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12.11.08

MANUEL ALEGRE

Eu fui, há já muito tempo, o que actualmente se chama “um atleta de alta competição”.
Cheguei a internacional, fui campeão nacional de natação, conheci, em todo o esplendor e intensidade da juventude, a glória efémera de subir ao pódio.
Talvez por isso eu nunca tenha confundido literatura com qualquer espécie de campeonato. Não é uma corrida de velocidade nem de fundo. Ninguém sabe em que lugar chega ou em que lugar fica. Só o tempo o dirá. E isso não é sequer o mais importante. O que conta é aquilo a que eu chamaria estado de escrita. E que é uma espécie de estado de graça, tão intenso e efémero como o de subir ao pódio. O que conta realmente, é esse estado de vivencia mágica, de mediação ou vidência, como queria Rimbaud. Essa revelação do mundo através da palavra poética. Eu acredito que cada palavra contém o universo. E que um verso errado pode eventualmente alterar o equilíbrio cósmico. Acredito na poesia, que está antes e depois da literatura. E que é sobretudo a busca incessante dos ritmos primordiais. Ou como diz Octavio Paz: “litania, oração, exorcismo, liturgia, celebração”.

(inicio do discurso de aceitação do Grande Premio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, 1998 – in O Escritor – revista da Associação Portuguesa de Escritores Nº 13/14, Dezembro de 1999)

10.6.08

[outros melros LII]

MANUEL ALEGRE

Que porque


Estou diante do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, ao cimo da Calçada de Santana, em Lisboa. Aqui houve outrora o mosteiro do Convento de Santa Ana, destruído pelo terramoto. Não há nenhuma placa, nenhum sinal. Mas Camões foi enterrado aqui, da parte de fora do Convento. Olho o terreno ao lado do Instituto. Ia jurar que é o mesmo onde, embrulhado num lençol, foi sepultado aquele a quem, numa lápide ali mandada colocar mais tarde, D. Gonçalo Coutinho chamaria “o príncipe dos poetas do seu tempo”.
Há um melro a cantar. Ocorre-me um extraordinário livrinho de Philippe Soupault sobre Lisboa, intitulado Carte Postale. Começa assim : “Lisboa é a aurora”. Mais adiante diz que “...cada um dos pássaros de Lisboa sabe de cor um verso dos Lusíadas”.
Talvez haja uma toada de Camões no trinado deste melro. Uma toada. Foi o que para sempre ficou dentro de mim ao ouvir meu pai ler em voz alta versos de Camões. Digo ouvir. Eu ainda não sabia ler, não percebia o sentido, mas ficava fascinado com o ritmo, a toada, a cadência, chame-se-lhe o que se quiser. Digo ouvir porque foi assim que tive a revelação da poesia e da música que há dentro da língua. E porque foi ouvindo o som daquelas vogais e consoantes que aprendi de cor, antes de saber ler, algumas estrofes de Os Lusíadas e alguns sonetos de Camões, além de “Perdigão perdeu a pena”. Uma toada, um ritmo, uma outra forma de música. Que é, ninguém me convence do contrário, a que se ouve no marulhar do Atlântico. As ondas rolam em decassílabos, às vezes em versos de sete sílabas.
Pode acontecer que, sem se dar por isso, comece a dedilhar-se uma guitarra invisível tocando as cordas da sexta e da décima ou, mais raramente, da quarta, da oitava e décima sílabas. Ou então que, de repente, comece a falar-se assim. Ou até a dançar. Camões decassilaba-se em nós. Está no sangue, bate no pulso.
Depois há o “que porque” da Canção IX:
Assim vivo; e se alguém te perguntasse
Canção, como não morro
Podes-lhe responder que porque morro.
Que outro poeta seria capaz de juntar estas duas terríveis e rudes palavras e pô-las a cantar? Que porque. Música. Um acto fundador, momento primordial da poesia de língua portuguesa. Que porque.
Meu pai costumava dizer que a poesia de Camões se pode assobiar. Se calhar é o que o melro está ali a fazer.

(in Relâmpago, nº 20 - 4/2007)

1.3.07

[sempre fui do Sporting, mas creio que qualquer pessoa da minha idade, independentemente do clube, lembrará os nomes dos jogadores do Benfica dos anos 80. Bento está marcado nas minhas memórias de infância, sobretudo por causa de um jogo (acho que amigável), que vi ali em baixo, da nossa Selecção com a da Alemanha, em 1982 ou 1983]

MANUEL ALEGRE

A FESTA


Eram talvez setenta a oitenta mil
bandeiras como cravos cor de Abril.

Eram talvez setenta a oitenta mil
e uma só voz um só clamor

E lá em baixo na relva longe e perto
o Bento o Alves o Nené o Humberto

camisola vermelha flor de Abril
como um só coração uma só cor

Não me venham dizer que futebol não presta
Eu não sei de outro rito não sei de outra festa

Falta um minuto. Aí vem o Chalana: é golo
E tocam no Olimpo as trombetas de Apolo

E passa a humilhação passa a tristeza
e passa o dia-a-dia e só nos fica

este minuto de alegria e de beleza
este grito na noite este clamor: Benfica

(in O Desporto na poesia portuguesa, pesquisa selecção e notas de José do Carmo Francisco, Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1989)

30.7.05

MANUEL ALEGRE

O oitavo soneto do Português Errante


Fui Gonçalo da Maia o Lidador
campeando por meu reino imaginário
e entre ser e não ser em Elsenor
já fui o desditoso o solitário.

Fui Príncipe banido deserdado
treze vezes cativo em Aquitânia
trago um país de exílio desterrado
na grande solidão de Lusitânia.

Viúvo sempre de qualquer idílio
eu sou o peregrino o desditoso
que a si mesmo se busca e não se encontra.

O meu próprio país é meu exílio
por isso o meu combate é sem repouso.
Eu sou o que nasceu para ser contra.

(de Atlântico, 1981)

2.7.04

MANUEL ALEGRE

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Uma atenção tão concentrada que
parece distracção ou mesmo ausência.
Navegação abstracta e a urgência de
conjugar o concreto e a imanência.

Ela colhe no ar a maravilha
depois diz a safira o mar a duna
procura o oriente o azul a ilha
e seu canto a reúne: única e una.

E por isso o seu gesto é como asa
onde há a Koré grega e a grafia
de quem junta os sinais e os sons dispersos.

E o seu poema é quase como casa
e a casa é o outro espaço onde Sophia
reparte à sua mesa o pão e os versos.

(de Sonetos do Obscuro Quê, 1993)