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16.10.17

JOSÉ MIGUEL SILVA


O sabor da cereja - Abbas Kiarostami (1997)

Não é fácil para um homem
sepultar a sua sombra,
encontrar o melhor
que a terra nos dá:
um esconderijo.

A língua queimada
recusa as cerejas.
Nenhuma palavra
remove da boca
o gosto a poeira.

Circula sem vida,
por montes e restos,
o corpo tresmalhado.
Alguém há-de saber
para que serve um morto.


(de Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005)


15.5.11

[para uma antologia de bicicletas – 18]

JOSÉ MIGUEL SILVA


EM LUCCA, AS BICICLETAS


Mimados animais de estimação,
em Portugal os automóveis são felizes,
agradecem, quase incrédulos, a sorte
de lhes terem ofertado em passerelle
o mais honroso dos cenários e desfilam
como príncipes de crómio pelas ruas
desertadas de nocivos habitantes.

Aqui sentir-se-iam humilhados
pela ordem de ceder ao musculoso
bipedismo de pessoas a passagem
ou, pior, à irritante placidez
das bicicletas, traquitanas que lograram,
por estranho que pareça, conquistar
a simpatia dos estúpidos humanos
que povoam (é incrível!) a cidade.

Cruelmente desprezados, racionados
como párias, em Lucca os automóveis
não encontram um passeio onde encostar
a fatigada suspensão, uma sombrinha
de jardim, uma oficina, o refrigério
combustível de um amigo que socorra
a sua sede de viver rapidamente.


(de Erros Individuais, Relógio d'Água, 2010)

25.9.09




JOSÉ MIGUEL SILVA

MORANGOS SILVESTRES — INGMAR BERGMAN (1957)


Para a Berta Neto

Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.

(de Movimentos no Escuro, Relógio d’Água editores, 2005)

11.12.08

JOSÉ MIGUEL SILVA

NON, OU A VÃ GLÓRIA DE MANDAR
- MANOEL DE OLIVEIRA (1990)


Diz o povo e com razão que no perder
é que está o ganho. Para alguma coisa
somos portugueses, «os de cabelo castanho»,
e que seria de nós se as lágrimas, os lenços

nos faltassem? Povos mais felizes alimentam-se
de lucros, de famas, de vitórias. Nós não,
preferimos o lamento, a beleza moral
do quase ter, do quase lá, do quase nunca.

A bola no poste é o nosso emblema, e o nosso
patriotismo exprime-se na derrota. Pois
no coração de cada português lateja a evidência
de que só no fracasso se alcança o verdadeiro

sabor de ser homem. A vitória é uma patranha
em que só caem os parvos, os que não sabem,
como nós sabemos, que não há nada a ganhar,
que todos os triunfos são triunfos da morte.

Devemos então assumir como desígnio nacional
a ambição de perder cada vez mais, cada vez melhor,
e fazer o possível por tirar proveito dessa situação,
tão favorável, que o fracasso nos confere.

Porque só quem aprendeu a amar a derrota,
a fazê-la sua, a lutar por ela, poderá desatrelar-se
do tandem de agonias que os antigos figuravam
sob o nome de temor e esperança.

(de Movimentos no Escuro, Relógio d’Água editores, 2005)

5.2.06

[para uma antologia de bicicletas - 2]

JOSÉ MIGUEL SILVA

LADRÕES DE BICICLETAS - VITTORIO DE SICA (1948)


Vinte quilómetros por dia pedalava meu pai
desde a cama junto ao Douro até à próspera
Cerâmica de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veiculo de sombra, solitário
trepador pela encosta de Avintes. Não trabalha
em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões, na estrada
nacional, onde tudo, depois, será muito mais plano.

(in Telhados de Vidro n.º 4 - Maio de 2005 / de Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005)

7.9.03

[gosto muito de inventários XIV]

JOSÉ MIGUEL SILVA

Reservas


A bicicleta azul roda 16
o relógio digital do melhor aniversário
os baralhos os pêssegos de julho
prolongando o S. João
o relato dos Domingos
o cachecol de campeão
a noite como um túnel de minutos
o primeiro candeeiro o velame
do livro inicial
o comboio para Irivo
o beliche em que dormiam
desejos e temores
as armas dos irmãos e o baloiço
ao fundo do quintal
os olhos de Celina
o filme que começa
o filão de amoras bravas
atrás de muros altos
a Zundapp do vizinho a morte conhecida
as sevícias do recreio
entre duas alianças
a corrida à mercearia
as areias de Francelos Valadares
as cartas para o pai
os gatos o fulgor dos pirilampos
o "ama-me" das fotos
no pátio das cerejas
os joelhos golpeados de verdete
os risos de papel
as moedas encontradas uma vez
e que logo foram cromos
que logo foram pó.

(de O Sino de Areia, Gilgamesh, 1999)