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2.4.12


LUÍS AMARO


CREPÚSCULO

Saudade o que sinto
no íntimo da alma
e segreda baixinho?

Calou-se o mundo.
Já me não perturbam vozes
alheias... Estou sozinho

e é quase noite. Vou,
pela rua, esquecido
do dia que findou,

e é qual uma doçura
a envolver-me, a mim
que já supunha ferido

da vida... Caminho,
os outros seguem... Eis-me
num canto de jardim

a divagar... E penso:
porquê esta saudade
dum bem que nunca foi?

Ah, de ilusões vivemos!
Inda que sejam falsas,
nós próprios as erguemos.

E a noite nasce, branda…
Regresso, já saudoso
desse anónimo instante
breve, silencioso


(de Dádiva, 1949 / in Diário Íntimo, &etc, 2006)

25.3.10

LUÍS AMARO


FUGA
a Herberto Helder
Numa nuvem de esquecimento
passar a vida,
sem mágoas, sem um lamento,
água correndo, impelida
pelo vento.

Ouvir a música do instante que passa
e recolhê-la no coração,
olhos fechados à dor e à desgraça,
os ouvidos atentos à canção
do instante que passa.

Beber a luz doirada que irradia
dos vastos horizontes,
e ver escoar-se o dia
entre pinhais e montes...
Doce melancolia.

Esquecer todas as agruras
que lá vão
e este negro mar de desventuras
em que voga ao sabor de torvas ondas
meu coração.


(de Diário Íntimo, 1975)

21.9.09

LUÍS AMARO

CONQUISTA


a Murilo Mendes

Na miséria mais funda
cintila uma estrela
a dizer que a vida
é bela.

No silêncio aflito
da noite (naufrágio
dos tristes)
alguém sonha e canta
virgens alegrias.

A manhã nascente
para ser merecida
tem que ser sangrada
com a própria vida.

(de Dádiva, 1949)