, discursos...

Palavras com fogo ritual.

Palavras com mãos que empurram os homens,
abrem abismos,
estrangulam,
deitam chumbo derretido nas chagas,
magoam de existir.

Dêem-e palavras. Tomem palavras...
Palavras não faltam, já tão velhas que parecem novas,
recém-nascidas com as mesmas raízes
ignoradas.

É esse o milagre:
nascer todos os dias
nas bocas esquecidas
dos fios de prumo.

Palavras
- silêncio que agride,
os passos do fumo.

XXIX
(Grito «NÃO!» à revolução de flores de retórica.)

Revolução das flores?

Sim.
Mas não apenas para disfarçarmos com bandeiras de cravos
o pólen das Áfricas dos nossos lutos.

Queremos flores
que já tragam no ventre
o sabor dos frutos.

(de Maio-Abril / 1968-1975, in Poeta Militante, Viagem do Século Vinte em mim - III, 1978)

17.6.04

JOSÉ GOMES FERREIRA

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformaram.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
«Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.»

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

(primeiro poema, de 1931, de Poeta Militante - Viagem do Século Vinte em mim)

15.1.04

JOSÉ GOMES FERREIRA

III


(Desordem? Uma palavra que, nas coisas divinas, significa caos.)

Vejam como os homens são rígidos na sua semelhança com os mortos.

Registam tudo em almanaques
até as certidões de idade dos planetas por nascer,
marés, vento norte, vento sul, menstruações do sal,
agendas com os números telefónicos das gaivotas nos horizontes
- e o horário da entrada dos astros nas repartições
para as serenatas aproveitarem melhor as insónias da Lua.
Só os terramotos continuam anónimos nos músculos dos gigantes
forças cegas em pontas de nos subterrâneos
sem horas certas para se espreguiçarem.
E é pena. Porque desordem sem ordem é um relógio
a que deram corda de mais
e o tempo desatou a correr para apanhar os ponteiros.

Desordem?

Terrível descoberta de que só podem organizá-la os burocratas
com os seus copiadores de ferrugem a esmagarem os ofícios,
Santo Ofício de torturar papel para haver arquivos
que fabricam borboletas com pó e traças,
e papel químico gasto de tanto parecer vida confusa em cidades de sinais
afinal sempre as mesmas frases, mapa retórico de ruas de fantasmas,
«Recebi a sua prezada carta...» «Esperando a sua prezada resposta...»
Milhões de canetas com aparos de suor pontual
que sangram as horas
de bafio inquieto
para simularem o caos inicial
do Tempo Mudo.
Porque não foram as curvas regulares dos aromas,
mas a anarquia
do mar e da dor das labaredas
que modelou a primeira rosa do mundo.

(de Grito Plural, parte de Poeta Militante - Viagem do Século Vinte em Mim, 3º Volume, Moraes editores, 1978 - Círculo de Poesia)