Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Lopes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Lopes. Mostrar todas as mensagens

25.10.09

MANUEL LOPES

MAR-ALTO


E porque teu coração encerra
a saudade do mar e a saudade da terra
- tua ilha é grande...

E porque teus sentidos traçam norte e sul
e traçam leste e oeste norte e sul
- tua ilha é grande...

E porque tens os olhos virados para o azul
para lá do azul e para cá do azul
- tua ilha é grande...

E porque no teu sangue se deu o encontro de tantas raças
no mesmo latejar de ansiedades e resignações
dores alegrias e desgraças
- tua ilha é grande...

E porque a tua vida marca cada hora
como a onda dominadora
na alegria que chora
ou na tristeza que ri,
tua divisa ora
- em cada hora nasci...

(de Crioulo e outros poemas, 1964)



LEANDRO
(Os Flagelados do Vento Leste)


Querias que os montes fossem gentes
e as gentes montes.
Que se misturassem
confundissem
e falassem
e depois tivessem a magia
de distinguir os montes das gentes
até chegar à humana conclusão
de que eram iguais
com a mesma linguagem
as mesmas lutas e ódios
e em cada despedida
a mesma esperança desesperada
a mesma saudade mentida a mesma ilusão
as mesmas ameaças ou o mesmo perdão
a mesma indiferença
a mesma sorte
desmentida

sob os escombros da vida
que se recusa na morte...

(in Falucho Ancorado, edições Cosmos, 1997)

28.1.05

MANUEL LOPES

CONSUMMATUM


Queria que chegasses, finalmente,
numa manhã qualquer,
- estrela fria de alva ou sol ardente
cujo sorriso bom
me pudesse prender...
Que tivesse o dom
de me encantar e conter
- que valesses o mundo
que sonhei ter...

... Renunciar inteiramente
a esta luta de viver mil vidas.
Que tu fosses o fim que mais cobiço,
se afinal
esse fim existisse
e continuasse sempre igual...

... Para
depois de ter-me libertado
e morto assim o nomadismo inquieto
do meu mundo interior
-minha ânsia de descobrir qualquer coisa melhor -
e destruído por amor a ti
todos os parasitas de oiro e fogo
da eternidade que vivi;

e livre finalmente
com a alma nua e o espírito nu
e um destino e um caminho e um desejo só
e uma só realidade
que és tu
e após a confidência fatigada
(curvado sobre ti como à beira dum abismo):
«Só te esperava para te renunciar!»
dar-te o último soluço que eu não pudesse conter,
e (como a um mundo que acabasse sem paroxismo)
contemplar
sem Saudades, a Mim-mesmo acabado de morrer!...

1945

(de Crioulo e outros poemas, EA, 1964)
Na passada terça-feira, morreu, aos 97 anos, um dos funcdadores da modernidade na poesia caboverdiana. Manuel Lopes é um dos nomes maiores da literatura em língua portuguesa. Autor de vasta obra que inclui a poesia, a ficção e o ensaio (dedicou-se também à pintura), escreveu Os Flagelados do Vento Leste, um dos mais significativos romances da literatura africana em português.

Junto com outros, em 1936, criou a revista Claridade, sinal visível de que os escritores africanos não se envergonhavam da sua própria cultura e que reconheciam a sua riqueza imensa. Contemporânea, mas pouco influenciada pelos vários movimentos literários e artísticos da negritude (Senghor, Cesaire, Diop, mas também o que se passava nas Antilhas, sobretudo em Cuba e, claro, o jazz e os blues da América) a Claridade contitui o veículo pelo qual «pela primeira vez nas terras africanas de influência portuguesa se experimenta uma poesia de raiz», nas palavras de Manuel Ferreira (No Reino de Caliban I, Plátano editora, 4ª ed. 1997)