Mostrar mensagens com a etiqueta Ossip Mandelstam. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ossip Mandelstam. Mostrar todas as mensagens

4.11.11

ÓSSIP MANDELSTAM


Não te seduzam alheios idiomas, esquecê-los é bom que tentes:
seja como for não poderás morder o vidro com os dentes.

Com que sofrimento se domina o voo do crocitar alheio —
pelo êxtase ilegítimo, que dura paga te espera.

Porque o nome alheio à hora da morte não vai salvar
o corpo moribundo e a boca pensante e imortal.

E se os encantadores Ariosto e Tasso, que nos seduzem,
são monstros com escamas de olhos húmidos e cérebro azul?

E, amante de sons, castigando-te a vaidade,
vai passar-te pelos lábios a esponja de vinagre.

Maio de 1933


(in Fogo Errante - antologia poética, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio d'Água, 2001)

19.6.10

ÓSSIP MANDELSTAM


Um friozinho faz cócegas na nuca,
é impossível ver de imediato:
também a mim me corta o tempo como
a ti se desgasta e camba o salto.

A si mesma se vence a vida, o som
derrete pouco a pouco, falta sempre
qualquer coisa, até falta o tempo
para ter qualquer coisa que se lembre.

Dantes era melhor, é bem verdade;
esse velho sussurrar de outrora
em nada se pode comparar,
ó sangue, ao teu sussurrar de agora.

Pelos vistos não é gratuito
este leve mexer dos lábios,
e abanam, mexem-se os ramos
que condenaram a ser cortados.

1922


(de Fogo Errante - antologia poética, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio d'Água editores, 2001)

12.9.05

[o canto e a ceifa III]

OSSIP MANDELSTAM


Quando sai para os céus a lua citadina,
E a noite prenhe de cobre e mágoa cresce,
E de lua a cidade espessa se ilumina,
E a cera canora ao tempo rude cede,

E na sua torre de pedra o cuco chora,
E a pobre ceifeira - no mundo dessangrado -
Ajeita de leve agulhas da sombra enorme
E as lança, palha amarela, no sobrado...

(de Guarda a Minha Fala para Sempre, tradução Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, 1996)