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5.1.14

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


SOBRE UMA FOTOGRAFIA DE NUNO FERRARI

Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
O trabalho, a pressa de chegar, o jogo das obrigações, deixam-no, por agora, indiferente.
Ele vira as costas ao trânsito da Vida e caminha para a máquina, para o magnésio que lhe dará a revelação duma serena amargura.
A sua Vida está suspensa nesse momento preciso.
Lesionado, impedido de jogar, toca nele, dentro dele, uma música triste.
Por isso se afasta do rio, do silêncio da água ou da neblina da manhã já alta.
As colunas do cais são um termómetro gigante a medir a amargura duma exclusão.

Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
Apanhado na trama secreta dum acaso infeliz, desloca memórias de tardes entre sol e pó, à procura dos longos abraços dos companheiros a correr do outro lado do campo.
Por isso não olha de frente a objectiva, não se enquadra nas sombras, nas rugas, na duvidosa estrada do futuro.
Imaginamos que ao lado passaram aves, rápidas, tensas, como urgentes vírgulas no tempo deste homem. Passam ou passaram a caminho do Sul mas este homem não teve a esperança do calor, nem do sal das praias ou do corpo efémero das ondas.
O seu olhar era amargo, demasiado real para o magnésio da verdade, demasiado forte para a revelação dum pequeno mundo a ser destruído.


(de Mesa dos Extravagantes, O Mirante, 1996)

13.8.09

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Sobre um tema de Vitorino Nemésio


Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto


(Vitorino Nemésio)

Viver nas ilhas pequenas
É ter mais tempo nos dias
Entre manhãs tão serenas
E as noites longas e frias

O dia tem horas cheias
Passam os vários vapores
E na sombra das baleias
Há vozes de trancadores

O vinho das cepas velhas
Desce com a neve do Pico
Desde a porta até às telhas
É nesta adega que eu fico

No sossego das lagoas
Na distância das fajãs
Perdi a voz das pessoas
Na gramática das manhãs

Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
Ter numa factura apenas
A vida ponto por ponto


Sobre um tema de Emanuel Félix

(poema - autógrafo para Manuel Emílio Porto)

O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia

O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalha a noite inteira
Numa faina de alegria
E faz à sua maneira
Sumário dum novo dia
Como se uma feiticeira
Desenhasse a profecia
Duma vida verdadeira
Longe da monotonia

O motor duma traineira
Vem acordar o poema
Numa mesa de madeira
O poeta tem um dilema
Há a palavra pioneira
Que desenha no cinema
O fogo de uma lareira
Criando um novo sistema
O poeta escuta a traineira
Que dá a força ao poema

O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia

(inéditos, gentilmente oferecidos pelo Autor. O primeiro destes poemas foi musicado pelo Maestro Emílio Porto)

26.7.09

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

Balada de Holloway Hill



Isabel leva um sorriso
A enfrentar a paisagem
Porque sorrir é preciso
Na duração da viagem
É de novo pequenina
Neste dia a decorrer
Na voz, mulher-menina
No B.I., menina-mulher
Tem no cristal da voz
Luz que vem do litoral
Quando os laços e os nós
São o som de Portugal
No menino que nasceu
Uma teimosa alegria
Na avó que está no céu
Há memória e nostalgia
Casa junto a rio pequeno
Em tempos era a azenha
Lá o tempo era sereno
E o pão cozido a lenha

Naquela casa gigante
Os moinhos de brincar
O dia era um instante
Nos relógios do lugar
E naquela loja antiga
Tecidos e mercearia
O correio era cantiga
Nas cartas da alegria
Se a chuva tão teimosa
Chega no pó da estrada
A balada traz uma rosa
Numa canção encantada
Na parede do calendário
O poema é uma certeza
No dia do aniversário
Deixo os votos na mesa
São votos de felicidade
Na distância dum país
Há passeios de saudade
No caminho de ser feliz

(inédito - oferta do Autor)

27.2.08

[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #7]

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

R. B.


Escrevo-te cartas longas em longas tardes de esplanada
E repito constantemente coisas datas e palavras
Nas tuas praias e nos teus livros respiro os poemas
Como se fosse possível eu compreender tudo

Escrevo-te cartas que não chego nunca a pôr no correio
Não sei a tua actual direcção nem saberei
Se mesmo tendo direcção gostarias de as receber
Ou se a leitura te poderia provocar alguma alegria

Escrevo-te cartas e demoro-me com medo na tarde
Quando o céu se transforma numa nuvem cinzenta
Que se abre como se fosse a boca de alguém
À procura das palavras soletradas pela morte

(de Iniciais, Moraes editores, 1981 – Círculo de Poesia)

30.3.06

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

QUINTO OLHAR


Olha o vidro - vê só uma sombra
automóveis e peões na rua, a luz,
a reflexão dos sonhos no azul.

Não se levanta - fica logo presa
e prende numa esfera (talvez) azul
o peso da voz que não a revela.

Não revela nem persegue - só vê
permanece no registo (nada mais)
o sufocado desenho da palavra.

Quem reparar bem não lhe fixa nada
- perde todo o tempo no olhar
e enche a tarde com a sua imagem.

(de poemas do olhar, in 1983 um resumo, jornal "O Mirante", 1991)