Mostrar mensagens com a etiqueta Lêdo Ivo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lêdo Ivo. Mostrar todas as mensagens

13.1.13

LÊDO IVO


O  INVERNO

Suportar o  inverno
com a coragem dos sonhos.
Poeta viril e consciente
colherei flôres cheirosas
para você, fruta madura,
que em oferenda se abre.
Na chuva que cai
você nua se dispersa
e aceita o rio grávido
as tanajuras e a terra
parindo   destroços  biblicamente.

E na rede que oscila
o mundo renasce
surpresa e nudez
para a chuva que cai.


(de As Imaginações, 1944, incluído em Uma Lira dos Vinte Anos, com planejamento gráfico de Antônio Houaiss e João Cabral de Melo Neto, Livraria São José, 1962)

16.12.11


LÊDO IVO


ALÉM DO PASSAPORTE

A noite dá a sua lição de universo: as estrêlas caem. Suspensas no ar vazio, elas deslizam no céu negro, fulgem rápidas, desintegram-se. Mas êsses acidentes celestes não exprimem desordem ou fadiga. Estão inscritos na retórica do cosmo, onde tudo é ordem e rigor.

O tempo é uma mentira das êstrelas. Viajante, não sei onde estou, nem mesmo se estou. Na terra desprezada pelo estrondo rouco do jato, as fronteiras voam e os fusos horários zombam da ficção local dos relógios. E, entre o sono e a vigília, contemplo nuvens imensamente brancas no céu escuro, celeiro das estações.

De súbito, surgem debaixo das estrelas as ocasionais constelações terrestres: ilhas criolas, paraísos explosivos que se espraiam, no mar espumoso, como fragmentos de um continente esfarelado.

Banidas as estrelas, a manhã ocupa o céu e o mar. O leve frêmito vertiginoso anuncia que o avião vai descendo de seu abismo às avessas. Plea.se fasten seat. Um farol numa ilha e uma gaivota são os primeiros sinais da Terra. E ambos reiteram ao sol pálido o vigor cansativo dos símbolos.

Desembarco e é outono em Nova Iorque.



OUTONO EM WASHINGTON

Uma chuva de fôlhas douradas
cai e espanta os esquilos de Washington
que não podem catar suas nozes
sem que não sejam incomodados.

Insólito aguaceiro de dólares
atrapalha as pombas que passeiam
entre os sapatos dos intocáveis
e talvez gripados milionários.

O estrondeio dos aviões a jato
estilhaça nos ares de estanho
os direitos civis dos pardais
em vôo do Obelisco ao Potomac.

E o turbilhão de vento e folhagem
crispa a orquídea na loja de fôres
entre o Bank of America e a noite
nos abrigos contra a bomba atômica.

Uma tempestade de corn-flakes
cai sobre as moças em flor que vão
aos psiquiatras perguntar como
lidar com as máquinas do amor.

Chuva de apartes no Capitólio.
Republicanos e democratas
dão ao foguete chamado Apolo
um prazo para chegar à Lua.

Um anjo de goma e pepsi-cola
faz o pedestre apressar a passo
nas avenidas incandescentes
de olhos de vidro inquebrável e aço.

Na poderosa e marmórea Washington
cheia de templos greco-latinos
só a borracha da noite de outono
apaga as garatujas dos homens.



NOVA IORQUE

Como é bela a América, o país das gaivotas!

Do meu quarto de hotel, vejo os arcos do mundo
e as bandeiras de todos os navios.
Môças caminham sòzinhas no dia fluorescente.
A florista negra sorri entre as camélias.


(da secção América, de Estação Central, 2ª edição: edições Orfeu, 1968))

31.7.09

LÊDO IVO

SONETO DAS CATORZE JANELAS


O que se esquiva em mim mais se levanta
no sul da arte poética, no drama
onde o meu ser transfigurado clama
que eu escreva a canção que não me encanta

mas, por falar de mim, sempre me espanta
pela perícia com que me proclama.
E eu destruo o supérfluo, usando a chama
que sobre o meu trabalho o sol decanta

Não se faz um soneto; ele acontece
e irrompe da alquimia do que somos
subindo as altas torres do não ser

Nas rimas que ninguém nos oferece,
pungentes, nós seguimos, e fitamos
catorze casas para nos conter.

(de Acontecimento do Sonêto, 1946)

11.11.08

[estou onde está o homem - a propósito deste post do Miguel]


LÊDO IVO

A CORUJA


Minha noite é o dia
que enxota os sóis intrusos.
Qualquer vento enferruja
os portões e os navios
e muda em garatuja
as inscrições latinas
acima das cornijas.
Minha noite é a luz
sem subterfúgios
que atravessa o fundo
das agulhas mais finas
ou a fagulha dormida
em seu leito de hulha.
Só junto aos semáforos
desta capitania
sou a sentinela
das coisas encobertas
velhas botijas de ouro
gárgulas de cimalha
tocaia ou valhacouto.
E na alvura da noite
branca de mandioca
e esplêndida de coitos
estou onde está o homem:
na malha que o cinge
no abraço que o enlaça
na traça que o rói
no passo do sonâmbulo
na prega da mortalha.

(de Calabar, editora Record, 1985)

26.7.07

LÊDO IVO

PALHA DOURADA


Somos o que a perfeição
nos deixa ser.
As abelhas zumbem
na tarde de verão
e o mundo é vão:
mão que escorrega
no corrimão;
raio de sol
no chão.

Somos tudo o que se esvai:
a sombra, o grito,
o amor, a fumaça.
O dia passa
como um gavião.
E a tua mão
pousa afinal,
palha dourada,
na minha mão.

(de Crepúsculo Civil, editora Record, 1990)