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10.7.05

[A página 56!!!]

MÁRIO DE CARVALHO

Isto de amar alguém tem que se lhe diga e decididamente não vem nos livros.
Assim me foi revelado por Simão Ullenstein, quando o encontrei nos últimos anos de uma longa vida, a um canto da terceira sala da gigantesca biblioteca da Aqwa, frente à sua enorme mesa de fichas.
- Pergunte-me qualquer coisa sobre o assunto - disse-me Simão.
Como ter mesmo? - perguntei eu.
Ele manuseou desencantado um ficheiro amarelecido, dobrou em quatro um velhíssimo pergaminho e volveu-me:
- Eu não dizia? Nunca tenho resposta para nada...
Foi toda uma vida de compilador em vão.
O epitáfio de Ullenstein era um artístico ponto de interrogação gótico, muito negro, sobre alvo mármore.
Consegui que os herdeiros de Ullenstein me vendessem os seus ficheiros e documentação.
Uma noite comecei a desempacotar. Estava tudo em branco. Os pergaminhos mais antigos, por ele coligidos, haviam sido cuidadosamente apagados, com uma solução corrosiva.
Há dias voltei à enorme biblioteca. A um canto encontrei um jovem muito moreno, de barbicha negra talhada em ponta. Andava numa azáfama febril, de estante para estante.
Perguntei-lhe que fazia.
- Estou a coligir tudo, sobre amar alguém - disse.
- Conhece os trabalhos de Ullenstein?
- Perderam-se todos no incêndio da biblioteca do Vaticano, não sabia? - respondeu.
- Daqui a sessenta anos nos encontraremos - volvi eu.
Ficou uns momentos quieto. Depois, sem me voltar, ouvi-lhe as passadas miúdas, de prateleira para prateleira, o dedilhar nervoso sobre os infólios.

(de Fabulário, &etc, 1984 - há uma edição mais recente pela editorial Caminho)

30.5.05

[outros melros XXV]

MÁRIO DE CARVALHO

Gosto de melros, os espertotes, ladinos, com aquele jeito preto de recalcitrar de lado. Há poucos pelas relvas de Lisboa, não sei se da concorrência de pardais fura-vidas e de pombalhões abafa-espaços, se de uma vontade de saltitar ao de leve por outras bandas.
Ainda assim, aparecem uns tantos pela feira do livro, a lavrar no parque. Negrejam aos picos no verde, dão-se a uns desenfados de voejo breve, armados em superiores. Bonito bicho, de muita inspiração literária. Ele é o Jean-Baptiste Clément, ele é o Junqueiro...
Não há melros num espaço fechado, num armazém tristonho e esquadrinhado de encontrões sem sol. Todos os anos aquele para-baixo e para-cima, os encontros de fulano e cicrano, as capas que amadurecem de ano para ano, a luz explosiva de Lisboa, os revérberos, o Marquês que medita, as frondes da avenida, o Tejo glauco a fechar as vistas.
Tenho estado em salões, por essa Europa. Salões, salas grandes, com o seu quê de fábrica e hangar. Em parte nenhuma há esta cor, esta brisa este céu, esta extensão clara, esta alegria. Mude-se o que houver a mudar. O espaço, deixar estar.

(in Os Livros no Parque, editado por 9 editoras e distribuído gratuitamente na Feira do ano passado)

21.2.05

MÁRIO DE CARVALHO

Um homem quis ir até ao fim do mundo e foi.
Era uma grande falésia que dava para um abismo.
- Mas onde é que fica mesmo o fim do mundo? - duvidou o homem.
- Aqui ou lá em baixo?

(de Fabulário, &etc, 1984)