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7.10.13

OLGA GONÇALVES


liberdade

vês. ao pé da mancha branca, a meio da vertente. vês. ao pé do souto. um pouco mais acima. sim. aquelas fragas. ali, os meus irmãos e eu brincávamos às guerras, e cada um escolhera o seu castelo, brincávamos à forma, ao sangue ainda cru, ao gelo muito azul, ao delírio dos castiçais no braço íngreme da montanha.

da ponte levadiça, eu, silvestre, gesticulava aranhas. dava bocadinhos de figos às borboletas. antecipava os nocturnos para a vigília de todos os animais dos meus espelhos.

agora a língua bate a paisagem que se tornou imóvel, amadurece e apodrece o líquen em cada ponto essencial da fraga, na última batalha, hoje abstracta combustão de ferros, deixei um grande resplendor. iluminuras vivas. era setembro violento e seco. ao fundo, perto dos salgueiros, o abismo do outono respirava. eu pensava nos mortos. no bafo da maçã. na pausa das imagens sobre a água. no buraco da rocha onde pudesse gritar liberdade. e a palavra caminhasse, sem tremer, até ao outro lado e acordasse os outros. e abrisse pórticos na treva.


(de Caixa Inglesa, edições Rolim, 1981)

19.9.08

OLGA GONÇALVES

(…)
Então, percebi. Só um homem de tal força lhe dera a coragem para fugir àquele grilhão em que esteve, enrolada em bons tratos e alto luxo.
‘Foram as conversas com ele que me tiraram do Areeiro. Sem me pedir para lho pagar. Não acreditava em pagas, como não acreditava em promessas, nem no que dizem os jornais.’
‘Acreditava só nos livros?’
‘Uma vez perguntei-lho. E foi pronto na resposta. Que gostava de romances porque neles havia que descobrir a verdade por baixo dum maralhal de invenções que o escritor maquinou. Que, por isso mesmo, também há que desconfiar dos gajos, ver por que lado é que tocam a guitarra.’
‘A guitarra?’
‘Sim. O modo de pensar deles, que os escritores também são artistas.’

(excerto de Armandina e Luciano, o Traficante de Canários, editorial Caminho, 1988 – O Campo da Palavra)

23.5.04

OLGA GONÇALVES
Nasceu em Luanda em 1929.
Iniciou a actividade literária pela poesia, mas teve maior destaque na ficção, pela qual recebeu vários prémios.
Morreu em Lisboa no início de Abril deste ano.

Como a palavra nua
que partiu sem regresso
a angústia voltou

*

Falta um vagar a cada movimento
do pé do tempo
que conduz à estrada

*

1. Nós estaremos lá onde o silêncio fecha
os olhos moribundos nós estaremos
lá à porta do silêncio.

2. O sol desmanchará o corpo das sombras
as pedras serão relógios os lugares voltarão
a ser grandes lugares.

3. E as lágrimas sem tempo e as lágrimas
traçadas perderão formas definitivas

nós estaremos lá

(de Movimento, Moraes editores, 1972 - Círculo de Poesia)


COMPOSIÇÃO 22

Os marcos. Os nomes. Vestígios de. As margens. Os gavetões herméticos da cidade. Violência. As torres. A ficção da solitária cena lenta. Os matadores com violetas nos dedos. Espécie. A convergência. Mitologia de um jogo de engrenagens. Um lupanar. Dois lupanares. Quinhentos e vinte e cinco lupanares. Séries. As línguas sarcásticas do relógio. As legiões. Emboscadas memórias. O cão de cada criatura. O tempo comprimido em dinastias. Encontro casual de circunstância. As gerações de escravos. A íntima candura. Serões judeus. O desvalor de um punhal sem coragem. Quem pôde lá escrever um livro de acabado modo. A lua nossa contemporânea. A gesta deste século. Matadores com violetas nos dedos. Quem sabe se a imortalidade. Nos reinos tocam sinos sobre o sangue da chuva. Se porventura o sonho. A água muito fria. O homem só. Uma parede em história. Injuriada. Quem trouxe o espanto a nudez a caricatura da repetição do silêncio. E nas vidraças faltam noites. E à vidraças chegam os braços da modesta orgulhosa forma de sobrevivência. Pelas vidraças fogem figuras foscas filhas de todas as jornadas. Esta página de um itinerário. Se regressar posso.

(de 25 Composições e 11 Provas de Artista, 1973)


festejar no teu corpo a liberdade
que a dobra desta noite pronuncia
sobre o nervo da voz foça de alarme
garganta milimétrica de abril

um cravo da coronha de um soldado
no campo há meia hora ainda em sentido
para o gesto tão fundo tão volável
infância já da luz dentro do sismo

jornais não censurados no tapete
uma fábula fértil de fogueiras
crepitando onde rola o som da estampa

interior ao rumo à labareda
o desenho final do nosso beijo
na premissa mais livre do meu sangue

(Abril 1974)

(de Só de Amor, edições Ática, 1975)


2.

debaixo somos
caruma areia saibro prata espuma
e o dia amadurece à recta claridade do fruto leve e morno
o dia que se alarga onde
hoje
lugar de verão arável como a terra
esbulhado de permanentes dívidas
se restitui profuso
original
obsessivo espaço já berma já repouso
estuário de vastas solidões
hélas ! que l'arc-en-ciel nous prend
et on se déshabille
et on est livre de gorges de soleil
ailleurs.

(de Três Poetas, colecção O Oiro do Dia, 1980)


20 de Dezembro

Caem as sombras. Tão devagar
como o sono se desenha e afunda no corpo.

Remota, a quietude
levanta-se, vai descobrir onde
o pensamento pode ser também ancestral
longo lençol para a revelação dos nomes

Por uma fresta de chuva cortada
de rumores começa
a densidade
que me sitia: presença
maior, sem rosto
extenuando o sossego que vou pisando
ontem difuso


agora exacto


tangencial


divinamente exacto.

(de O Livro de Olotolilisobi, edições Afrontamento, 1983)


audível

pedi-lhe a história de uma árvore. disse-me conta a de todas as árvores da floresta. quando as vozes se cobrem de escuro e as distâncias caminham a par. cautelosamente. para o lado onde os ecos morrem de espanto. e um frémito decompõe sua beleza estática. e a lua sobe aos cômoros mais próximos. e a noite afirma não estarei aqui para sempre. há lobos, há frio. há solidão na terra.

(de caixa inglesa, edições Rolim, 1981 - aleph)