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19.5.18

MARIA VELHO DA COSTA


DESESCRITA

Quando o disserem calo ou farta brotoeja
cardo sem gosto e arremedo velho
tão serôdio apoucar de outros mais hábeis
ou por tão burilada terem sua arte
ou por sofrentes mais no engenho dela,
hei-de guardá-lo meu por apara da gesta
que todos tentamos por modesta
ao pegar das palavras todas gastas
e pôr-me com mais força a ver da giesta
e do rumor das rugas dos que passam
que para isso estou,
bem mais que no contá-lo e dividi-lo.
Por isso não se afina entendimento lato
nem maestria mais ao escrito e trato:
são tantos os instantes a cuidar pla rama e rua
que só fica o que resta
fresta
cantata rota e rouca
entre o escrito e a estória.


(de desescrita, edição da autora/Afrontamento, 1973)

13.11.07

MARIA VELHO DA COSTA

É hoje um dia em que a mediania disto me parece não insuportável, como todos a dizemos, mas injusta. Injusta como tudo o que deveras se não entende e contudo se nomeia. Todos os nomes e todos os juízos e todas as análises me parecem passar ao lado. Tomámos de mão todos os instrumentos comuns, o saber que a história não vagueia, e temos ajustadas as grelhas das ciências humanas ao que vemos. Paira sobre nós um grande susto singular e onde não temos cólera, temos razão. A nossa cólera volveu-se um discurso dela. A boçalidade de toque lírico e aguçado que era a nossa cobriu-se afinal de uma modéstia atilada e verbosa e apressamo-nos, os de melhores intenções, a que a ela se substitua o desejo de consumir o razoável supérfluo. Onde antes a única fonte de corrupção era o luxo, o que era ainda pujança, hoje corrompe-se pela afirmação do relativamente necessário. Dir-me-á que em toda a parte. Mas antes deste ponto, cada núcleo de gentes teve a sua traição peculiar a perpetrar, o seu campo de mortos intransmissíveis, seu canto particular a serenar. A nós, coube-nos a prematura paixão da honestidade, a aprendizagem da aptidão algébrica e um grande aborrecimento sossegado e assexuado.

(excerto de Maina Mendes, 1969)

5.5.07

MARIA VELHO DA COSTA

105.


É sempre Maio, o duríssimo mês da expectativa e parição das espécies coriáceas. Quão dolorosa é a renovação insistente da maior doçura.

(de Da rosa fixa (prosas), 1978)