Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel de Freitas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel de Freitas. Mostrar todas as mensagens

28.11.13

MANUEL DE FREITAS


NADA DE NADA
para o José Carlos Soares
Um dia, logo de manhã, entraremos
num cemitério e perguntarás a Antonia
Pozzi se estar morto é mais ou menos
triste do que estes dias arduamente sepultados.
Receando que saibas a resposta, beberei
com Lowry a primeira ou a última tequila,
na certeza de que ambos os adjectivos estarão
certos (um pouco, talvez, demasiado certos).

Assim possa a chuva apagar todos
os versos que escrevemos
para nada, sobre nada, contra nada,
à sombra imensa dos jacarandás
que floriam - distraídos, quase por engano -
no Rossio. E inundavam de luz (nunca
vi uma luz tão escura) as portas
e os umbrais deste cemitério assim.



(de Terra sem Coroa, Teatro de Vila Real, 2007)

27.10.13

MANUEL DE FREITAS


1998, LOU REED

Foi tão estranho. O barulho
do nada sobrepunha-se
nas mais diversas línguas
àquela frágil tentativa de concerto.

Enquanto nós, trio deveras
implausível, comprávamos
vinho mau e sandes de chouriço.
Não era bem o apogeu de Lisboa;
seria antes o princípio da morte,
indiferente aos fogos de artifício
que haveriam de selar o desencontro.

Preferíamos, sem dúvida,
uns restos de magia,
uma desculpa qualquer para estarmos
efectivamente ali, depois de poluídos
- e só mais tarde rasgados –
os lençóis que nos cobriam.
(That’s the story of my life.)

O Tejo, talvez por vossa causa,
nunca me pareceu tão triste.


(de Jukebox, Teatro de Vila Real, 2005)

17.12.11


MANUEL DE FREITAS


TAKI- TALÁ

para o Jorge

Manhã ká tem dia, para
estes corpos que dançaram anos
e derrotas, na fome cantável das ilhas.
Souberam, melhor do que ninguém,
o preço imediato do futuro que
disfarçam, agora mesmo, de alegria.

E rodopiam, pesados, rente
à madeira das paredes e
ao rumor estrangeiro dos eléctricos.
Já não existem, talvez,
as crianças que na fotografia
a preto e branco brincam sem morte
pela praia — pequeno país que os rostos,
as canções e o álcool tornaram
desmedido. B(e)leza adivinhada
no copo que encontra o chão
e gosta, connosco, de cair.

Mas tu, meu amigo, finges destoar
desta música de latas e violas
rombas, mornas cheias da vida
que nos foge. Essa incompreensível
saudade, sodade — de quando não
fomos felizes. Mar à volta, resignado.

E falas, soletras grogue e cerveja.
Convocas demoradamente
os autores franceses que mais leste
— tudo o que procuro esquecer
contigo, num país mais próximo
daquilo a que por vício chamo
às vezes coração, estrela d'nada.

Porque a música, Jorge, é a única
razão que nos sobra. E a ela apenas
bebemos, com um sorriso grande
a perder-se no rosto que passou já

para sempre. À tua.


(de Cretcheu Futebol Clube, Assírio & Alvim, 2006)

13.9.11

MANUEL DE FREITAS


SEPTEMBER SONG

Ouve, pelo começo de Setembro,
o clamor e a melancolia
deste mar atravessando a tua vida,
as páginas de um livro por abrir.

Ouve como se vê,
sobre as falésias deste mês abrupto,
alguém que te celebra
muito depois das palavras.

É tão difícil escrever um poema
que não fale da morte.


(de Intermezzi, Op. 25, Opera Omnia, 2009)





18.9.10

MANUEL DE FREITAS


TRISTES TROPOS


para o Fernando Luís Sampaio

Diabo. Fugiu-me pela janela
que não estava aberta
um oxímoro em forma de tambor.
Como percuti-lo agora,
a braços (catacrese vossa) com
um gelo trincado e 40 graus de sono?

Distracção não foi, nem modo
de sucumbir que se resolva assim,
nas dobras frouxas e cansadas
de um anacoluto reles.
Falemos, oh sim, do corpo,
quando se repara e não faz mal sequer
que já nada espera — de si ou dos outros.

Meras contingências, acasos de acaso
feitos que outrora fulguravam
por obrigação ou medo
na pressa metonímica de um beijo
cor da morte. Habituamo-nos
a perder, vereis, como células desfocadas
que odeiam resignadamente
o relâmpago da manhã.

Era uma metáfora, eu sei,
senti melhor do que vocês
a sua baba quente e desajustada
sobre os ombros onde um cancro sonha,
trazendo aliterações tristes
àquele que findando fica.

Podia ser eu, não podia?, a
genuflectir quiasmos em tempo
de musas e de vírus complacentes
que se nos não matarem
a morte o fará, descansem.

Leram decerto Montaigne, João Paulo
Segundo, Laura Ashley, e não
se repetem souvent estes dias
de entranhas calcinadas
e de enxofre disfarçando cinzas.

Por isso me calo, imaginando
uma palinódia em zinco pós-moderno
mais propícia, enfim, aos vossos zeugmas morais.


(de Game Over, &etc, 2002)

31.12.07

MANUEL DE FREITAS

HANTAÏ, 1992



Ou digamos cravo, cetim
- how beautiful -
destas horas vãs. Entre
o torpor e o excesso,
tão próximos (outra vez) da morte.

Num gesto de penumbra, avanças
- e o meu rosto passa
a ser outra coisa qualquer.
Fugaz sinónimo de beleza

em vez das punhetas do costume.


(de Büchlein für Johann Sebastian Bach, Assírio & Alvim, 2003)

9.12.03

MANUEL DE FREITAS

A poesia é uma realidade histórica, queiramos ou não.

(do prefácio a poetas sem qualidades, Averno, 2002)

31.8.03

[gosto muito de inventários I]

MANUEL DE FREITAS

Poema Sumário das tabernas de Lisboa

Rua de São Marçal n.º 56, rua de Campo de
Ourique n.º 39, rua de São Bento n.º
432, rua da Cruz dos Poiais n.º 25A. Calçada
do Combro n.º 38B, rua da Atalaia n.º13,
rua de São Miguel n.º 20, rua da
Rosa n.º 123. Travessa do Conde de Soure n.º 7,
travessa dos Remolares n.º 21, rua do
Jardim do Tabaco n.º3, rua da Regueira n.º 40,
rua das Escolas Gerais n.º 126, rua de Santa
Catarina n.º 28. Largo do Chafariz de Dentro n.º 23,
rua Sampaio Bruno n.º 25, travessa de São
José n.º 27, beco dos Toucinheiros n.º 12-A. Rua
Cidade de Rabat n.º 9, travessa do Alcaide
n.º 15-B, calçada de São Vicente n.º 12,
rua das Flores n.º 6, travessa da Espera n.º 54.

Praça das Flores n.º 5

(de Todos Contentes e Eu Também, Campo das Letras, 2000)