Mostrar mensagens com a etiqueta Marquesa de Alorna. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marquesa de Alorna. Mostrar todas as mensagens

4.8.09

MARQUESA DE ALORNA


QUANDO ME PENHORARAM INJUSTAMENTE TODOS OS MEUS BENS


À Fortuna


Fortuna, que me persegues,
Pequeno triunfo tens:
Eu desejo só vontades,
Tu disputas-me vinténs.
Basta-me o que me deixares,
Quando tudo me levares.

Basta-me esta alma que tenho,
Constante como os penedos;
Bastam-me as águas das fontes,
E a sombra dos arvoredos;
Ponho-me ao fresco no Estio,
E aquento-me, andando ao frio.

Basta-me o Sol, que não podes
Apagar, e à noite a Lua.
Se me tirares a casa,
Irei dormir para a rua.
Sopa, não me dá cuidado,
Tem muitas plantas o prado.

Se o teu rigor se estendesse
A tirar-me o meu tinteiro,
Escreveria nos troncos,
Com um prego, este letreiro:
«Vim ao mundo sem camisa,
Ninguém, morrendo, a precisa.»

(in Poesias, selecção, prefácio e notas do Prof. Hernâni Cidade, 2ª ed.: livraria Sá da Costa editora, 1960)

21.5.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

LEONOR DE ALMEIDA (Marquesa de Alorna)


Retratar a tristeza em vão procura
Quem na vida um só pesar não sente
Porque sempre vestígios de contente
Hão-de apar'cer por baixo da pintura:

Porém eu, infeliz, que a desventura
O mínimo prazer me não consente,
Em dizendo o que sinto, a mim somente
Parece que compete esta figura.

Sinto o bárbaro efeito das mudanças,
Dos pesares o mais cruel pesar,
Sinto do que perdi tristes lembranças;

Condenam-me a chorar e a não chorar,
Sinto a perda total das esperanças,
E sinto-me morrer sem acabar.


ALICE MODERNO

OS MÁRTIRES


A Gomes Leal

A vida atravessaram, fustigados
Pelo rigor ignaro da ignorância;
Mas perseguindo o Ideal, com fervida ânsia,
Ao culto de uma Ideia devotados.

No aspérrimo percurso da distância
Do berço, à vala dos crucificados,
Não realizaram místicos noivados,
Nenhuma flor lhes deu sua fragância!

Mas ouviu-lhes os fúnebres gemidos
A consciência humana, que aos vencidos
Vai levar às geenas o resgate.

E hoje pairam mais alto que os condores
E mais gloriosos do que os vencedores
Que empunharam a espada no combate!


NATÁLIA CORREIA

ARS AURIFERA I


Do soneto que sémen e ovo inclui
Tal, prévio à queda, o ser original,
A primeira estrofe é fêmea e flui
Húmida e dócil ao coito mineral

Que outra estância supõe. Nela a possui
O pai plasmante p'ra que seja igual
O céu e a terra: amor que restitui
Ao início unicaule o bem o mal.

Ó verso essente! Concluso o hermafrodita,
Flamejante desponta com seis pontas
A estrela que ao poeta sela os lábios:

Misterioso nó que em sacra escrita
Cimos e abismos une. E ficam prontas
As letras em que chispa a luz dos Sábios.


MARIA ALBERTA MENÉRES

UMA PEQUENA PEDRA ESCONDE A LUZ


Uma pequena pedra esconde a luz
que dentro dela lhe ilumina o medo
qual coração sensível se reduz
para oculta melhor nenhum segredo.

No charco imundo a estrela que reluz
acende ao seio o sono tarde ou cedo
quando o pastor de ovelhas as conduz
por entre as redondilhas do arvoredo.

Minha mãe que soletras os meus dias
vendo que em entrelinhas se me esconde
o vício de escrever as alegrias,

diz-me as palavras de dizer por onde
hei-de inventar planuras mais vazias
se é que o silêncio em eco me responde.


LUIZA NETO JORGE

SO-NETO JORGE, Luiza


A silaba que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.

Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.

Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis finda;

à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando voes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.