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29.9.11

(Alcobaça, 25 de Setembro de 2011)

NUNO DEMPSTER


Se esse amor mitológico os tornasse
mais felizes, se acaso lhes dissesse
caminhem na cidade e hão-de encontrar
Inês ou Pedro vivos no café,
o lado vulgar do amor não se poria.
Mas isso não sucede àqueles que
procuram no mosteiro de Alcobaça
a sua salvação, com a esperança
redutível a um lar e, como Inês,
aos filhos por que o amor se vai movendo.
Hão-de dizer se lerem estes versos:
«Mas que desencantados pensamentos
o fazem escrever coisas vulgares.
Pedro e Inês são o exemplo de que só
um grande amor exige amor maior,
e assim a perfeição da vida humana,
não o quotidiano que nos rouba
a existência de modo tão anónimo.»
«Pois», respondo. «Percorram a cidade
e entrem em um dos prédios suburbanos
à hora do jantar. O cheiro a fritos
é coisa que não liga com amor
de príncipes. Se tanto, Pedro e Inês
são um casal de amantes sem história
que chegou de autocarro e ninguém viu.»


(de Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Edições Sem em Pé, 2011)

1.6.10

NUNO DEMPSTER


DA IMPOSSIBILIDADE


A luz do sol está além do ocaso.
Não me refiro a um deus,
nem sequer ao delírio
da palavra perpétuo,
adjectivo da morte,
da qual também não trato
nem faço nenhum voto, indiferente
de indiferença altiva.
Igualmente não falo do passado,
pelo menos daquele que não cessa
de circular imagens como sombras
que não chamam por nós.
Quando digo que a luz do sol
está além do ocaso é porque
não pode tocar-se essa luz,
ninguém pode ir por ela para além dela:
do mesmo modo, a tua face não se dá,
os olhos já estranhos, sem o brilho
que liga o corpo ao corpo
quando o corpo parece ultrapassar-se,
o que, só para meu consolo,
digo ser um processo bioquímico
daquilo a que é costume chamar-se alma,
madre de sentimentos comburentes
e, quem sabe, de enganos da memória.


(de Confluências, in Dispersão, edições Sempre-em-Pé, 2008)

26.9.09

NUNO DEMPSTER

O COMBOIO



Digamos no final deste sábado que
a novidade foi nada se ter passado,
que tudo cada vez se volve mais eterno,
profundamente chato e sem contornos,
e que não é possível um pássaro de fogo
entrar-me no escritório, vulgo biblioteca.
Sei tão bem as cidades por onde caminhei
que bocejo somente em pensar ir
até ao aeroporto. Todas essas cidades
se resumem à estrada que vai por aqui
não me interessa aonde.
Mesmo a rapariga que achei bela,
a semana passada desfeou-se
e as árvores, porque é Outono,
perderam todo o brilho que tiveram,
e nada disto é digno de citar-se.
Portanto regressemos ao princípio.
Nada sucede, e o meu coração lança
a crédito outro dia que jamais
poderei reaver. E quantos dias
assim hão-de somar-se em anos idos?
Oxalá não me ponha a fazer contas
a esse tempo que vou perdendo
nem escute o comboio em que, miúdo,
pensei fugir de casa para sempre.

(de Osmose; in Dispersão – Poesia Reunida, edições Sempre-Em-Pé, 2008)

6.2.04

«Pensando poesia

Neste tempo de poesia em que nada se inventa, e o que se quer inventado tem, pelo menos, trinta e cinco anos, será o soneto uma atitude retrógrada? Ou em tão rigorosas medidas, como um fato feito num alfaiate de prestígio, cabe o homem de hoje e a sua linguagem poética?

Uma boa pergunta, se a Blogolândia fosse uma tertúlia. Mas não é, e assim cada um fica com a sua resposta e talvez com a ideia, porventura em alguns alargada demais, de que hoje são múltiplos os caminhos da poesia.»


Estas palavras, publicadas no aoeste, pelo Nuno Dempster, reavivaram-me a ideia que tenho, quase desde o início deste blog, de criar um espaço de distribuição de sonetos (digamos que quase aleatoriamente) e, eventualmente, textos sobre o assunto.
Mais de quinhentos anos e todas as línguas ocidentais permitem um bom manancial.
Belo pretexto o do Nuno: começa já a seguir!