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19.1.14

EUGENIO MONTALE


A VIDA oscila
entre o sublime e o imundo
com alguma propensão
para o segundo.
Saberemos mais acerca disso
depois das últimas eleições
que se farão lá em cima
ou lá em baixo ou em lugar algum
porque fomos já eleitos
todos nós
e quem o não foi
está bem melhor aqui em baixo
e quando se dá conta
é tarde demais
les jeux sont faits
diz o croupier pela última vez
e com a sua pá
vai varrendo as cartas.



(in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio Alvim, 2004 - original de Quaderno di quattro anni, 1978)

22.5.13

EUGENIO MONTALE


A ENGUIA

A enguia, a sereia
dos mares frios que deixa o Báltico
para chegar aos nossos mares,
aos nossos estuários, aos rios
que sobe em profundidade, sob a corrente adversa,
de ramo em ramo e depois
de cabelo em cabelo, adelgaçando-se,
cada vez mais dentro, cada vez mais no coração
da rocha, insinuando-se
nos sulcos do lodo até que um dia
a luz solta dos castanheiros
acende o seu vibrar deslizante em poças de água estagnada,
nas fossas que descem
das faldas dos Apeninos à Romagna;
a enguia, tocha, chicote,
flecha de Amor em terra
que só as nossas ravinas ou os secos
arroios pirenaicos reconduzem
a paraísos de fecundação;
a alma verde que procura
vida nesse lugar onde apenas
morde a canícula e a desolação,
a centelha que diz
tudo começa quando tudo parece
fossilizar-se, tronco sepultado;
a íris breve, gémea
daquela que engastam os teus cílios
e fazes brilhar intacta entre os filhos
dos homens, imersos no teu lodo, serás tu capaz
de não a achar tua irmã?





(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 / original de La bufera ed altro, 1956)



JOSEPH BRODSKY 




Era uma noite ventosa, e ainda a minha retina não registara o que quer que fosse quando me acometeu uma sensação de absoluta felicidade: atingiu-me as narinas aquilo que sempre foi para mim o seu sinónimo, o cheiro a algas geladas. Para algumas pessoas, é a erva ou o feno acabado de ceifar; para outras, os perfumes natalícios das agulhas de conífera e das tangerinas. Para mim são as algas geladas — em parte devido às ressonâncias onomatopaicas da própria conjunção (em russo, as algas são um magnífico vodorosli), em parte por causa da ligeira incongruência e do oculto drama subaquático que essa ideia alberga. Há elementos em que nos reconhecemos; quando inalei aquele cheiro nos degraus da stazione, os dramas ocultos e as incongruências já eram havia muito o meu forte.
A atracção por esse cheiro deveria sem dúvida atribuir-se a uma infância passada nas margens do Báltico, pátria da sereia errante do poema de Montale. E, todavia, eu tinha as minhas dúvidas quanto a essa atribuição. Para começar, a infância não foi tão feliz como isso (as infâncias raramente o são, sendo antes uma escola de insegurança e desamor-próprio); e quanto ao Báltico, para escapar à parte que dele me cabe, só mesmo sendo uma enguia. De qualquer maneira, essa infância pouco tinha que a habilitasse a objecto de nostalgia. Sempre senti que a origem da atracção estava alhures, para lá das fronteiras da biografia, para lá da conformação genética de cada um — algures no nosso hipotálamo, que conserva as impressões dos nossos antepassados cordados sobre o seu domínio nativo — a recordação, por exemplo, do próprio ichthus que originou esta civilização. Se ele foi ou não um ichthus feliz, já é outra história.



( in Marca de Água, trad. Ana Luísa Faria, Publicações Dom Quixote, 1993)

3.2.08

EUGENIO MONTALE

CARNAVAL DE GERTI


Se a roda se embaraça no rolo
das serpentinas e o cavalo
se empina na comprimida multidão, se neva nos
teus cabelos e nas tuas mãos um longo arrepio
de fugazes íris ou as crianças elevam
as plangentes ocarinas que saúdam
a tua viagem e os ecos ligeiros caem em lascas
da ponte abaixo sobre o rio,
se a rua se despovoa e te conduz
a um mundo insuflado numa trémula
bolha de ar e de luz onde o sol
saúda a tua graça - talvez tenhas
reencontrado o caminho que tentou um instante
o chumbo derretido à meia-noite quando
acabou o ano tranquilo e sem foguetes.

E agora queres acabar onde um filtro
despoja os sons
e deles faz sair os sorridentes e acres
fumos que compõem o teu amanhã:
agora pedes uma terra onde os onagros
mordem cubos de açúcar nas tuas mãos
e as atarracadas árvores despontam rebentos
miraculosos no bico dos pavões.

(Oh o teu Carnaval será ainda mais triste
esta noite do que o meu, prisioneira entre as prendas
para os ausentes: carrinhos de licores
coloridos, fantoches e arcabuzes,
bolas de borracha, liliputianos
utensílios de cozinha: a urna destinava-as
a cada um dos amigos distantes na hora
em que Janeiro se entreabria e no silêncio
se cumpria o sortilégio. É já Carnaval
ou é Dezembro que se atrasa ainda? Penso
que se moves o ponteiro do pequeno
relógio que usas no pulso, tudo
parará num decomposto prisma
babélico de formas e de cores...)

E o Natal virá e o Ano Novo
que esvazia as casernas e te traz
os amigos dispersos, e também este Carnaval
voltará, ele que agora nos foge
através das paredes que se fendem já. Pedes
para parar o tempo na terra
que em redor se dilata? As grandes asas
sarapintadas afloram-te, os alpendres
suspendem ao ar livre frágeis bonecas
louras, vivas, as pás dos moinhos
rodam fixas sobre as poças gárrulas.
Pedes para suster os sinos
de prata sobre o burgo e o som rouco
das pombas? Pedes as manhãs
trepidantes das tuas praias longínquas?

Como tudo se torna estranho e difícil,
como tudo é impossível, dizes tu.
A tua vida é aqui em baixo onde retumbam
as rodas dos furgões sem descanso
e nada volta se não talvez nestes
sacões do possível. Regressa
até junto dos mortos brinquedos onde a morte porém
não existe; e com o bater do tempo
no teu pulso entrega-te de novo à existência,
entre as paredes pesadas que não se abrem
ao abismo fatigado dos humanos,
regressa ao caminho onde contigo me entristeço,
àquele que apontou um chumbo seco
às minhas, às tuas noites:
volta às primaveras que não florescem.

(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 – documenta poetica. Original de Le occasioni / As ocasiões, 1939)

18.7.06

[outros melros XXXIX]

EUGENIO MONTALE

AO MEU GRILO


Que diria o meu grilo
disse Gina observando o melro
que debica larvas e lagartas nos vasos
de flores da varanda e suja tudo.
Mas o mais engraçado é que o grilo eras tu
enquanto foste viva e poucos o sabiam.
Tu sem olhinhos de alfinete de que tenho
um duplo, um verdadeiro insecto de celulóide
com duas bolinhas que seriam os olhos,
dois pistilos e nos olha de uma cómoda.
Que diria o grilo de então do seu sósia
e do melro? É por causa dela que aqui estou
diz Gina e enxota com a vassoura o maroto do melro.
Depois sobem-se os primeiros taipais. E é dia.

(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 - original de Diário de 71 e 72, 1973)