Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga. Mostrar todas as mensagens

10.6.10

MIGUEL TORGA


Coimbra, 10 de Junho de 1988 - Não há nada a fazer. A retórica é o oxigénio do patriotismo. Sem ela, as nações não teriam rosto visível para as multidões.


(de Diário XV, edição do Autor, 1990)

14.8.09

MIGUEL TORGA


Angra do Heroísmo, 18 de Março de 1970 — Aprendida nos livros e descrita de viva voz, a Terceira era na minha imaginação uma abstracta mistura de história e pitoresco. Base naval na era dos Descobrimentos; baluarte das liberdades pátrias em várias ocasiões; tombo de nomes gloriosos — Vasco da Gama, Colombo, Vieira e Garrett —; redondel de touradas de corda; refúgio medieval do Espírito Santo... E é outra ilha que levo daqui, depois de a relancear de fugida — com paragens demoradas apenas na Praia da Vitória e nas Lajes, em nome dum velho afecto revivido e dum súbito patriotismo vigilante —, e de ter tido alguns contactos humanos imprevistos. Longe da surpresa, à hora do embarque encontrei no cais, esfumados no lusco-fusco que me toldava os olhos e o entendimento, meia dúzia de jovens à minha espera, de microfone em riste. Neguei a entrevista, claro, mas convidei-os a subir a bordo. E foi no longo serão que acabámos de passar juntos que a imagem literária se transformou na visão objectiva de uma realidade física e espiritual, que tem na angústia indígena a designação bifurcada de «insularidade e contestação».
— Insularidade! — ponderei. — Mas insular é o próprio continente português, cercado de solidão por todos os lados! Insular é o próprio globo em relação ao mundo universo! O que são as viagens à lua, senão tentativas de fuga à insularidade da Terra? A insularidade é uma situação, não é uma condenação...
Quanto ao segundo termo do binómio, à contestação, perguntei apenas que juventude deixou de a fazer algum dia em qualquer latitude, e se não seria justamente razão de optimismo o facto de ela ser possível também ali...
Assim falei, sem grande esperança de os convencer. Com horizontes abertos em todas as direcções — que Anteros e Teófilos o não compreenderam? —, a que outra largueza geográfica e mental aspiravam aquelas almas juvenis? «Português do mar alto» chamou alguém ao homem açoreano. Mas não é fácil às vezes compreender que empoleirado numa gávea de terra se pode ver mais do que sentado num café de Paris...

(de Diário XI, 1973; 2.ª ed. revista: edição do Autor, 1991)

12.8.07

DOMINGUEZ ALVAREZ

O Bispo, 1933
óleo sobre tela
Colecção de Menéres Campos




MIGUEL TORGA

Porto, 8 de Maio [de 1944]


O BISPO


Soturno como um cipreste,
O triste bispo que eu sou
É pintado.
Diante de Compostela,
Meu bispado,
Ali estou na minha tela,
Magro, pálido e parado.

Olhos cavados de fé
Nariz curvo e descaído,
Boca rasgada e torcida,
Até na tinta se vê
Que não anda bem na vida
Quem já no céu está perdido.

A fogueira arde por dentro
Da batina e da romeira...
A fogueira...
O lume que reconcentro
Numas brasas da lareira.

Ninguém se salva comigo,
Porque eu próprio me condeno.
No quadro, o meu inimigo
É um postigo...
Um simples olhar sereno.

Foi o pintor Alvarez
Que me pintou tal e qual:
Inquisitor castelhano
A fazer um entremês
Mais humano
Em Portugal.

(de Diário III, 1946)

26.3.07

[Salazar e a Poesia - V]

MIGUEL TORGA

Coimbra, 27 de Julho de 1970 - Morreu Salazar. Mas tarde demais para ele e para nós, os que o combatíamos. Para ele, porque não morreu em glória, como sempre deve ter esperado; para nós, porque o não vimos morrer na nossa raiva, na nossa humilhação, na nossa revolta. Viveu a frio conscientemente, envolto numa redoma de severidade gelada, a meter medo, e acabou por morrer a frio inconscientemente, numa preservada agonia amolecida, a meter dó. A doença desceu-o de super-homem a homem, e, a duração dela, de homem a farrapo humano. E, quando há pouco chegou a notícia de que se finara de vez, nenhum estremecimento abalou o país. Nem o dos partidários, nem o dos adversários. Para uns, a sombra definitiva do cadáver sobrepôs-se apenas à bruxuleante luz do ídolo; para os outros, o sentimento de piedade cobriu cristãmente o ressentimento sectário. A obra de domesticação nacional estava realizada há muito por uma tenacidade dominadora que utilizava apenas as qualidades negativas do português, e não tinha outra sabedoria do tempo senão a lição da rotina sancionada nos códigos do passado. A fome de aventura, a inquietação da liberdade, o alento da esperança, o orgulho, o brio, a alegria e a coragem - tudo fora sistemática e impiedosamente apagado na lembrança da grei. Daí que se não vislumbrem quaisquer sinais de tristeza aterrada, e, menos ainda, de euforia redentora. A nação inteira passou, sem qualquer sobressalto, de respirar monotonamente com ditador, a respirar monotonamente sem ele.

(de Diário XI, edição do Autor, 2.ª edição revista, 1991 – 1.ª edição de 1973)

25.9.03

[outros melros IV]

MIGUEL TORGA

Lição


Oiço todos os dias,
De manhãzinha,
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador.
Um poema de amor
Singelo e desprendido,
Que me deixa no ouvido
Envergonhado
A lição virginal
Do natural,
Que é sempre o mesmo, e sempre variado

(de Diário X, edição do Autor, 1968 / 2ª ed. revista: 1992)