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11.1.09

NELLY SACHS

TERRA DE ISRAEL


Não cantos de luta vos vou eu cantar
Irmãos, expostos ante as portas do mundo.
Herdeiros dos salvadores da luz, que da areia
arrancaram os raios enterrados
da eternidade.
Que nas mãos seguraram
astros cintilantes como troféus de vitória.

Não canções de luta
vos vou eu cantar
Amados,
só estancar o sangue
e as lágrimas, que gelaram nas câmaras da morte,
degelá-las.

E buscar as lembranças perdidas
que rescendem proféticas através da Terra
e dormem sobre a pedra
em que os canteiros dos sonhos enraízam
e a escada da nostalgia
que ultrapassa a Morte.

(in Poemas de Nelly Sachs, tradução de Paulo Quintela, Portugália editora, 1967 - original de Terra de Istrael / Land Israel, 1951)

19.4.06

[500 anos depois - 2]

NELLY SACHS

VOZ DA TERRA SANTA


Ó MEUS FILHOS
A morte passou pelos vossos corações
Como por uma vinha -
Pintou Israel a vermelho em todas as paredes da Terra.

Para onde há-de ir a pequena santidade
Que ainda mora na minha areia?
Através dos canais da solidão
Falam as vozes dos mortos:

Deponde sobre o campo as armas da vingança
Pra que elas falem baixo -
Pois também o ferro e o trigo são irmãos
No seio da Terra -

Para onde há-de ir a pequena santidade
Que ainda mora na minha areia?

A criança no sono assassinada
Levanta-se; torce pra baixo a árvore dos milénios
E prende a estrela branca anelante
Que outrora se chamou Israel
Na sua coroa.

Reergue-te de novo, diz ela
Pra lá, onde lágrimas significam Eternidade.

(in Poemas de Nelly Sachs, tradução de Paulo Quintela, Portugália editora, 1967 - original de Coros Depois da Meia-Noite / Chöre Nach der Mitternacht, 1946)

27.1.05

NELLY SACHS

CORO DOS QUE SE SALVARAM


Nós que nos salvámos,
De cujos ossos ocos a Morte já cortava as suas flautas,
Em cujos tendões a Morte já passava o seu arco -
Os nossos corpos ainda gemem
Com a sua música mutilada.
Nós que nos salvámos,
Ainda pendem os baraços torcidos para os nossos pescoços
Em frente de nós no ar azul -
As ampulhetas ainda se enchem com o nosso sangue gotejante.
Nós que nos salvámos,
Ainda em nós roem os vermes do medo.
A nossa estrela está enterrada no pó.
Nós que nos salvámos
Vos pedimos:
Mostrai-nos devagar o vosso Sol.
Levai-nos a passo de estrela em estrela.
Deixai-nos aprender devagar de novo a vida.
De contrário poderia a canção dum pássaro,
O encher do balde no poço
Fazer rebentar a nossa dor mal selada
E arrastar-nos em espuma -
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão que morde -
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó -
Perante os vossos olhos em pó nos desfizéssemos.
O que é que aguenta ainda inteira a nossa teia?
Nós que nos tornámos sem hálito,
Cuja alma fugiu para Ele da meia-noite
Muito antes de nos terem salvado o corpo
Na arca do momento.
Nós que nos salvámos,
Apertamo-vos a mão,
Reconhecemos o vosso olhar -
Mas só e ainda nos aguenta a despedida,
A despedida no pó
Nos aguenta convosco.

(tradução de Paulo Quintela, in Poemas de Nelly Sachs, Portugália, 1967 - Poetas de Hoje - o original pertence ao seu primeiro livro In den Wohoungen des Todes / Nas Moradas da Morte, de 1946)
Hoje, no Público, Augusto M. Seabra lembra a célebre frase de Théodor Adorno: "Depois de Auschwitz não é mais possível escrever poesia.", referindo que tal máxima viria a ser contrariada, citando alguns exemplos: David Rousset, Primo Levi, Robert Antelme e Paul Celan.
Não refere, infelizmente, aquele que creio ser o melhor dos exemplos: Nelly Sachs (1891-1970), uma judia alemã que testemunhou os sofrimentos dos seus irmão de raça e crença e que o pôs em palavras numa obra poética intensa, mas também cheia de esperança, vindo a receber o Nobel da Literatura em 1966.

5.12.03

NELLY SACHS

Nasceu em Berlim, em 1891.
Começou a publicar em 1921 e recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1966.
Morreu em 1970.

MÃOS
Dos jardineiros da Morte,
Que da macela do berço,
Que medra nas várzeas duras
Ou na encosta,
Fizeste nascer morte, o monstro de estufa do vosso ofício.
Mãos,
Que arrombais o tabernáculo do corpo,
Filando como dentes de tigre os sinais dos mistérios -
Mãos,
Que fizestes vós,
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Pegastes numa gaita de beiços, nas crinas
Dum cavalo de baloiço, agarrastes a saia da mãe no escuro,
Apontastes pra uma palavra na cartilha -
Era talvez Deus, ou Homem?

Ó mãos degoladoras,
Morreu a vossa mãe,
A vossa mulher, o vosso filho?
Pra manterdes assim só a morte nas mãos,
Nas mãos degoladoras?

(de Nas Moradas da Morte / In den Wohnungen des Todes, Berlim, 1946)


MÃE DE LUTO

DEPOIS DO DESERTO do dia,
no deserto do entardecer,
sobre a ponte q o amor
com lágrimas construiu sobre dois mundos,
veio o teu menino morto.
Todos os teus caídos castelos no ar
os cacos dos teus palácios devorados pelas chamas,
cânticos e bênçãos
desmoronados no teu luto,
cintilam à volta dele como um castelo
que a morte não conquistou.

A sua boca orvalhada de leite,
a sua mão que se adiantou à tua,
a sua sombra na parede do quarto
uma asa da noite,
com a lâmpada extinta regressando a casa -
na praia para Deus
espalhado como cibo pra pássaros num mar
o som do eco da prece de criança
e o beijo caído por sobre o debrum do sono -
Ó mãe de lembrança,
nada mais é teu
e tudo -
pois as estrelas cadentes buscam
através dos campos de papoilas do esquecimento
no seu caminho de regresso o teu coração,
pois todo o teu conceber
é dor desamparada.

(de Escurecer as Estrelas / Sternverdunkelung, Amsterdão, 1949)


MAS DE NOITE,
quando os sonhos c'uma lufada de ar
levam paredes e tectos de quartos,
começa a peregrinação pra os mortos.
Sob o pó de estrelas os procuras -

A tua saudade vai construindo a irmã -
dos elementos que a mantêm escondida
traze-la cá pra dentro
até que ela respira no teu leito -
mas o irmão vai dobrar a esquina
e o esposo regressou já muito alto
então a humildade faz-te emudecer -

Mas depois - quem interrompeu a viagem -
começa o regresso -
Como os queixumes das criancinhas
assustadas co'a Terra
estás tu -
a morte dos mortos abateu-se
c'o tecto do quarto -
protectora jaz a minha cabeça sobre o teu coração
o amor - entre ti e a morte -

Assim chega o crepúsculo
espalhado co'a semente rubra do Sol
e a noite desfez-se em lágrimas
dia dentro -

(de Terra de Israel / Das Leiden Israels, Francoforte do Meno, 1964)


Escuro ciciar do vento
na seara
A vítima pronta ao sofrimento
As raízes estão caladas
mas as espigas
sabem muitas línguas maternas -

E o sal no mar
chora na distância
A pedra é uma existência de fogo
e os elementos puxam pelas cadias
pra a união
quando a escrita espectral das nuvens
recolhe imagens primevas

Mistério na fronteira da morte
«Põe o dedo nos lábios:
Silêncio Silêncio Silêncio» -

(de Enigmas em Brasa / Gluhende Ratsel, incluído em Spate Gedichte, Francoforte do Meno, 1965)

(poemas incluídos em Poemas de Nelly Sachs, antologia, versão portuguesa e introdução de Paulo Quintela, Portugália, 1966)

18.9.03

NELLY SACHS

Vós que nos desertos
buscais veios de água ocultos -
de dorso curvado
escutais à luz nupcial do Sol -
filhos duma nova solidão com Ele -

As vossas pegadas
calcam a saudade
para os mares de sono -
enquanto o vosso corpo
lança a folha escura de flor da sombra
e em terra de novo sagrada
o diálogo que mede o tempo
entre estrela e estrela começa.

(de Poemas de Nelly Sachs, antologia versão portuguesa e introdução de Paulo Quintela, Portugália, 1967)