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13.10.13

JOSÉ RICARDO NUNES


NÓS, AS CRIANÇAS

Trocamos as cores,
desconhecemos onde acaba a mão direita
e recomeça a esquerda.
Inventamos novas palavras sem saber
que desde sempre havia mundo para elas.
Ou roubamos às sílabas.
Mas somos ainda menos do que crianças,
muito menos do que aquelas crianças
que levam tudo à boca.


(de Novas Razões, Gótica, 2002)

7.9.13

JOSÉ RICARDO NUNES


ALMEIDA, Francisco António de
(c. 1702-1755)



A água que sobe a Lisboa
e reflui, destruidora, no primeiro de Novembro
de cinquenta e cinco, só me poupa um retrato
cuja legenda comprova ter sido
"bravo compositor de Concertos e de Música de Igreja"
e "um assombro no canto, com inatingível gosto".
Uma surpresa, o teu júbilo com a reedição
exclusiva para o mercado português
de 'La Giuditta', adquirida num centro comercial
por preço acessível depois de muito imaginares
que música eu seria. No booklet enaltecem
a "precisão da escrita" o "domínio
da orquestra", o "tratamento concertante
das vozes", "a inesgotável
inspiração melódica". Tudo mereceu
o resgate de Jacobs, quase
tudo, pois aqui e ali não me interpreta
devidamente. Parece-te poema?
Tinha vinte e quatro anos. Sentia-me na obrigação
de agradecer ao Marquês de Fontes o apoio
da sua Embaixada durante a estadia
em Roma, onde pude aprender,
aperfeiçoar o estilo e pôr-me a par
das novidades. Suposto imaginar
o regresso a Lisboa, a condescendência
do ouro, a Sé, a Capela Real, os Infantes, a súbita
subida na escala das águas?


(de Compositores do Período Barroco, Deriva Editores, 2013)

 

17.4.09

Hoje.

Murmúrios de um Lugar Branco
(Indícios de Oiro),
de Ana Viana,
é apresentado por Pedro Teixeira da Mota
na Casa Fernando Pessoa, Lisboa,
pelas 18h30.


Versos Olímpicos
(Deriva),
de José Ricardo Nunes,
é apresentado por Henrique Manuel Bento Fialho
no Chá de Limão, Caldas da Rainha,
pelas 21H30.

28.5.05

JOSÉ RICARDO NUNES
Nasceu em 1964, em Lisboa.
Licenciado em Direito e Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas (Época Contemporânea), exerce ambas as áreas de formação, tendo já publicados dois livros sobre poesia: Um Corpo Escrevente. A Poesia de Luiza Neto Jorge (&etc, 2000) e 9 Poetas para o Século XXI (Angelus Novus, 2002).



reaberto o processo confessei
a verdade como ele me obrigou
a casar e a trabalhar na loja
e o sentido da minha existência se foi perdendo
à medida que se foi revelando
_________________

lume luz um ouro
nas veias eu andava aos solavancos
como se algo a cada passo se fosse atravessando
entre mim e o meu corpo
_________________

fiquei sentado a ver o fogo alastrar
em cima do penedo onde ia com o meu pai
comer depois da caça as imagens
quando o corpo ferve
eu queimo-as com a ponta do cigarro
junto ao coração evitando tocar-lhe
não vá a luísa acordar

(de Rua 31 de Janeiro (alguma vozes), &etc, 1998)

FEEDBACK

trinco-me no pulso e sopro
para dentro do sangue os meus poemas


FLORAÇÃO

abana-me o corpo contra
fevereiro na luz embate o coração
move-se mais de noite acordo
com ele no lugar do cérebro
e tenho a cabeça a florir


XIV

enche os ouvidos
com areia e calca
até doer

alguém um dia
escreverá
sobre ti uma frase

(de Na Linha Divisória, Campo das Letras, 2000)


NÓS, AS CRIANÇAS

Trocamos as cores,
desconhecemos onde acaba a mão direita
e recomeça a esquerda.
Inventamos novas palavras sem saber
que desde sempre havia mundo para elas.
Ou roubamos as sílabas.
Mas somos ainda menos do que crianças,
muito menos do que aquelas crianças
que levam tudo à boca.


RIQUEZA ANTIGA

Agora somos forçados a esconder
o corpo atrás de lâmpadas.

A riqueza antiga já não gera
uma linguagem pura.


FUGITIVO

Vou trazê-lo de volta ao redil
e sufocá-lo com as minhas palavras
ou lançar-lhe fogo ou embrulhá-lo
em ramas e placentas, ele anda
às cegas a tocar nas coisas, a bater
por dentro de outro sangue, e eu não
posso deixar o meu coração
andar por aí assim perdido.

(de Novas Razões, Gótica, 2002)