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14.6.07

GIANLORENZO BERNINI

Extâse de Santa Teresa, 1647-52
mármore
3,5 m
Roma, Santa Maria della Vittoria



PEDRO MEXIA

SANTA TERESA DE BERNINI


Bernini. É essa a forma
que nos vem
ao espírito. E a explicação
de Juan de Yepes:
estes versos usam o profano
como símile. Aqui,
o inverso. Teresa
não é Teresa, o mármore
outra matéria. Outra.
Pálpebras que se abrem
dentro doutras,
pálpebras, em orbita, desorbitadas,
o maor todo que vem
ao dentes. A voz
de Teresa, que não é Teresa,
que não é voz.
Vem do fundo. Vem.
Estes versos usam o sagrado
como símile, usam
Bernini, o rosto transposto
e transportado, suspenso
de duras âncoras.
E o amor todo
que vem aos dentes.

(de Senhor Fantasma, Oceanos, 2007)

23.2.06

No mesmo dia em que vejo o post em que Pedro Mexia diz:
«Larkin (bem como o seu mestre Thomas Hardy) é um dos meus poetas favoritos e uma das influências mais notórias naquilo que escrevo, sobretudo numa visão do mundo (e da poesia) eminentemente disfórica»

leio no texto de Rui Carvalho Homem que acompanha a sua tradução de Janelas Altas, de Philip Larkin (edições Cotovia, 2004):
«(...) E desenham-se perante o leitor os traços reconhecíveis de uma persona masculina que, entre o conformismo e uma amargura mal escondida, retrata como inépcia ou como inadequação a sua não-excepcionalidade (social, sexual, nas demandas económicas) (...)»

2.2.04




A propósito, Ricardo Araújo Pereira não é o único blogger nacional a aparecer em filmes de Hollywood. Já em 1962, Pedro Mexia foi nomeado para o óscar de melhor actor secundário pelo seu desempenho em What Ever Happened to Baby Jane?, contracenando com Bette Davis e Joan Crawford.
Esta semana, na Grande Reportagem, Pedro Mexia na sua habitual crónica fala sobre a sua experiência de gordo. Já antes tinha falado da sua experiência de peão e outros relatos pessoais similares. Prevejo para breve crónicas com títulos tipo: "Nós, os loiros", "Nós, os que calçamos 43" ou (e será a que mais me interessará) "Nós, os que nascemos em 1972".
Como diria alguém: "o rapaz é um bom poeta, não havia necessidade..."

7.9.03

[gosto muito de inventários XV]

PEDRO MEXIA

Memória Descritiva


A sombra dos tectos altos
não deixa respirar. A pintura
esboroada como os ossos.
A moldura verde das portas
na solidão de ferro abandonada.
As cortinas de fumo sujo.
Serradura nas frestas da madeira.
Gonzos, chaves, uma gaveta
com bocados de uma cama.
Luzes ímpares em jornais antigos.
Ganchos, fios, fendas.
Uma almofada, restos
dum romance francês, o metal
de um candeeiro. Recantos,
esquinas, manchas irregulares,
pratos, móveis trôpegos, uma parede
onde estala a cal. Tábuas pequenas,
traves, bolor num espelho, vidrinhos,
relógios, autocolantes, fechaduras,
uma arca da qual ninguém
se aproxima, pedaços de tecido
alegre e tantas cadeiras.

(de Em Memória, Gótica, 2000)

15.7.03

POESIA E BLOGS (I)

PEDRO MEXIA

Nasceu em 1972
Até agora: começou (e terá acabado?) a tirar um curso de Direito; foi activista do DNJovem; fez livros a brincar; fez livros a sério (6: 4 de poesia sua e 2 compilando poesia de outros - todos muito bons...); teve um blog, com mais gente e agora tem um blog sozinho, o Dicionário do Diabo.
Além disso, fico a saber que, apesar de ter uma coluna no Diário de Notícias e de, quer como poeta, quer como crítico literário ser dos mais elogiados da sua idade não é nada conhecido (eu é que devo andar distraído...).

[o que se segue são poemas soltos, mas cada livro de Mexia organiza-se numa estrutura própria, pelo que aconselho a sua leitura por inteiro]

OS VASOS PARTIDOS

Este vaso partido já não tem dentro
e fora, já não contém, não limita,
não transborda. A causa deste vaso
e o seu destino confundem-se
nos estilhaços de uma história
há muito escrita. Dentro do vaso
houve génio, memória, uma geração
intemporal, mas nas suas ruínas
apenas um espírito que nos abandona.

TRÊS TEORIAS

As nuvens desenham figuras.
O céu em volta das nuvens desenha figuras.
Os olhos desenham sempre figuras no céu.

(de Duplo Império, 1999)

TODOS CONTRA TODOS

A infância é uma arena de jogos
e todos, rotativamente,
éramos adversários
as regras fixas, o propósito curto,
a disposição honesta.

Aldeia de irmãos, tínhamos do nosso lado
o far-west, partíamos canteiros
com sardinheiras e, como alquimistas,
fazíamos um ouro secreto
apenas para nosso uso.

Na adolescência,
dissemos, mudavam as tácticas
e as intenções mas não
as regras. Mas a adolescência
acabou, os jogos são formas
de vingança e agora
jogamos todos contra todos.

(de Em Memória, Gótica, 2000)

APRENDIZAGEM
(decalque de e. e. cummings)


o eclesiastes disse-

-lhe:ele não podia
acreditar (nietzche

disse-lhe;ele
não queria acreditar
nisso)cesare

pavese
certamente disse-
-lhe,e jacques
(sim

senhora)
brel
e até
(acredite
ou
não)você
lhe disse: eu disse-
-lhe;nós dissemos-lhe
(ele não acreditou, não
senhor)foi preciso
que o céu lhe caísse
muito justa-

mente
em cima da cabeça:para dizer-

-lhe

[n. do a.: “a partir da versão portuguesa do poema ‘plato told’ por Jorge Fazenda Lourenço”]

(de Avalanche, edições Quasi, 2001)

LEITURAS OBRIGATÓRIAS

Vê-se o castelo, vou poetando trivialidades
no caderno, à minha frente a rapariga estuda o Livro
do Desassossego
,
eu estou sossegado e estudo a rapariga,
não realmente bonita mas
de íris inquisidoras e surpreendente
decerto entre quatro paredes.

Se eu fosse algum dia um poeta
seria uma obrigação curricular para os vindouros,
versos a acompanhar cigarros e namoros,
o livro com manchas de café, uma rapariga (filha desta?)
a ler o que hoje escrevi no Chiado
e alguém noutra mesa a fazer
um poema acerca disso.

AVÓS

Há avós que pedem, enrodilhados, no metro,
apertamos os sobretudos, criminosos felizes.

NEO-REALISMO

Fotografias de baptizados, férias
de verão, a quem interessa tal,
presentes, missangas, uma ruga
a mais, projectos para mais
tarde, uma tareia infantil,
cremes, pensamento positivo, a quase
queca de ontem à noite. Isto
as empregadas de balcão, entre
um e outro e outro pedido
de clientes esfomeados e estúpidos.

(de Eliot e Outras Observações, Gótica, 2003)

[P. M. tem ainda 2 poemas no livro colectivo Dez, de 1995, organizou uma Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa em 1997, editada pela O Contador de Histórias e a CM de Tomar e as edições Quasi anunciam Vida Oculta]