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24.10.10

MARIA DE LOURDES BELCHIOR


POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA: A «GERAÇÃO DE 40»
[excerto]

(…)
Comece-se por uma delimitação de campo. A que limites corresponde a imprópria, mas já quase clássica, designação «geração de 40».
Em princípio, dado que o segundo modernismo — o da Presença — se fixa, lato sensu, entre 1927 e 1940, há-de pressupor-se que a chamada «geração de 40» se configura, geneticamente, entre 1936 e 1940 e depois prossegue, por caminhos seus, o rumo ou rumos que escolheu.
Reconheça-se pela precaridade de tais marcos cronológicos que a periodização literária é método, embora legítimo, pobre e falível. Para com mais rigor delimitar o campo abrangido pela designação «geração de 40», talvez fosse conveniente, seguindo o método usado por H. Truyre em Les générátions tittéraires; seriar, por anos de nascimento, os poetas, de modo a obter uma espécie de nomina poetica que sirva de base à caracterização geracional. Insisto: a designação decimal de «geração de 40» é um artifício e só como convenção serve. É que se o conceito de geração implica uma comum tábua de valores para agir e reagir perante as circunstâncias epocais, não se adeqúe o conceito — geração de 40 — aos dados históricos. E se concebermos, como necessária, para a real existência de uma geração literária, uma plataforma de obras que, apesar de divergentes nas intenções e nos propósitos, possuam como resultado uma significação homogénea, dificilmente se aceitará a fórmula «geração de 40».
(…)

(in Os Homens e os Livros II – séculos XIX e XX, editorial Verbo, 1980 – colecção Presenças)



DAVID MOURÃO-FERREIRA


DEPOIMENTO SOBRE A POESIA DA GERAÇÃO DE 50
[excerto]

Em princípio, uma geração literária só será digna deste nome na medida em que possa exibir um conjunto de obras que, embora diversificadas entre si, se mostrem, no plano temporal, portadoras de homogénea significação. Não é isso, porém, o que, até agora, se verifica na chamada geração de 50; e certo é que nela se nos depara, em lugar de nítidos contornos, a fluidez da perífrase; em lugar do sólido edifício, a construção avulsa; em lugar do patente significado, o testemunho da procura, da desorientação, do logro, da fuga reticente, do combate alusivo. E, com estas palavras, acabo, segundo me parece, de sumariamente caracterizar algumas das atitudes típicas da geração de 50 — que é, em suma, a minha geração.
Trata-se, como já se vê, de uma geração bastante dividida.
Negá-lo será tentar estupidamente alçapremar um grupo em prejuízo dos demais; iluminar tão-só meia-dúzia de personalidades para deixar na sombra os restantes comparsas. O processo tem sido muito utilizado; todos o sabemos. Com ele, ocasionalmente apenas pode lucrar a vaidade de uma ou outra vedeta, a propaganda de uma ou outra capelinha. No entanto, de forma alguma se obterá assim a visão clara dos problemas; nem tão-pouco se contribuirá, de modo positivo, para o futuro esclarecimento da história literária que, bem ou mal a nosso grado, todos estamos realizando. Porque a verdade é esta: todos, pelo simples facto de vivermos, e pelas constantes opções que viver implica, fazemos história; e nós, os que escrevemos, pelo simples facto de escrevermos, e pelas constantes opções que escrever implica, simultaneamente fazemos história, lato sensu, e história literária. Não importa sequer que ao futuro não chegue a maior parte dos nossos nomes. Tal circunstância em nada diminui o involuntário papel histórico que nos coube em sorte (pelo simples motivo de termos nascido em determinado lugar e em determinado tempo) e o voluntário papel histórico que pudemos escolher, que quisemos ou não quisemos assumir. A historicidade do ser humano revela-se, portanto, em dois planos: no que lhe é outorgado pelas circunstâncias e no que resulta da tomada de posição — da escolha — perante essas mesmas circunstâncias.
A minha geração fugiu à guerra,
Por isso a paz que traz não tem sentido
— diz António Manuel Couto Viana, num poema do seu livro Mancha Solar. E estes dois versos — não os restantes, mas estes dois — poderiam ser subscritos por qualquer outro poeta da minha geração, na medida em que definem uma situação prévia que é afinal comum. (…)

(in Motim Literário, editorial Verbo, 1962 – colecção Presenças)



M. ALBERTA MENÉRES / E. M. DE MELO E CASTRO

INTRODUÇÃO
[excerto]

2.°) — A segunda baliza que surgiu pela força das circunstâncias, foi a que define as condições de admissão na Antologia. O critério de um limite de idade não nos pareceu válido perante o carácter específico da Novíssima Poesia de 1945 a 1971, porque nela encontramos lado a lado, como estreantes igualmente válidos, perante uma problemática idêntica e com simultaneidade de vivência. Poetas de mais de 60 anos e de menos de 25. Só isto bastaria para inutilizar as artificiais barreiras de idade, pois nem sequer podemos demonstrar ou afirmar perante as respectivas qualidades das obras poéticas que formam esta Antologia, que um Poeta de 40 ou 50 anos tenha mais experiência humana ou literária que um de 20 ou 30, sem nos colocarmos numa situação conselheiral e pseudo-académica, cujo ridículo é evidente. Além disso, tal critério tende a fomentar falsas distinções e barreiras a que nenhuma base crítica preside. Ante o enorme volume de Poetas possivelmente candidatos, julgámos que o que poderia conferir uma certa experiência literária e também humana, seria a publicação de pelo menos um livro de criação poética que se tenha mostrado válido e activo perante o nosso trabalho de recolha e compilação, e tenha manifestado qualidades suficientes para que o seu Autor valha no conjunto da Antologia. Portanto uma condição indispensável para a inclusão nesta terceira edição foi, sem uma única excepção, a publicação de um livro de criação poética. Conhecemos perfeitamente o óbice deste critério, que se encontra no seguinte: poder deixar-se na sombra algum bom Poeta que ainda não tenha publicado nenhum livro e só tenha colaborado em revista, etc. A isto diremos que esta Antologia se estende por mais de 25 anos de revelações de Poetas, e que a grande época de revistas literárias já passou: ela foi 1950, 1951, 1952, como se verá mais adiante. De então para cá, mercê de circunstâncias alheias ao próprio fenómeno poético, parece mais fácil a publicação de livros individuais, que de revistas e periódicos literários, e por isso talvez a enorme quantidade de livros publicados, além de um natural e crescente interesse pela Poesia, da parte de um público que, embora sempre limitado, está em expansão. E o facto é que os Poetas dispõem actualmente de muitos recursos de publicação, quer em colecções comerciais e particulares, quer em edições de Autor. E podemos dizer que só não publica os seus poemas, o Poeta de mérito que realmente não está interessado nisso. Por outro lado, uma Antologia panorâmica só se pode fazer de forças vivas e culturalmente actuantes, e por isso só pode ter em conta Poetas que entrem realmente na polémica da existência e da acção cultural.

(in Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, livraria Moraes editora, 3ª edição, revista actualizada e com uma nova introdução: 1971 – Círculo de Poesia)

9.2.10

MARIA ALBERTA MENÉRES


Inquieto sono o teu, sobre a copa das árvores.
A cada voz de pássaro ocultado
estremecem teus lábios virtuais!

Uma pequena saudade vem de ti
e do próximo rumor da madrugada
onde vais esquecendo teu primeiro sentido.

Já subindo da terra te oferecem as flores,
em cada gesto igual que as distingue,
o alimento para a tua fome.

E entrarás no primeiro segredo
e teus lábios virtuais repetirão as flores
abençoadas na carne e pelo tempo!

Já nos teus olhos correm as cascatas do mundo,
as belas cascatas indomáveis
onde a pequena pedra tem um corpo alegre!

Mas tu não ris, que o riso partiria
mais solto do que o vento, mais leve que a neblina,
e viria tocar breve o teu sono.

Mas tu não ris: e fácil, redimido,
entrarás no primeiro segredo
que para nós se oculta sob a copa das árvores.


(de Cântico de Barro, 1954)

19.2.09

MARIA ALBERTA MENÉRES

Constróis o dia olhando aquela pedra:
do meu olhar em ti se constrói o meu dia.
Que mundos sucessivos se encadeiam nos homens?
Que mar de ondas inquietas sob o tranquilo mar?

Ao nosso olhar apenas se decompõe o mundo,
se decompõe a pedra em fantásticos gestos,
insuspeitados seres, insuspeitada angústia
arrancando de si o mágico sentido.

Constróis o dia olhando a beleza escondida:
da mesma solidão se constrói o meu dia.
Que harmonia se inventa dos meus olhos no ar?
Para a pedra desfeita, que harmonia se inventa?

(de Água-Memória, 1960)

20.10.08

MARIA ALBERTA MENÉRES

Aqui posso medir tudo o que digo
pelo eco em montanhas indomáveis:
toco a crosta da terra e de repente
logo um som me anuncia em claridade.
Ouvir fica para lá de qualquer voz
junto à fonte mais triste onde se guarde
uma pequena lágrima que esqueça
o que de mim se lembra em tenra idade.

(de O Jogo dos Silêncios, Huguin editores, 1996

21.5.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

LEONOR DE ALMEIDA (Marquesa de Alorna)


Retratar a tristeza em vão procura
Quem na vida um só pesar não sente
Porque sempre vestígios de contente
Hão-de apar'cer por baixo da pintura:

Porém eu, infeliz, que a desventura
O mínimo prazer me não consente,
Em dizendo o que sinto, a mim somente
Parece que compete esta figura.

Sinto o bárbaro efeito das mudanças,
Dos pesares o mais cruel pesar,
Sinto do que perdi tristes lembranças;

Condenam-me a chorar e a não chorar,
Sinto a perda total das esperanças,
E sinto-me morrer sem acabar.


ALICE MODERNO

OS MÁRTIRES


A Gomes Leal

A vida atravessaram, fustigados
Pelo rigor ignaro da ignorância;
Mas perseguindo o Ideal, com fervida ânsia,
Ao culto de uma Ideia devotados.

No aspérrimo percurso da distância
Do berço, à vala dos crucificados,
Não realizaram místicos noivados,
Nenhuma flor lhes deu sua fragância!

Mas ouviu-lhes os fúnebres gemidos
A consciência humana, que aos vencidos
Vai levar às geenas o resgate.

E hoje pairam mais alto que os condores
E mais gloriosos do que os vencedores
Que empunharam a espada no combate!


NATÁLIA CORREIA

ARS AURIFERA I


Do soneto que sémen e ovo inclui
Tal, prévio à queda, o ser original,
A primeira estrofe é fêmea e flui
Húmida e dócil ao coito mineral

Que outra estância supõe. Nela a possui
O pai plasmante p'ra que seja igual
O céu e a terra: amor que restitui
Ao início unicaule o bem o mal.

Ó verso essente! Concluso o hermafrodita,
Flamejante desponta com seis pontas
A estrela que ao poeta sela os lábios:

Misterioso nó que em sacra escrita
Cimos e abismos une. E ficam prontas
As letras em que chispa a luz dos Sábios.


MARIA ALBERTA MENÉRES

UMA PEQUENA PEDRA ESCONDE A LUZ


Uma pequena pedra esconde a luz
que dentro dela lhe ilumina o medo
qual coração sensível se reduz
para oculta melhor nenhum segredo.

No charco imundo a estrela que reluz
acende ao seio o sono tarde ou cedo
quando o pastor de ovelhas as conduz
por entre as redondilhas do arvoredo.

Minha mãe que soletras os meus dias
vendo que em entrelinhas se me esconde
o vício de escrever as alegrias,

diz-me as palavras de dizer por onde
hei-de inventar planuras mais vazias
se é que o silêncio em eco me responde.


LUIZA NETO JORGE

SO-NETO JORGE, Luiza


A silaba que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.

Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.

Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis finda;

à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando voes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.