Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Ângela Alvim. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Ângela Alvim. Mostrar todas as mensagens

2.12.08

MARIA ÂNGELA ALVIM

ESPERA

Espera. Palavra espera
não escrita, não contada
às coisas abstraídas
da tortura de entender,
e espera sendo, contudo,
espalhada, diluída
como é a primavera
na superfície de tudo.
Espera não sei de quê,
- já que não tem artifício
não pode ser traduzida, -
espera não sei de onde vem
ou se vai a alguma parte.
(Se a folha tenra é memória,
guardando a chuva caída,
de um gosto talvez das raízes,
sabe se é fim ou retorno?)
Espera não sei de onde vem,
mas nessa espera floresço,
sou planta e não me disperso
somando à só substância
um tempo de justo acréscimo
que é de essência e epiderme.

- E, presa desta forma libertária
esqueço o que fui em vida
de tantas mortes sofrida...

(de Superfície / toda poesia, Assírio & Alvim, 2002 – documenta poetica)

25.10.07

GRÉCIA ANTIGA

Niki tis Samothrakis / Vitória de Samotrácia
Paris, Museu do Louvre


MARIA ÂNGELA ALVIM


VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA


Não aqui, - além é que existes. Teu vôo
demais amplo na extensão dos olhos
de tão curto olhar,
em tempo de pausa acompanhamos.

Mito
anjo
graça
alma de dança
teu corpo era paixão na pedra.

... Param os passos,
espraia-se o mar
onde arrebatas as vestes do vento,
ó vertigem de ser e de estar!

(de Barca do Tempo (1950-1955), 1962 - in Superfície / toda poesia, Assírio & Alvim, 2002)

5.3.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

GREGÓRIO DE MATTOS


Ao conde de Ericeira, D. Luiz de Meneses, pedindo louvores ao poeta, não lhe achando ele préstimo algum

Um sonêto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já êste quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
Na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um sonêto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.

(fixação do texto de Gilberto Mendonça Teles)


OLAVO BILAC

VIA LÁCTEA


Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Teres notado que outras coisas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.

Mas amastes, sem dúvida... Portanto,
Meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço coisas tristes,
Que mais aflijam, que torturem tanto.

Quem ama inventa as penas em que vive:
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.

Pois sabei que é por isso que assim ando:
Que é dos loucos sòmente e dos amantes
Na maior alegria andar chorando.


ALPHONSUS DE GUIMARAENS

Estão mortas as mãos daquela Dona,
Brancas e quietas como o luar que vela
As noites romanescas de Verona,
E as barbacãs e tôrres de Castela...

No último gesto de quem se abandona
A morte esquiva, que apavora e gela,
As suas mãos de Santa e de Madona,
Inda postas em cruz, pedem por ela.

Uma esquecida sombra de agonias
Oscula o jaspe virginal das unhas,
E ao longo oscila das falanges frias...

E os dedos finos... ai! Senhora, ao vê-los,
Recordo-me da graça com que punhas
Um cravo, um lírio, um goivo entre os cabelos!


JORGE DE LIMA

MISSÃO E PROMISSÃO


Não a vaga palavra, corruptela
vã, corrompida folha degradada,
de raiz deformada, abaixo dela,
e de vermes, além, sobre a ramada;

mas, a que é a própria flor arrebatada
pela fúria dos ventos: mas aquela
cujo pólen procura a chama iriada,
- flor de fogo a queimar-se como vela;

mas aquela dos sopros afligida,
mas ardente, mas lava, mas inferno,
mas céu, mas sempre extremos. Esta sim,

esta é que é a flor das flores mais ardida,
esta veio do início para o eterno,
para a árvore da vida que há em mim.


VINICIUS DE MORAES

SONÊTO DO GATO MORTO


Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selavas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.


MARIA ÂNGELA ALVIM

A PEREGRINA


Calma, sim, acostumada
ao teu convívio constante
és a pessoa encontrada
sendo eterna itinerante.

Passas na comum estrada
e só tu passas durante
a multidão variada
de rostos para o levante.

Às vezes paras na estância
sem nenhum morno cansaço
de quem caminha com ânsia.

Entendes de todo engano
e fazes virar o passo
com tu pífaro indiano.


CARLOS PENA FILHO

SONETO DAS DEFINIÇÕES


Não falarei de coisas, mas de inventos
e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito
à música das cores e dos ventos.

Multiplicar-me-ei em mil cinzentos
(desta maneira, lúcido, me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cataventos.

Daí, o meu desprezo a jogos claros
e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.

Daí também, a enorme divergência
entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.


LUPE COTRIM GARAUDE

DESTINO MINERAL


Sou feita de uma carne perecível
futuro de outra carne, sem nenhuma
eternidade. A rocha é uma invencível
parte da terra; que ela me resuma
no seu mesmo destino mineral.
A solidez ausente que tortura
nossa matéria frágil, no final
se renderá: serei de pedra dura.
Nunca mais chorarei nessa passagem
de poesia. Com nítida certeza,
recorto nas montanhas minha imagem
mais que raiz, expressa na beleza.
Pela terra em que não me desfiguro,
hei de surgir um dia em cristal puro.


STELLA LEONARDOS

HARPEJOS


Qualquer coisa de terno e eterno encanto
deste canto em que estamos nos transcende,
um fresco germinado por manhãs
de pássaros que passam pelo ar cedo,

flagrante deflagrar virgem fragrância,
rufar de asas passantes pluma e seda.
Antes que haja plateia deste instante
já lhe doamos o nosso pensamento.

Cálido, o coração atinge um plano
de surdina nos tons ternura plena
onde entre vós e nós não vai distância

mas a saudade só calada e assente.
Àqueles em que calam acalantos
calor desse cantar feito acalento.

9.9.03

MARIA ÂNGELA ALVIM

Nasceu no primeiro dia de 1926, em Minas Gerais, Brasil.
A mais velha de cinco irmãos, todos poetas.
Pôs fim aos seus dias aos 33 anos.


Meus olhos são telas d'água,
não ferem a perfeição.

*


O túmulo. O vôo do corvo,
sombra das mãos da amante traçando o adeus.
Passaram as mãos da amante sobre o corpo sem memória
e se perderam no infinito das paralelas.

*


A noite maior desceu à minha esquerda,
a grande noite das estrelas cegas.
À minha direita
o braço mecânico,
o olho de vidro,
o riso de louça,
o dia-invenção,
- o despudor das coisas divisíveis.

(de Superfície, 1950)


Já viajas na morte, - nadam
aí tuas flores, passageira.
- E só perfumes te engrinaldam
a cabeceira.
Noutra margem onde se foram
as cores que emigram na enseada
sonhos de vida acalentada
hoje redouram.

Para Celma

(de Barca do Tempo, 1950-1955)


I

...Se vamos levando enganos?
Chegamos. Rostos se apagam,
vão somando semelhanças
com outros rostos já vistos
(Ai de nós, se subtraem
sempre mais tristes, sofridos).
- Ninguém se conhece. E nós
sabemos de cada um:
nascido é um novo sentido,
por isso nos entregara. Que compreendemos
demais.
E nós mesmos, coagidos
a largar-nos sem aviso
de razão: comprazimento.

Tão fora de nós, tão dentro,
andamos quebrando a sede
nos corredores sem água.
Apenas em nós se guarda
a certeza, esta certeza
de tantas portas fechando
em outras portas se abrindo.
Aqui encerra o domínio
nosso mundo repartido. As sombras,
jardim de loucos, protegem esta subida:
são plantas? Respira a noite.
É o vento? Seriam as vestes
bem alvas, mais que tecidas
da enfermeira sem rosto
e braço - no escuro nos conduzindo?

Ah! Existem outras escadas
que subimos mais por dentro.
No balaústre uma estátua
se apóia em nosso receio.
Paramos. Eis uma porta
imensa. Crescemos tanto!

E, passando,
pequeninos. Novos degraus
mas pequenos, sempre mais
nos reduzimos.

A enfermeira, distante,
era negra e para sempre
atrás das portas, da noite,
do jardim, branco vestido.

(de Poemas de Agosto)

[poemas retirados de Superfície - Toda Poesia, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poetica]