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24.1.15

M. S. LOURENÇO


VI
I
Sem trocar a nuvem por Juno,
Do Gades ao Ganges poucos distinguem um ovo dum espeto.
O espírito conduz a vontade e o medo?
Não lamentamos entrar com o pé direito?
A ruína vem do que pedimos aos deuses.
Afogamo-nos no dilúvio da propaganda,
Chocamos com a elevação do músculo militar.
Poupar arruina. Nero cercou Longinus e Séneca;
Uma coorte assaltou o palácio de Laterano;
Raro os soldados entram num cenáculo.
Com duas moedas de prata, à noite, receias o ladrão,
Tremes com a sombra da folha ao luar.
O pobre ri-lhe na cara.

II
Nos templos pede-se acções maiores no Fórum,
Que o juro cresça depressa.
Não bebes aconite numa taça de barro,
Odeia-la quando tens porcelana,
Quando as bolhas ardem no ouro.
Não louvarias, pois, os dois sábios,
O que ria e o que chorava ao sair de casa?
Pode-se condenar a rir mas tanta água surpreende.
Demócrito sacudia os pulmões com riso,
Mas nunca viu os fasces, os tribunais, togas de púrpura.
Se visse o Pretor no seu carro,
No pó do circo, túnica de palma,
Toga de ouro aos ombros, com uma coroa insuportável!
Debaixo dela sua um escravo,
Para contento do Cônsul senhor e escravo no mesmo carro.
Há ainda a águia, no ceptro de marfim,
Aqui os corneteiros, ali os clientes, numa toga de neve,
Amigos comprados no jantar da véspera.
O filósofo riu-se da multidão,
Até das suas lágrimas,
Quanto a si fazia um manguito à fortuna.

III
Untamos as coxas dos deuses com cera
E em troca recebemos palha.
O poder e a cobiça destroem.
As honras afogam: as estátuas são apeadas.
Sejano, querido do povo, arde na fogueira.
Com a sua face modela-se uma caçarola.
Louro sobre as portas!
Um touro para o Capitólio!
Alegres, todos arrastam Sejano.
«Que lábios que ele tinha! Que figura!»
«Podes crer que nunca gostei dele»
«Condenado porquê? Sem culpa formada?»
«Nada disso, uma carta palavrosa de Capri»
«Já estou a ver».

IV
O povo segue a fortuna, odeia os condenados.
Os mesmos chamar-lhe-iam Augusto,
Se Nortia lhe tivesse sorrido.
Como não podemos votar
O horizonte é mariscos e cama.


(de Arte Combinatória, Moraes Editores, 1971)

3.8.09

M. S. LOURENÇO


CAMILO PESSANHA
SOBE OS DEGRAUS DO PARNASO

I

Antes de tudo a Música.
Onde prefiro o tempo ímpar,
Mais vasto & mais solúvel no ar,
Sem nada nele que pese ou pose.
Passo por isso ao peito
O som das sílabas, na grande oitava.
Nada mais sublime que a frase da chuva,
Onde o Indeciso soa com o Preciso.


II

Pelos silêncios amigos da lua,
Elevada a espuma, a névoa
Com pontas de sol & diamante
Espalha os anéis do sal, até que a Poente
Trazem, em porte circular, as nuvens
Agora lentas, ao subir para a bruma do cais,
Para a espuma da areia,
O sol iluminado pela noite.


III

No tom calmo através do fumo,
Na onda lenta que o fim do dia solta,
A tarde vibra violeta & eu sigo
O grave & o agudo da chuva.
Seis sentidos para ascender
Ao encontro das harmonias da noite.
Só a ressonância delas junta o sonho
Ao sino & a flauta ao gongo.


IV

Uma jarra de dálias sobre a mesa
Repousa no seu perfume de sândalo,
Em tempos de um alaúde
Ou de uma flauta.
Uma cabeça de ouro
Incensa a página que reflecte,
Iluminada, o texto de trevas,
Em tempos de vésperas ou completas.


V

Agnosco veteris
Vestigia flammae.
Quase sinestésico o vitral
Que arranca a harpa ao anjo,
Em curso no seu voo da noite.
Uma melodia plagal
Equilibra o alto sobre um acorde
Composto de três silêncios.


VI

Fujo da palavra sem timbre
Da expressão sem tom,
Da língua turva, do enunciado impuro,
Onde as arcadas do violoncelo choram.
Exaustos os rapsódicos rios de leones,
Fundo o murmúrio fluvial da estrofe,
Ouvindo interiormente,
Com as pálpebras cerradas.


VII

No céu as estrelas movem-se,
Uma a uma, até que soam
De cristal as cadências da noite.
A chuva canta ao meio, lenta & longa.
A mim só me resta,
Numa polifonia que tudo contém,
Puro, um deus que cresça,
A aproximar-se, por degraus, da Morte.


VIII

Musica et nunc et semper.
O meu poema é um enigma.
Ouve-se dele sair a alma que sobe
Para outros céus, para novos amores.
Seja o meu poema a liturgia cantada,
No ópio da manhã crispada,
Em que o vento verga a orquídea do Tibete.
& o som do vento é literatura.


(de Nada Brahma, Assírio & Alvim, 1991 – Peninsulares / Literatura)