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17.8.11

MARÍA VICTORIA ATENCIA


AGOSTO


Hei-de integrar-me nestas horas cálidas,
neste persuasivo agosto, no passar de seus dias
enquanto decorre o ano e eu decorro,
de almanaque na mão e na minha pele sempre
- e eu, rebelde -, a consumir-me em vão
antes de descobrir que o verão me agosta
e que hei-de deixar esta umbria que começo a sentir erma.


(tradução de José Bento, in Antologia Poética, Assírio & Alvim, 2000 - documenta poetica / original de Las contemplaciones, 1997)

10.4.10

MARíA VITORIA ATENCIA


FAROL


Cabo de S. Vicente

Definem-me espelhos trazidos de bem longe,
madeira imputrescível e bronze e tantas horas
de solidão, detrás desta umbela que se abre no limite da arriba;
a lampejos adormecida, morta, hirta,
eu mesma mar adentro, minha vigia e meu mar.


LEMBRANÇAS

Em algum lugar seu, pessoal e distante,
ocultam as imagens seu diário sentido a que mal chego,
e acuso-me de usar cada vez, ao dizer-me,
idênticos silêncios quebrados contra minha alma,
embora na noite escura ainda me acompanhem,
me acalmem ou rejeitem, sosseguem ou aflijam,
me penetrem no exacto coração de sua história
e me afastem do uso natural da lembrança.


FERIDA

Quando um signo adverso em mim se instala e me enche
de vazio, corrente vida acima prossigo, o coração aberto
— e sua fábrica antiga — a uma ferida de névoa
em minha porção humana encomendada,
para tornar em estilhas o córtice de um vento
que em seu punho me abafa. Ninguém demora nada
já passado. São só as trevas que voltam
e se afastam a fugir, deixando chaga idêntica
após cada regresso. E eu gostaria, às vezes,
de ficar para sempre entre os caniços.


VIAGEM

Não sabemos sequer o que somos, mas isso
conduz-nos: continuam a andar nossos comboios.
Passa outra composição pelo carril oposto
e não há nenhum adeus, fingindo-nos os mesmos;
os mesmos, e seguindo, sabendo sem surpresa
nem memória. Outra vez a estação e outra vez a sineta.
Volta a arrancar a tarde e mascarra-nos seu fumo.


A CAMINHADA

Éramos gente afeita ao dom da mansidão
e à vaga lembrança de um caminho para um sítio.
E ninguém deu a ordem. — Quem saberia seu instante? -
Mas todos, ao mesmo tempo e em silêncio, deixámos
o abrigo habitual, o lume aceso que enfim se apagaria,
as ferramentas dóceis pelo contacto com as mãos,
o cereal crescido, as palavras a meio, a água a derramar-se.
Sinal nenhum chegou. Pusemos-nos de pé.
Não voltámos o rosto. Começámos a andar.


(in Antologia Poética, tradução de José Bento, Assírio & Alvim, 2000 - documenta poetica / original de La Pared Contigua, 1989)

22.4.05

MARÍA VICTORIA ATENCIA

DAR E PEDIR

Como os seres vivos no seu devido tempo,
dar ou pedir podemos o que já nos pertence
e aquilo que por norma nos esteve vedado.
Usual, a proposta possui tantos matizes
como em dádivas é vária a natureza mãe:
o poder, a paixão, o fervor, a beleza.

De nada vai servir-nos viver as estações:
para Dezembro vamos com o frio nos ossos,
embora escolher possamos - em tão vários instantes
da noite ou do dia - inferno ou paraíso.
Somos livres de optar neste absurdo estado,
mas somente o perfil que mais nos favoreça.

(tradução de José Bento, in Antologia Poética, Assírio & Alvim, 2000 - documenta poetica / original de Marta e María, 1976)

18.5.04

MARÍA VICTORIA ATENCIA

SE A BELEZA...


Se a beleza em seu frescor deve ceder,
não deixes que se extinga em mim seu poderio,
pois se dei preferência a outros dons, não tive
em menosprezo o alto valor de teus favores:
a possível beleza de que me cumulaste
ou que assim parecia a quem mais que a mim quis,
pois com acréscimo gozar me concedeste
de apaixonado amor, enchendo com excesso
o jarro que aprontado levei para o encontro.

O barro fendilhado, sem gatos nem remendos,
deixa-me uma excelência a demorar a morte.

(de Marta e María, 1976 - tradução de José Bento, in Antologia Poética, Assírio & Alvim, 2000 - documenta poetica)

7.4.04

MARIA VITORIA ATENCIA

A NOITE


Pode a lua cegar-nos, ela que em nosso leito
nos convoca, nos fere fatalmente ou cativa,
fiéis a seu intento de um sono desvelado.
Abre-se a noite. Dura. A trepadeira é cúmplice.
Cai ao chão a roupa ínima. Porém, idêntica
aurora há-de velar-nos ou ser glória nossa.

(tradução de José Bento)