Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Bandeira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Bandeira. Mostrar todas as mensagens

7.1.13

MANUEL BANDEIRA


POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. 

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. 

Abaixo os puristas.

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção 
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis 

Estou farto do lirismo namorador 
Político 
Raquítico 
Sifilítico 
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. 

De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc. 

Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbados 
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos 
O lirismo dos clowns de Shakespeare. 

- Não quero saber do lirismo que não é libertação.


(de Libertinagem, 1930)

21.2.12


MANUEL BANDEIRA


SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava… Que nos penetrava como uma espada de fogo…
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!

E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
– Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores e fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas.
 Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes – Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas – deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-se com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros…
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
– A profunda, a silenciosa alegria…


(de Carnaval, 1919)

13.10.08

[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia X]

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

O PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA


Recifense criado no Rio,
não pôde lavar-se um resíduo:
não o do sotaque, pois falava
num carioca federativo.
Mas certo sotaque de ser,
acre mas não espinhadiço,
que não pôde desaprender
nem com sulistas nem no exílio.

(de Museu de Tudo, 1975)
[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia VIII]

MANUEL BANDEIRA

O LUTADOR


Buscou no amor o bálsamo da vida,
Não encontrou senão veneno e morte.
Levantou no deserto a roca-forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!

Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o mostro de desmedido porte
- A ululante Quimera espavorida!

Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado.

E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!

30 de Setembro – 1.º de Outubro de 1945.

(de Belo Belo, 1948)



PALINÓDIA


Quem te chamara prima
Arruinaria em mim o conceito
De teogonias velhíssimas
Todavia viscerais

Naquele inverno
Tomaste banhos de mar
Visitaste as igrejas
(Como se temesses morrer sem conhecê-las todas)
Tiraste retratos enormes
Telefonavas telefonavas...

Hoje em verdade te digo
Que não és prima só
Senão prima de prima
Prima-dona de prima
- Primeva.

(de Libertinagem, 1930)
[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia VI]

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

1945

Outubro, 5 – No apartamento de Manuel Bandeira, para pedir-lhe autógrafo no álbum de uma amiga de Maria Julieta. Conta-me que recebeu há dias carta de uma prima freira, na qual se falava de uma santa que teve o coração transverberado (atravessado de luz). A palavra invocou-o, sem que entretanto lhe viesse à idéia fazer um poema de que ela fosse núcleo ou participante. Eis que, domingo, o poeta almoçou “com uma pequena”, e depois estiveram em intimidade. Veio-lhe a seguir o estado de modorra, durante o qual compôs mentalmente um soneto, com título e tudo: “O lutador”. No dia seguinte, escreveu a peça, mudando-lhe apenas uma palavra. O “coração transverberado” aparece no fecho do soneto; composto todo ele em estado de semiconsciência, não como ato de inteligência, diz Bandeira.

Nota de 1980: O poeta narra o caso em sei Itinerário de Pasárgada, publicado em 1954: “Tanto este soneto como Palinódia são coisas que tenho que interpretar como se fossem obra alheia.”

(de O Observador no Escritório, editora Record, 1985)
[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia IV]

ARNALDO SARAIVA / MANUEL BANDEIRA

Ontem, hoje, amanhã: a vida inteira,
teu nome é para nós, Manuel, bandeira.
Procuro, em vão, pelas paredes da casa do poeta, esta lapide que para ele poliu um outro poeta, que, estreante, por ele foi entusiasticamente saudado e que com ele vem trocando uma amizade bem brasileira (pernambucana e mineira), palavras como só eles sabem, em verso e prosa, trabalhos editoriais, e a glória da autoria de alguns dos melhores poemas da língua portuguesa deste século.

(…)

Quase 50 anos são passados sobre a publicação do seu primeiro livro de poemas: como vê hoje essa publicação?
Com o meu primeiro livro de poemas eu não quis fazer carreira literária. Doente, o meu maior sofrimento era pensar que ia morrer sem ter feito nada. Ora a única coisa que eu podia fazer era nada. Arranjei um violão, uma «chaise longue», e assim surgiu A Cinza das Horas. Um desabafo, portanto. Um desabafo que, como tal, não transcendeu as minhas dores pessoais. Eu era menino alegre e brincalhão, mas a tuberculose fizera-me triste. Já em Carnaval eu estava melhor, e o meu fundo de «sense of humour» apareceu. Neste livro eu fiz as primeiras tentativas de verso livre em português, que agradaram muito a Guilherme de Almeida e a Mário de Andrade, graças aos quais passei a ser um poeta modernista, a conhecer a poesia de vanguarda da Europa e a transformar-me num poeta «affiché». Penso, porém, que só cristalizei em Libertinagem, e que A Cinza das Horas era um livro bem feito, mas não passava da confidência de um sentimental.

Nesse livro acusava grande influência de poetas portugueses.
Sim, principalmente de Camões e de António Nobre. Desde os meus 13, 14 anos que eu sabia de cor os principais episódios de Os Lusíadas. De António Nobre aproximou-me sobretudo a doença, que me levou a um sanatório suíço de Clavadel, que ficava muito perto do chalé onde ele passou algum tempo, para, como eu, se curar.

(…)

Este homem que luta contra a morte desde os 18 anos, agora, que caminha para os 80, ainda conserva dentro de si «o menino alegre e brincalhão». Ao longo deste encontro saiu-se com diversos apartes, que não posso transcrever aqui, e soltou frequentes gargalhadas, em que mostrava todo o seu vigoroso, cerrado e harmónico aparelho dentário. De tal modo que, quando saí, já não cantava dentro de mim a inscrição da lápide drummoniana, mas antes os versos, tão cheios de humor quanto de simplicidade, em que Bandeira se auto-retratou:

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crónicas
Ficou cronista de província;
Arquitecto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

(1965)

(excerto de entrevista, in Encontros Des Encontros, livraria paisagem, 1973)
[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia II]

JORGE DE SENA

MORTE DE MANUEL BANDEIRA


Só hoje, depois de muitas aulas de um curso
sobre a poesia dele, folheando poemas seus,
tive, subitamente, consciência da sua morte,
há mais de um ano, longe, apenas notícia.
Não é essa coisa eventual de notar-se, consabido pasmo
(e a frustração do que jamais vai repetir-se)
que não mais torno a vê-lo e à sua humanidade,
à sua gentileza firme de menino egoísta,
e à surdez com que em verdade não ouvia ninguém
senão a vida e a morte. No fim de contas,
há centenares de poetas que nunca conheci, que admiro,
e que nem sequer estou certo de valer a pena
havê-los conhecido: seriam suportáveis,
humanamente suportáveis, o Dante ou o Camões?
Não: o que de súbito encontro é um vazio
maior. Morreu. Não dirá mais nada,
nada sentirá que nos revele. Os poetas
morrem como toda a gente. A poesia deles
fica, e morrerá mais tarde, como tudo
morre. Mas que um que está connosco
morra inda que velho, e não seja mais
quem escreverá, se ainda escrever: se cale –
- e a gente saiba pelas notícias como se calou –
É a morte, a pavorosa, a estúpida, a grosseira.
O fim de todos os milagres, que ele bendisse.
O horror de descobrir-se no que fica
quanto morreu quem fez o que ficou.
22/11/1969

(de Visão Perpétua, edições 70, 1989)

19.11.03

MANUEL BANDEIRA

Louvação a Rachel de Queiroz


Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, minha amiga, nata e flor do nosso povo.
Ninguém tão Brasil quanto ela, pois que, com ser do Ceará,
em de todos os Estados do Rio Grande ao Pará.
Tão Brasil, quero dizer Brasil de toda maneira
- brasílica, brasiliense, brasiliana, brasileira.
Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel e, louvada uma vez, louvo-a de novo.
Louvo a sua inteligência e louvo o seu coração.
Qual maior? Sinceramente, meus amigos, não sei não.
Louvo os seus olhos bonitos, louvo a sua simpatia.
Louvo a sua voz nortista, louvo o seu amor de tia.
Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo
Louvo Rachel, duas vezes, louvada, e louvo-a de novo.
Louvo o seu romance: O Quinze e os outros três;
louvo As três Marias especialmente, mais minhas que de vocês.
Louvo a cronista gostosa.
Louvo o seu teatro: Lampião e a nossa Beata Maria.
Mas chega de louvação, porque por mais que louvemos,
nunca a louvaremos bem.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

(de Poesia completa e prosa, J. Aguilar, 4ª ed: Rio de Janeiro, 1990)

18.11.03

MANUEL BANDEIRA

Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, minha amiga
nata e flor do nosso povo.
Ninguém tão Brasil quanto ela,
pois que, com ser do Ceará,
tem de todos os Estados,
do Rio Grande ao Pará.
Tão Brasil: quero dizer
Brasil de toda maneira
- brasílica, brasiliense,
brasiliana, brasileira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel e, louvada
uma vez, louvo-a de novo.
Louvo a sua inteligência,
e louvo o seu coração.
Qual maior? Sinceramente,
meus amigos, não sei não.
Louvo os seus olhos bonitos,
louvo a sua simpatia.
Louvo a sua voz nortista,
louvo o seu amor de tia.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, duas vezes
louvada, e louvo-a de novo.
Louvo o seu romance: O Quinze
e os outros três; louvo As Três
Marias especialmente,
mais minhas que de vocês.
Louvo a cronista gostosa.
Louvo o seu teatro: Lampião
e a nossa Beata Maria.
Mas chega de louvação,
porque, por mais que a louvemos,
nunca a louvaremos bem.
Em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Santo, amén.

(da edição do Jornal de Letras de 12 de Novembro de 2003 - sem indicação do livro de origem nem da data)