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19.4.10

JOSÉ OLIVEIRA


VALE DO SILÊNCIO


A noite estende-se, discreta,
sobre o mar.
E um silêncio gelado invade
as águas.
Refugio-me. Estou deitado sobre
o tempo.
Digo em voz alta os nomes castos
das coisas.
Já não há cistros.
Apenas uma tisana para tomar
de madrugada.
quando o medo aperta.
Sigo com o vento.
Oriento-me pelo rasto de sangue
das aves.
Subitamente um corpo estendido
na estrada.
Suor. Recuo. Febre.
Abrigo-me na sombra pura
dos álamos.
Os olhos virados para o silêncio.
Desejaria agora um rosto,
um campo de sargaços,
uma pedra fria, ou o cheiro
da resina.
Um bosque rente à boca.
Mas conheço unicamente o interior
ácido das letras.
Esse rio de melancolia que vai do
corpo à palavra.


(de ciclo do mar, edição do Autor, 1984)
JOSÉ OLIVEIRA


TACTO


escrever para me ouvir.
Onde o rosto colide e esmaga os dias.
Compreendo a revelação das fomes, dos hinos,
sequências de puro fascínio.
Onde o verão se torna habitável: todo o gesto
desvenda um horizonte de chuva,
de cantos rasos — esta hora por uma vez definitiva,
antes dos nomes.

Que verbo se eleva para o próximo silêncio?
a máquina hesitante? o obscuro ofício?
sei de mim por onde amo o que existe,
a transparência do branco, o subúrbio das feridas,
o nome dos incêndios.

Não consinto a esta noite a luz fácil dos olhos
porque não posso.
Eis minha doença mais secreta: a mortífera habitação
de certos dias
quando em certos dias nada mais existe.

O que passa então pelas mãos?
a ignorância da noite? a vizinhança dos mitos?
trata-se de antecipar as horas mais difíceis.

Nesta casa vem a luz depositar seus tempos de cegueira
o recolhido gesto dos amantes, a última faca.

Já não vejo. Tudo se reduz agora aos domínios pressentidos
seu terminar lento, sua inviolável aparência.

Escrevo porque não conheço a luz.
Outra forma de amar as silhuetas.


(de Melancolismos, edições Inapa, 1989)