Mostrar mensagens com a etiqueta Matilde Rosa Araújo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Matilde Rosa Araújo. Mostrar todas as mensagens

7.7.10

AUGUSTO CABRITA


(in O Sol e o Menino dos Pés Frios, de Matilde Rosa Araújo, 4ª edição: edições Ática, 1980)

6.7.10

MATILDE ROSA ARAÚJO / SEBASTIÃO DA GAMA

[...] Eras tu, Sebastião; tu glorioso, apesar do teu corpo mudo de menino de tua mãe. Tu que me disseste: «E quando a morte vier diz-lhe que não; diz-lhe que és moça e não cumpriste ainda. Vês, querida amiga, é por causa de momentos assim, em que te resignas a ela, que é preciso a gente escrever, mesmo com certa casca literária, uma «largada». Porque mocidade é insurreição, protesto contra o que não está direito, vontade de erguer monumentos, desassombro para contrariar a morte. Negas a tua mocidade — não a mereces, quando, em momentos que eu muito bem compreendo, aceitas a morte como uma boa irmã. E sabes tu por que motivo a morte, surda ao teu abandono, às boas vindas que lhe cicias, se vai para outros caminhos? É porque ainda a não mereces. Nós não merecemos a morte ainda, Matilde. Que é que nós fizemos? Que lágrimas enxugámos? A que bocas demos pão? Que remédios trouxemos para curar o «mal profundo da alma»? Claro, minha filha, que alguma coisa fizemos. A nossa torre de marfim é bem rasgada de janelas. Mas o «alguma coisa» que fizemos é tão débil, tão mínimo... Ver Nápoles e morrer — dizem. Fazer alguma coisa e morrer — devemos dizer nós, gente nova. Tu perguntaste-me, quando te disse o «Convite a ser-se moço»: «Porque rimaste no fim?» Achei fora de propósito a pergunta... Mas, se meditasse um minuto, talvez respondesse que para fixar melhor aqueles últimos versos.
É preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade. E o processo não é dizer que sim à morte.
Quantas vezes me insurjo contra mim, Matilde, porque me não sinto verdadeiramente moço; é que a minha vida tem mais horas de sangue morno do que sangue latejante... E eu queria ser era forte, era moço, era construtivo. Não para que dissessem, num elogio: Aquele é forte, é moço, é construtivo. Antes para sentir que era útil. Tanta vez tenho vergonha de mim, me sinto mesquinho!» E conta. E continua : «...agora não quero mais senão fixar uma coisa: é que podem todos gritar, como têm gritado, que sou um indiferente, um desinteressado dos... que me cercam — que eu sinto tranquila a minha consciência. E para tal me basta que saiba, de ciência certa, que não sou indiferente, que me não desinteresso. Valem, para mim, muito mais as acções do que as palavras. E tenho e certeza de que sou humano e do meu tempo nas minhas relações com os outros. Para muitos desses outros não basta — queriam qualquer ismo para designar a minha maneira de ser; qualquer ismo moderno. Mas paciência. E sobretudo é cedo demais para julgar quem é mais interessado.
E também já estou a escrever demais e sério demais. A isto me levou o nevoeiro que amanheceu na Arrábida. Desculpa. Eu preferiria, de facto, contar-te uma história de crianças. Olha, esta, a que a Joaninha assistiu: «Eu gostava de ser flor. E tu?» Bem é verdade: «O melhor de tudo são as crianças».
As crianças. Era isso, Sebastião. Era tudo isto: o sol alado, glorioso, que morreu ontem. Era esta tua força perante a vida, este teu merecer a morte, gloriosa e final como mereceste. É isto que nos afasta. Tu mereceste-la inteira [...]

(in Távola Redonda - folhas de poesia, fascículos 16 e 17 [edição de homenagem a Sebastião da Gama], 30 de Abril de 1953 - da edição fac-similada: Contexto editora, 1989)

20.12.03

MATILDE ROSA ARAÚJO

Nasceu em 1921.

PÁGINAS DE DIÁRIO

Outro dia
Montanhas longe alagadas de rosa pálido. O sol já se pôs aqui, as árvores estão mais escuras, os prédios indecisos parece que vão cair. Em baixo passa uma menina de branco, chapéu e vestido brancos, numa bicicleta. Um chapéu de abas largas. Ali mais para a esquerda os montes estão azuis. Uma tristeza enorme me torna prisioneira solitária de uma ilha e mesmo assim sinto-me senhora do mundo. A minha janela é alta e a beleza deste morrer do dia tamanha. Já a menina deslizou e sumiu-se como uma flor pelo asfalto cinzento a rolar. E eu fui assim como uma gota que de mim inteira resvalasse.

(in Árvore - folhas de poesia - 1º fascículo, Outono de 1951)



LUCIDEZ DESNECESSÁRIA

Diante das estrelas
E do sol
Sabendo a morte
E a vida aranha
Disconforme
E concordante
Pronta a parar na teia
Envelheci
Mas posso olhar ainda
Ainda
Cravos de sangue e rosas da estrada
Como se eterna fosse
Mas tão tarde.

(de Voz Nua, livros Horizonte, 1986)


VIDA

- Mãe! O mundo é mau,
Torna a flor num lodo
E um pássaro num verme,
E eu não sabia...

- Filha! Semeia flores no lodo,
Empresta o teu canto ao verme.
Se as tuas mãos continuarem puras
E meigo o teu coração,
Acredita que o mundo é belo.
E saberás!

(de O Cantar da Tila - poemas para a juventude, Atlântida editora, 1979 - desenhos de Maria Keil)