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23.6.17

LÍDIA JORGE


Também a Livraria Assumpção tinha sido atacada de mansidão depois do Natal, ou era dos meus olhos. Quem entrava para comprar adquiria rápido e saía, mas eram poucos e o gerente da loja queixava-se do negócio. Havia contudo pessoas que mansamente pareciam amar os livros, liam-nos aos pedaços, fechavam-nos e voltavam a pô-los nos escaparates com medo de ofender o caixa, com mansidão. A princípio não tinha notado isso, mas aquele Inverno corria manso, sim. Havia sobretudo as prateleiras de absoluta mansidão, onde poucos chegavam e menos abriam, raríssimos compravam. O Sr. Assumpção tinha mandado escrever a Dymo e em verde, POESIA, em maiúsculas. Mas as maiúsculas que o Sr. Assumpção tinha escolhido, se correspondiam ao seu instinto de oferta, não tinham nada a ver com a procura. Às vezes abria as páginas soltas dum e doutro livro dessa estante e tudo me parecia igual, as imagens e os termos repetidos. Acho que procurava a razão mas não encontrava a resposta. Possivelmente a poesia devia viver de associações de elementos de número finito, talvez extremamente finito como a água, o fogo, a lâmina, o círculo, a nuvem, até às últimas energias. Então talvez o ser do ser estivesse já atravessado em todas as direcções e a saturação tivesse sido atingida, donde compreender que ninguém comprasse poesia. Bastava possuir em casa um dicionário e juntar palavras, cruzando-as, descruzando-as, para se encontrar a inovação surpreendente que era apenas roupa da roupa. Descria.
Contudo de vez em quando uma dessas associações caía-me sob os olhos, perseguia-me como uma flecha que se vingasse e acompanhava-me a caminho do autocarro. Bom, mas isso seria por andar com a melancolia afiada. Para ser franca tinha mesmo a impressão de que esses livros possuíam uma sabedoria imanente, porque os dedos corriam as lombadas e encontravam como por azar ou coincidência as páginas que procurava. Vinha-me então a convicção de que alguém as havia escrito para mim com remetente certo. Uma espécie de entretém.


(excerto de Notícia da Cidade Silvestre, 1984)

21.6.14

LÍDIA JORGE


Muitos são aqueles que apresentam razões fortes para duvidar, mas eu tenho a certeza de que Portugal existe. Ainda há pouco tempo atravessei o território de Norte a Sul, demorei sete horas, sempre a abrir, as auto-estradas funcionaram na perfeição, e por onde elas passavam havia bandeiras verde-rubras hasteadas em locais inimagináveis - encostas de montanhas, cimo de palheiros, telhados de igrejas e até em carros de bois, atadas aos fueiros da frente, eu as vi a acenar, como se a paisagem fosse uma parada. Isto aconteceu um mês depois de a Selecção Portuguesa ter ido à Suíça como favorita e os rapazes se terem portado mal. Quando perguntei a uma funcionária da estação de serviço por que razão ainda mantinham a bandeira arvorada no alto dos cedros, ela olhou-me com um certo desprezo - "Que importância tem? Não é por perdermos que deixamos de ser portugueses." Já no regresso da viagem, vim a olhar para os campos e a pensar no poema que José Emílio Pacheco escreveu sobre o seu país. Vou procurar traduzir para português o que ele pensou em castelhano do México.

Não amo a minha pátria
O seu fulgor abstracto e inacessível.
Porém (ainda que soe mal) daria a minha vida
Por dez dos seus lugares, certas pessoas,
Portos, bosques de pinheiros, fortalezas,
Uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
Várias figuras da sua história, montanhas
e três ou quatro rios.

Eu também.


(início do primeiro capítulo de Contrato Sentimental, Sextante Editora, 2009)

15.3.10

PAULO JOSÉ MIRANDA

[...]
Em Paris, em casa de um amigo, João [Domingos Bomtempo] pôde presenciar um quadro de Chardin que não mais esquecera e havia de o tentar continuamente, Cesta de pêssegos com nozes, groselhas e cerejas. O quadro caía novamente pelo interior da sua atenção. No centro, os pêssegos ordenados, empilhados, aprisionados na cesta, era o que primeiro nos surgia, num leve muito leve contraste com o fundo, a parede escura, porque também eles eram escuros, principalmente os que se viam no rebordo da cesta. Havia contudo um pêssego, quase no centro da cesta, no centro do quadro, que clareava, mais claro do que as nozes à esquerda fora da cesta e onde uma luz incidia, ou mais claro do que as groselhas que, do lado direito do pêssego e do lado esquerdo das cerejas, estas encostadas, completavam a matéria orgânica. Havia ainda uma pequena cereja abandonada entre as nozes e as groselhas. A mesa também apresentava um matiz mais claro do que a parede. Mas a luz naquele pêssego era um segredo, como se viesse do seu interior e não do exterior, alguém no meio do nada a querer impor uma fé, um sentido a toda aquela morte. Se os frutos pudessem aguardar alguma coisa, aguardavam apenas o apodrecimento. Separados das suas árvores nada mais poderiam esperar. E um só pêssego parecia contrariar todo o abandono a que aquela breve vida estava votada. E é do abandono a que sempre estive exposto, mas que só agora com a morte de meu tio consciencializei, que esta composição deverá tratar. Por conseguinte, agora é que já não podiam existir quaisquer dúvidas acerca da natureza desta composição. E definitivamente um Requiem: lembrar a Deus as almas daqueles que me morreram. As almas, que para Deus são pêssegos sobre uma mesa.
[…]

(excerto de Natureza Morta, livros Cotovia, 1998 – três razões)


JEAN-BAPTISTE-SIMÉON CHARDIN


Basket of Plums, c. 1765
óleo sobre tela
Norfolk, Chrysler Museum of Art



LÍDIA JORGE

[…]
Imerso, claro, o que não poderia ser doutro modo. O sentido da sua recordação, atendendo ao que recorda, mantém-se tão inviolável quanto o é, por exemplo, a razão profunda do pêssego. Nessa matéria, é um erro imaginar que as pessoas sejam superiores às aves, às trutas ou aos pêssegos. No pêssego, como em qualquer outro corpo, tudo converge para um caroço inquebrável que existe dentro e fora de todo o caroço, e que não se vê nem se acha na implosão dos frutos, nem na explosão deles até às coisas siderais. Sabe bem como um pêssego peludo, no meio dum prato, é um razoável mistério. Ora bem, não será perverso dizer a quem pretender achar o âmago dessa pequena recordação, que não o acha, mesmo que, um a um, persiga os passos de todas as figuras que patinharam nesse Verão secreto, até ao último instante. Misterioso como o pêssego – uma memória fluida é tudo o que fica de qualquer tempo, por mais intenso que tenha sido o sentimento, e só fica enquanto não se dispersa no ar. Embora, ao contrário do que pensa, não ignore a História. Acho até interessante a pretensão da História, ela é um jogo muito mais útil e complexo do que as cartas de jogar. Mas neste caso, porque insiste em História e em memória, e ideias dessas que tanto inquietam? Ah, se conta, conte por contar, e é tudo o que vale e fica dessa canseira! Se é com uma outra intenção, deixe-se disso – reprima-se, deite-se, tome uma pastilha e durma a noite toda, porque o que possa ficar da sua memória sobre a minha memória não vale a casca de um fruto deixado a meio dum prato. Como lhe disse, maravilha-me esse relato sobretudo pela verdade do cheiro e do som.

Não, não é pouco o cheiro e o som.

Se entender apenas o cheiro da fruta que lá tão rapidamente apodrecia, ou o som do mar tão idêntico em todo o mundo, sim, seria. Pense, porém, como o som das figuras pode ser a sua voz, o perfume delas pode ser tão intenso que constitua sem querer o halo perfeito das suas almas. Há outras coincidências para além do cheiro e do som.
Aconselho-o, porém, a que não se preocupe com a verdade que não se reconstitui, nem com a verosimilhança que é uma ilusão dos sentidos. Preocupe-se com a correspondência. Ou acredita noutra verdade que não seja a que se consegue a partir da correspondência? […]


(excerto de A Costa dos Murmúrios, 1988)

21.11.08

LÍDIA JORGE

(...) E o cantoneiro disse. Às vezes costumo dizer. Amo as palavras bonitas, mas quando ouço certas coisas, ah punhão, apetece-me ir buscá-las ao fundo das tripas e do buraco que se chama recto. Ninguém. Ninguém se liberta de nada se não quiser libertar-se. E ainda disse. Mas aqui. Aqui ficam todos pelo desejo das coisas. Ah traição. (...)

(excerto de O Dia dos Prodígios, 1980)