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8.7.08

JOSÉ JORGE LETRIA

O pior ainda são os dias em que toda
a escrita é despropositada e incómoda.
A mão que ousa o verso é lenta e trémula,
prolongando o tédio sobre a página.
Tudo é branco em redor como uma duna
ou uma doença subterrânea. Aquele que escreve
está inclinado sobre a água ou sobre a
noite e nenhuma fala lhe ascende à boca.
Tece-se o não dizer com ínfimas agulhas
e se houvesse uma arca para guardá-lo
seria larga e brilhante como uma casa.
Havia de morar nela a solidão dos grandes
dias cinzentos e dentro dela
uma pequena pedra polida e esguia.

(de Os Achados da Noite, Concellería de Cultura do Concello de Ourense, 1992)

9.8.06

JOSÉ JORGE LETRIA

COISAS DESMEDIDAS

De coisas desmedidas falo,
não de apocalipses nem de estrelas,
tão pouco do seu jogo mágico e incontrolável,
porque para tanto me não chega
o engenho das mãos nem a enganadora
sabedoria do olhar; estou como se estivesse
em estado precário perante as luzes
e a ilusão de espuma das marés

Os cânticos que me cercam
são os da água e do delírio das algas
rente aos segredos mansos da profundidade

Desmedido me torno a falar disto
e é assim que quero ficar

(de Corso e Partilha, Centro Cultural do Alto Minho, 1989)