Mostrar mensagens com a etiqueta Pavese. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pavese. Mostrar todas as mensagens

12.1.12


CESARE PAVESE


LENHA VERDE
(para o Massimo)

O homem imóvel tem à sua frente colinas na escuridão.
Enquanto estas colinas forem feitas de terra,
os camponeses terão de as cavar. Fita-as e não as vê,
como quem na cadeia fecha os olhos, completamente desperto.
O homem imóvel — esteve na cadeia — retoma amanhã
o trabalho com alguns camaradas. Esta noite está sozinho.

As colinas sabem-lhe a chuva: é o odor distante
que às vezes chegava à cadeia com o vento.
Às vezes chovia na cidade: o escancarar
do sangue e dos pulmões à liberdade da rua.
A cadeia absorvia a chuva, na cadeia a vida
não acabava, às vezes também filtrava o sol:
os camaradas esperavam e o futuro esperava.

Agora está sozinho. O odor insólito a terra
parece-lhe saído do seu próprio corpo, e recordações antigas
— ele conhece a terra — puxam-no para o solo,
para aquele solo verdadeiro. Não vale a pena pensar
que a enxada os camponeses enterram-na na terra
como num inimigo e que se odeiam de morte,
como tantos inimigos. Têm também uma alegria
os camponeses: aquele pedaço de terra amanhado.
Que importam os outros? Amanhã as colinas
estender-se-ão ao sol, cada um terá a sua.

Os camaradas não vivem nas colinas,
nasceram na cidade, onde em vez de erva
há carris. Às vezes também ele se esquece.
Mas o odor da terra que chega à cidade
já esqueceu os aldeões. É uma demorada carícia
que faz fechar os olhos e pensar nos camaradas
na cadeia, na longa cadeia que espera.


(de Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, livros Cotovia, 1997)

17.2.08

[Pretendo continuar #8. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]

CESARE PAVESE

MULHERES APAIXONADAS


As raparigas descem para a água ao fim da tarde,
quando o mar se esvai, estendido. No bosque
cada folha estremece quando emergem prudentes
na areia e se sentam nas dunas. A espuma
alonga-se em jogos inquietos na água distante.

As raparigas têm medo das algas escondidas
sob as ondas, que se agarram às pernas e aos ombros:
o que está nu do corpo. Sobem rápidas para as dunas
e chamam-se pelo nome, olhando à volta.
Também as sombras no fundo do mar, no escuro,
são enormes e vêem-se a mexer, incertas,
como atraídas pelos corpos que passam. O bosque
é um refúgio tranquilo ao pôr-do-sol,
mais do que o areal, mas as raparigas morenas
gostam de se à vista de todos, na toalha em desordem.

Estão todas encolhidas, apertando a toalha
contra as pernas, e contemplam o mar plano
como um prado ao fim da tarde. Ousaria alguma delas
deitar-se agora nua na erva dum prado? Do mar
saltariam as algas que afloram os pés,
para agarrar o seu corpo tremulo e envolvê-lo.
No mar há olhos que às vezes reluzem.

Aquela estrangeira desconhecida, que nadava de noite
sozinha e nua no escuro quando muda a lua,
desapareceu uma noite e nunca mais volta.
Era alta e devia ser duma brancura deslumbrante
para que do fundo do mar aqueles olhos a alcançassem.

(de Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, edições Cotovia, 1997)