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19.2.12


MARIANNE MOORE


A EMBALSAMADA POLÍTICA

Nada há a dizer a teu favor. Guarda
o teu segredo. Oculta-o sob a tua plumagem
          áspera, necromante.
                    Ó
ave, cujas tendas foram "toldos de fio
egípcio", a vaga inscrição em ziguezague da Justiça
          – inclinando-se como uma bailarina –
                    há-de mostrar
a força da sua soberania outrora viva?
Dizes que não, e transmigrando do
          sarcófago, tu és como o vento,
                    a neve,
o silêncio à nossa volta, com a voz de um moribundo,
semi-titubeante e semi-senhoril, tu espias
          em redor. Íbis, em ti qualquer virtude
                    não
existe – tu, que estás viva, mas tão silenciosa.
O comportamento discreto não é agora a síntese
          do bom senso do estadista.
                    Mesmo
que fosse a encarnação da graça morta?
Como se uma máscara da morte pudesse alguma vez substituir
          a excelência imperfeita da vida!
                    Lenta
até para reparar no íngreme e rígido equilíbrio
do teu trono, hás-de ver a forte distorção
          dos sonhos suicidas
                    passar
cambaleante em sua direcção e com o bico
atacar a sua própria identidade, até
          o inimigo parecer amigo e o amigo parecer
                    inimigo.


(in Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Campo das Letras, 1999 – colecção Aprendiz de Feiticeiro)

18.9.05

ALBERTO DE LACERDA

ON HEARING MARIANNE MOORE
READING HER POETRY


Um pássaro Uma voz atravessada
Pelas nuvens da eternidade
Um pássaro Princesa
Suave dos animais estranhos
Das rochas dos límpidos encontros
Dama do esplendor consistente
Bronze preso à vida por um fio
gieseking Scarlatti
Marianne Moore

Austin,
2 de Maio de 1968

(da sequência Mecânica Celeste, in Oferenda II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994)
MARIANNE MOORE

PARA UMA AVE DE PRESA


Convéns-me, pois nem sequer te tomo a sério,
e não ficas cega pela palha que rodopia
ao ser trazida de uma meda pelos ventos.

Sabes pensar e o que pensas dizes
com muito do orgulho e fria firmeza
de Sansão, e ninguém ousa deter-te.

O orgulho assenta-te bem, tão empertigada, ave colossal.
Nenhuma capoeira te faz parecer absurda;
às tuas garras atrevidas são fortes, contra a derrota.

(de Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Campo das Letras - colecção o aprendiz de feiticeiro)

5.11.03

MARIANE MOORE

Nasceu no Missouri (EUA) em 1887.
Recebeu vários prémios pela sua Obra de cerca de uma dezena de títulos.
Morreu em 1947.

Valha o que valer, a minha convicção tem-se mantido inalterável ao longo dos últimos catorze anos; consiste ela em que os poemas de Miss Moore fazem parte do exíguo corpo de poesia durável escrita no nosso tempo; desse exíguo corpo de escritos em que, entre tudo aquilo que passa por poesia, uma sensibilidade original e uma inteligência alerta e uma funda compaixão se conjugaram para a preservação da vida na língua Inglesa. (T. S. Eliot, em 1935 - citado por Rui Knopfli)


UMA GARRAFA DE VIDRO SOPRADO EM FORMA DE PEIXE

Aqui nós temos sede
e paciência, desde o primeiro
e arte, como se numa onda imobilizada para podermos
descortinar na sua essencial perpendicularidade;

Não quebradiço mas
intenso - o espectro, esse
espectacular e ligeiro animal o peixe
cujas escamas afastam com seu brilho a espada do sol.


SILÊNCIO

Meu pai costumava dizer:
"As pessoas superiores nunca fazem visitas prolongadas,
têm de a campa de Longfellow
ou as flores de vidro de Harvard.
Auto-suficientes como o gato -
que, pendendo-lhe da boca a cauda do rato
como um atilho bamboleante,
leva a presa para a intimidade -
por vezes apreciam a solitude
e podem ser privadas do discurso
pelo discurso que as deliciara.
Os sentimentos mais profundos manifestam-se sempre
em silêncio;
em silêncio não, mas de novo comedido.
Tão pouco era incincero quando dizia:
"faça de minha casa a sua hospedaria".
Hospedarias não são residências.


NENHUM CISNE TÃO FINO

"Nenhuma água tão tranquila como as
fontes mortas de Versalhes". Nenhum cisne,
de esquivo escuro velado olhar
e pernas gondoleiras, tão delicado
como o de porcelana colorida com
seus olhos castanho-corça e coleira
de ouro denteado para que
saibamos a quem pertencera.

Instalado no candelabro-árvore
Luís Quinze, de cristas-de-galo em botão,
dálias, ouriços-do-mar e sempre-vivas,
pousa nas ramificações alveolares
das flores em brunida
escultura - sobranceiro e alto. O rei morreu.


QUE SÃO ANOS?

Que é a nossa inocência,
que é a nossa culpa? Todos estamos
nus, em segurança ninguém. E donde
vem a coragem: a pergunta em aberto,
a dúvida resoluta, -
mudamente clamando, surdamente ouvindo - que
na desgraça, mesmo na morte,
encoraja os outros
e na derrota, incita

a alma a resistir? Lobriga
longe e é confortado, aquele
que aceita a mortalidade
e na sua clausura se ergue
acima de si próprio como
o mar que lutando para libertar-se
da fenda, e incapaz de fazê-lo,
encontra na capitulação
a sua continuidade.

Assim, o que é animoso,
saberá comportar-se. A própria ave,
engrandecida pelo canto, acena
para o alto o seu perfil. Cativa embora,
o seu poderoso canto nos diz
que coisa banal é a satisfação,
quão pura é a alegria.
Aquilo é mortalidade.
Isto a eternidade.

(traduções de Rui Knopfli, in Caliban 3/4, Junho de 1972 - edição fac-similada: Instituto Camões - Centro Cultural Português de Maputo, 1996?)