Mostrar mensagens com a etiqueta Pessoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pessoa. Mostrar todas as mensagens

13.6.12


ANTÓNIO BARAHONA


POEMA UNÍVOCO
À MANEIRA DE PREFÁCIO
À MEMÓRIA DE FERNANDO PESSOA

«Dó é unívoco do sentimento de compaixão e da primeira nota da escala musical.» D.P.I.

Eu tornei-me céptico, épico profissional,
mente amorosamente natural ao frio das
formas, lisérgico ao luar entre as urtigas
Desde Ptolomeu que andamos às cegas
com sistemas que são maneiras de treinar
o pensamento, mas não poemas que contêm
o mo(vi)mento, isto é a eternidade com
provada no esquecimento do assassino
tom da liberdade dos leques lique
feitos sobre os peitos perigosos das
mulheres amazonas uni-seio-nuas
músculos de terra a cintilar d'estrela
na amplidão do arco do cavalo branco
a sangrar do flanco um navio à vela

O perigo é mais sólido do que a pedra, mais
imóvel e mais branco e mais duro, por isso
a dureza consiste numa vantagem por extenso
nas pedras e nos versos que se aproximam do
perigo: os diamantes e os universos de som
sacrário sempre vivo no templo dos poetas
que uivam com voz de trigo e despedem setas

A dureza também consiste numa vantagem dos
seios, e na pronúncia vagarosa de dizer:
mulher de pedra viva dos oleiros, orquídea
dos luzeiros contra a perfídia do mundo,
escultora de escultores no mais profundo
da pedra, petrificada em ave dura que per-
dura sobre a neve eternamente suave

As notas do poeta unificam-se em torno do Nu:
castidade perante a escultura do culto
do arbitrário do signo exacto, des-
construtor com pacto do elo da linguagem e
das coisas, engenheiro da maquinaria da
transcendência metalicamente real no re-
flexo d'olhos ténue d'Eglantina que sorri
anterior ao naufrágio onde perdi Dinamene

Adquirir uma «existência opaca» a fim
de ouvir o órgão nas margens do Sena quando
poemas ao poema o poeta escreve insinuando
que a loucura amadurece, despojado de memória,
proscrito da história que não o esquece, com-
fundindo-o com os símbolos, o quadrado e o cír-
culo, signos da transcendência realmente meta-
lica nas teclas que desprendem pombos quando

Convenhamos que o amor é experiência, base
da ciência da poética capaz de reconstituir
a ausência: o poeta é instrumento e ins-
trutor, conhecedor da cadência, repetidor
até em termos de ternura que enternece o texto
o homem fragmentado entenebrece o gesto

Doença, não há dúvida, na direcção de um
vento qualquer a omnipresença da barca unívoca
de velas desfraldadas a navegar pacífica e à
vante o elefante a ganir a teologia da mulher
um cavalo branco galopante a emergir do mar
terrífico claustro da escrita que contém a vida

Convenhamos uma vez mais que o amor é ex-
periência, o amor na cama consciente de uma
técnica, o amor na lama diferente de na água
laminada, a pele macia da lama sem lâminas,
a pele cortada de mágoa na água em chamas
e a palavra fria no poema, flébil mosca, resto
d'orquídea seca na encosta ao sol d'agosto

Sim, experiência de Serenidadeés minha, o a
mor não aquece ao sol, não voa a enegrecer
o ar, não descende de flores: é a fúria de
florir no caos, primeira letra do alfabeto
lua no seu grito, exclamativa na arte de
agarrar silêncio, metê-lo numa caixa com
mãos ávidas, escrevê-lo numa faixa de papel
tumultuário, enquanto esquiva vai à garra
a barca unívoca num mar de mel e laca

Alegria da morte unificada suave, sensitiva
serenidade de agulha e gume, a única pedra
fragmentada na praia, etérea de esmeril,
tépido como um til na palavra manhã a viver
no verão sobre o estrume estético das vacas
sagradas trepidantes no seu vácuo cósmico

A única pedra, dizia, ficou a ver a barca uni-
voca, que convoca a glória do poeta: uni
verso, verificado a ver a barca equívoca,
estame de rosa na relojoalharia do poema, regra
íntima da necessidade do descuido cuidadoso
de noite e de dia e sem sistema d'ir à guerra

Onde está o tempo que ainda não vivi, o qual
se «chama futuro»? Do mal o menos da vida, da
vida o mais do menos que vivemos à despedida
só, no escuro, a pontuação de luz, os líquenes
das vírgulas inspiradas, como no inicial
poema unívoco as mulheres amazonas uni-
ficadas com seus leques liquefeitos
sobre os peitos perfeitos como diques

Boavista, 21-2-77.


(de Pátria Minha, Fiel do Amor, 1978)

15.3.11

Na morte de um Técnico

Em 1987 eu tinha 15 anos e havia uma rádio que emitia aqui da rua, duma vivenda a 50 metros daqui. Era a Rádio Gente Boa (RGB), uma “rádio livre” (variante de “rádio pirata”, expressão mais agressiva), que eu ouvia sistematicamente e em cujos passatempos participava com frequência. Foi para ir buscar o prémio de um desses passatempos que lá entrei uma vez, num sábado de manhã. Só lá estava uma pessoa, a exercer as funções de locutor, técnico, porteiro e o mais que fosse preciso. Sem estar nada combinado, entrevistou-me sobre os temas da actualidade, improvisando um programa que não estava previsto. Estando eu de saída, ele olhou pela janela e viu um rebanho de ovelhas a passar, conduzido por um velho homem de costas vergadas e segurando um cajado (sim, aqui, a poucos quilómetros de Lisboa, em 1987, ainda havia ovelhas e pastores) e não hesitou: pôs no gira-discos um LP daqueles que dava para ficar a tocar meia hora e saiu disparado, de gravador na mão, para entrevistar o pastor.
Este Homem da Rádio chamava-se Jorge Pena e morreu hoje.
Passados uns meses, já em 1988, ano do centenário de Fernando Pessoa, é através da voz do Jorge Pena (já numa outra rádio – Rádio Clube Atlântico – também aqui perto) que dou por mim fascinado, a ouvir um dos vários programas que ele fez para assinalar a efeméride, com as suas leituras dos poemas daquele Poeta. Assim, mais do que os livros escolares, as antologias ou os extensos estudos sobre a sua vida e obra, foi a Rádio que me deu a conhecer Fernando Pessoa (disse-o aqui, já).
Tempos depois, passei de ouvinte a colaborador da rádio e pude comentar esse fascínio com o Jorge, mas num breve encontro, pois ele já estava praticamente a tempo inteiro, como técnico, na TSF, que também ainda não tinha o famoso “alvará de emissão”. A minha experiência na rádio acabou pouco depois e nunca mais o vi. Fui sabendo vagamente que continuava pela TSF. Agora, com a notícia da sua morte, fico a saber que era o chefe do departamento técnico e o mais antigo dos técnicos daquela rádio.

Pode parecer estranho, mas de todas as vezes (e são frequentes) que me lembro do poema Lisbon Revisited (1923), de Álvaro de Campos, não consigo dissociá-lo da voz do Jorge Pena:

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica,
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

26.3.07

[Salazar e a Poesia - I]

FERNANDO PESSOA

SALAZAR


António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António
Oliveira é uma árvore
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

……………………………………

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal
E sob o céu
Fica só azar, é natural.

Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...

……………………………………

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho
Nem até
Café.

(sequência datada de 29 de Março de 1935, publicada pela primeira vez, enviada por Jorge de Sena, em O Estado de São Paulo, na edição de 20 de Agosto de 1960)

26.3.06

FERNANDO PESSOA

(...) Para que qualquer impressão possa ser convertida em matéria de arte, é mister que, primeiro, se transmute em impressão, não parcialmente, senão inteiramente, intellectual. E «intellectual» quere dizer, não da intelligencia como expressão superior da personalidade, mas da intelligencia como expressão abstracta d'ella. Em outras, e mais simples, palavras: só quando o individuo se converte, pela intelligencia, em um pequeno universo, tem materia, na impressão, em que assim se converte, para fazer o que chamamos arte.
O que sentimos é sómente o que sentimos. O que pensamos é sómente o que pensamos. Porém o que, sentido ou pensado, novamente pensamos como outrem - é isso que se transmuta naturalmente em arte, e, esfriando, attinge a forma.
Não confie no que sente ou pensa, senão quando houver deixado de o sentir ou pensar. Assim utilizará, em proveito seu e de todos, a sua sensibilidade, naturalmente predisposta para esse aproveitamento.

(excertos de uma carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 11 de Janeiro de 1930)

1.1.06

Poesia & Lda. é um novo blog, de autoria do poeta João Luís Barreto Guimarães.

A propósito, recupero aqui um excerto duma carta de Fernando Pessoa que postei no dia do aniversário da sua morte:
Quando vi que o Orpheu era dado como propriedade de «Orpheu Ltda.» observei ao Sá-Carneiro que era preferivel dizer «Empreza do Orpheu» ou coisa parecida, e não empregar uma designação de sociedade por quotas. «E se alguem se lembrar de pedir a certidão de registo no Tribunal do Commercio?» «Você crê?» disse o Sá-Carneiro. «Deixe ir assim. Gosto tanto, tanto da palavra limitada».

2.12.05

[Fernando Pessoa visto do exterior - II]

JOHN WAIN

Ele, o Sr. Pessoa, acolhia bem a vida. Vamos escrever com letra grande:
amava e era sensível à Vida, e se ela assumia um semblante
ele ficava contente por saudá-la e tinha o quarto limpo expressamente
para acolher a deusa - mas não tentava prendê-la ou demorá-la.
Há homens que se portam como se a vida fosse uma jovem apetecida:
armam ciladas, fazem negaças, exibem-se se sabem que ela os vê.
O Sr. Pessoa por seu lado lidava com a vida mais como vizinho:
ela nunca andava longe e ele tinha a certeza de a encontrar às vezes.
Costumavam falar na rua, cavaqueio sem outras intenções,
às vezes ela passava lá por casa e então durava mais o convívio,
ela era visita, ele anfitrião, e o diálogo parecia mais estruturado
depois, já de saída, mais um sorriso, cinco minutos de conversa à espera do carro.
O grande desejo do Sr. Pessoa era só que a Vida o aceitasse
como presença sem pretensões, amante que não ousava possuí-la:
ficar ali, quieto, confiante, até ao dia de irem buscar o seu caixão.

(de Reflexões sobre o Sr. Pessoa / Thinking about Mr Person, tradução de João Almeida Flor, edições Cotovia, 1993 - 1ª edição: Fenda edições, 1981)

1.12.05

[Fernando Pessoa visto do exterior - I]

IVAN STRKPA

LISBOA, POSTA RESTANTE


Nada se passa connosco: somos nós
que se passa. Mas quem é de facto
este intervalo entre mim e eu?
Entre Eu e outro Eu que poderá
haver também de irrealmente irreal?

Não há gente. Não há notícias. A cintilante
corneta dos CORREIOS baloiça em vão
em cada canto da cidade,
com o cavaleiro ondulando ao vento
em todas as bandeirolas vermelhas da PORTUGAL TELECOM.
Em Paris calou-se
Sá-Carneiro. Chevalier de Pas, Alberto Caeiro, Ricardo
Reis, o engenheiro naval Álvaro de Campos e também ORPHEU
há muito que morreram. Febrilmente jovem
Alexander Search sorveu como um relâmpago os seus malditos
flashes of madness e terminou isto
at twenty odd. A. A. Crosse desapareceu
sem ver a cor de nenhum prémio
nas grandes corridas de charadistas do Times.
Bebé, Bebezinho, a Ophelinha pequena evaporou-se
(há muito e depois mais uma vez. A última)
como uma velhinha decrépita e senil. Bernardo
Soares, o funcionário silencioso na rua dos Douradores.
emudeceu sem deixar rasto. Ninguém
escreve. A Tabacaria Costa e também a famosa tasca do Abel
já fecharam há muito. A Brasileira
está dia e noite cheia de turistas que tacteiam
nas canecas de cerveja as Tuas impressões digitais
e a Tua visão etérea.

A ausência de notícias gera em nós
velhas imagens: numa de entre mil fotografias
desbotadas (juntas com a Tua bem oculta
aura e com a arca de manuscritos que Te
sobreviveu) estrangeiro aqui como em toda a parte
vais caminhando, completamente só
- com nobreza, com óculos, inútil e vão,
Hermes multiplicado na Baixa e no Chiado,
na brisa leve do Tejo - pelo
Terreiro do paço, andas por aqui,
até ao Teu preferido, anónimo
e mais hermético lugar de comunicação
improvável. E a meus olhos,

nos vidros da porta giratória dos Correios,
através dos instáveis brilhos mercuriais,
espectral e impessoalmente vibra a Tua estátua
criadora de Mestre Nada, multiplicando
os seus enganadores e mentirosamente fiéis reflexos,
que nunca se encontram num Todo,
nem quando descrevem o seu círculo de novo aberto.
Nem quando abrem o seu círculo descrito na porta.
Nunca entram

(como um
homem, o rosto pamplinesco de pedra
e o chaplinesco sorriso invisível debaixo
do elegante chapéu defita larga
no fim dos anos vinte deste século),
mantendo como só ele mantinha
esse vibrante e oculto intervalo, reverberando
através da misteriosa e sobre-humana extensão
do silêncio atlântico.

Fernando, aqui
na Rua do Arsenal,
nas entranhas da Posta Restante da cidade de Lisboa,
a Tua única morada sempre válida,
o transparente e vazio apartado 147,
hermeticamente fechado, só eu,
quase totalmente à beira da sede imaginária,
no alegre cansaço de Ninguém e da visão astral,
seguindo as suas pegadas em todos os lugares
onde repousas, durante todo este
Abril de 95 etereamente irradiante,
espero para breve a tua resposta.

(de Planície, Sudoeste e outros poemas, tradução colectiva revista e apresentada por Luís Quintais, Quetzal editores, 1999)

30.11.05

DINIS MACHADO

(...)Sinto mas não penso. Fernando Pessoa andou, antes de mim, por estas frases, escreveu os versos onde todos nos relemos. Mas não viveu isto.
(...)

(in Reduto quase final, Bertrand editora, 1989)
FERNANDO PESSOA

- Comecemos por distinguir trez coisas que habitualmente se confundem quando se fazem referencias ao «Orpheu». Por «Orpheu» entende-se umas vezes a revistas com aquelle nome, de que sahiram só dois numeros, em Março e Junho de 1915; outras vezes os que estiveram ligados a ella, ainda que como simples espectadores proximos ou amigos, e sem que nella influissem ou collaborassem; outras vezes ainda, os que escreveram subsequentemente em estylo similhante ou approximado ao dos que de facto collaboraram no Orpheu.
- Ora eu parto do principio de que o que v. quere saber é como se organizou e lançou a revista «Orpheu», e de como foi recebida. É a isso, pois, que vou responder. Isto explicará desde logo, evitando confusões ou melindres que sem esta explicação se poderiam sentir justificados, porque motivo não cito varios poetas e escriptores que, pela mesma altura ou mais tarde, escreveram em estylo ou modo parecido com o nosso. Explicará tambem porque não vou buscar antecedentes, episodios anteriores à preparação do Orpheu, ou até as origens, reaes ou presumiveis, da corrente litteraria, pois foi uma corrente e não uma eschola, que semanifestou no Orpheu mas já antes começára.
- Vamos, pois, ao caso do apparecimento da revista. Em principios de 1915 (se não me engano) regressou do Brasil Luiz de Montalvor, e uma vez, em Fevereiro (creio), encontrando-se no Montanha commigo e com o Sá-Carneiro, lembrou a idéa de se fazer uma revista litteraria trimestral - idéa que tinha tido no Brasil, tanto assim que trazia para collaboração alguns poemas de poetas brasileiros jovens, e a idéa do proprio titulo da revista - «Orpheu». Acolhemos a idéa com enthusiasmo, e como o Sá-Carneiro tinha, além do enthusiasmo, a possibilidade material de realisar a revista, passou immediatamente a dar o caso por decidido, e desde logo se começou a pensar na collaboração. Contanto mais enthusiasmo acolhemos a idéa quanto é certo que ambos nós haviamos projectado varias revistas, mas sempre, por qualquer razão, os projectos haviam esquecido. O que esteve mais proximo de se realisar foi o de uma revista pequena, entitulada «Europa», que abriria por um manifesto, de que escrevi apenas uns quatro paragraphos, com collaboração occasional de Sá-Carneiro, e de que me lembro ser uma dasprincipaes affirmações a da nossa necessidade de «reagir em Leonino» contra o ambiente - phrase tendente, é claro, para a perfeita elucidação do publico.
- O certo, porém, é que se decidiu publicar o Orpheu. Sem perda de tempo se adoptaram o nome e a periodicidade, e se estabeleceu o numero de páginas - de 72 a 80 em cada numero. E ficou egualmente assente que figurariam como directores o Luiz de Montalvor e um dos poetas brasileiros seus amigos - Ronald de Cravalho. Digo «figurar como directores» sem intuito algum reservado. A direcção real da revista era, e foi sempre, conjuncta, por estudo e combinação entre nós trez e tambem o Alfredo Guisado e o Cortes Rodrigues, de quem fallarei a seguir. Ficou assente tambem, que o Luiz de Montalvor escrevesse o prefacio da revista, o que de facto fez, não collaborando porém no primeiro numero por não ter prompto ou não considerar prompto o poema com que de facto collaborou no segundo.
No mesmo dia ou no dia seguinte expuzemos, Sá-Carneiro e eu, a idéa da revista ao Alfredo Guisado e ao Cortes Rodrigues, e pode dizer-se que o numero ficou completo, sobretudo depois de termos obtido a collaboração do Almada Negreiros, que providencialmente tinha completado uma pequena série, interessantíssima, de trechos em prosa, a que pôs o título «Frisos» quando os inseriu na revista.
O Orpheu foi logo para a typographia, ficando eu apenas a completar o «Opiario» do meu personagem Alvaro de Campos, que embora hypotheticamente escripto antes da «Ode Triumphal» o foi realmente depois.
O numero foi de facto bem organizado. Começava, àparte o prefacio, com uns poemas do Sá-Carneiro e fechava com a «Ode Triumphal» do meu velho e inexistente amigo Alvaro de Campos. E, a proposito de Ode Triumphal. Para dar, mesmo para os proximos de nós, uma idéa de individualidade do Alvaro de Campos, lembrei ao Alfredo Guisado que fingisse ter recebido essa collaboração da Galliza; e assim se obteve papel em branco do Casino de Vigo, para onde passei a limpo as duas composições. Lembro-me ainda do Antonio Ferro e Augusto Cunha, então muito novos, e que frequentemente iam pelos IrmãosUnidos, lerem attentamente, sòsinhos numa mesa ao fundo, essas composições inesperadas; assim como me lembro do Almada Negreiros, depois de ler com enthusiasmo a Ode Trimphal, me saccudir fortemente pelo braço, visto a minha falta de enthusiasmo, e de me dizer, quasi indignado: «Isto não será como v. escreve, mas o que é é a vida». Senti que só a sua amisade me poupava à affirmação implicita de que Alvaro de Campos valia muito mais do que eu.
- Assim a blague começava em casa?
- A blague? De certo modo. Mas é bom entendermo-nos sobre isso de blague, pois fomos accusados de «fazer blague» em tudo quanto escreviamos e faziamos.
Quando vi que o Orpheu era dado como propriedade de «Orpheu Ltda.» observei ao Sá-Carneiro que era preferivel dizer «Empreza do Orpheu» ou coisa parecida, e não empregar uma designação de sociedade por quotas. «E se alguem se lembrar de pedir a certidão de registo no Tribunal do Commercio?» «Você crê?» disse o Sá-Carneiro. «Deixe ir assim. Gosto tanto, tanto da palavra limitada». «Está bem» respondi, «se o caso é esse, vá. Mas, olhe lá, que serviço é este de o Antonio Ferro figurar como editor. Elle não pode ser editor porque é menor». «Ah, não sabia, mas assim tem muito mais piada!» E o Sá-Carneiro ficou contentissimo com a nova illegalidade. «E o Ferro não se importa com isso?» perguntei. «O Ferro? Então v. julga que eu consultei o Ferro». Nessa altura desatei a rir. Mas de facto, informou-se o Ferro e elle não se importou com a sua editoria involuntaria nem com a illegalidade d'ella.
Por exemplo? Reviamos nós, Sá-Carneiro e eu, as provas da primeira folha, quando me surgiu, no prefacio de Luiz de Montalvor, a phrase «maneiras ou fórmas» transtornada em «maneiras de formas». Ia a emendar, quando o Sá-Carneiro me suspendeu. «Deixe ir assim, deixe ir assim: assim ainda se entende menos.»
Um sonetilho de Ronald de Carvalho vinha, por distracção ou outro qualquer motivo, mal pontuado. Tinha só um ponto no fim das quadras e outro no fim dos tercetos. Esta deficiencia lembrou-me a extravagancia de Mallarmé, alguns de cujos poemas não teem pontuação alguma, nem no fim um ponto final. E propuz ao Sá-Carneiro, com grande alegria d'elle, que fizessemos, por esquecimento voluntario, a mesma coisa ao soneto de Ronald de Carvalho. Assim sahiu. Quando mais tarde um critico apontou indignadamente que «a unica coisa original» nesse soneto era não ter pontuação, senti deveras um rebate longinquo num arremedo de consciencia. Depressa me tranquillisei a mim mesmo. A falta de fim justifica os meios.

(texto, originalmente dactilografado, publicado como inédito em Nova Renascença Número 2 - Inverno de 1981 - sem indicação do destinatário, nem da data - grafia como no original)
FAMOUS LAST WORDS

Fernando Pessoa, hoje há 70 anos: "Tragam-me os óculos"

13.9.05

[o canto e a ceifa VI]

FERNANDO PESSOA

«Ela canta, pobre ceifeira,»

(versão publicada na revista ATHENA, nº 3 - Dezembro de 1924)


Ella canta, pobre ceifeira,
Julgando se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anonyma viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E ha curvas no enredo suave
Do som que ella tem a cantar.

Ouvil-a alegra e entristece
Na sua voz ha o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência d'isso! Ó céu!
Ó campo! ó canção! A sciência

Pesa tanto e a vida é tam breve!
Entrae por mim dentro! Tornae
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passae!

(da 2ª edição fac-similada, Contexto, 1994)
[o canto e a ceifa V]

FERNANDO PESSOA

«Ela canta, pobre ceifeira,»

(versão enviada a Armando Côrtes-Rodrigues em 19 de Janeiro de 1915)

XI

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez...
Canta e ceifa, e a sua voz cheia
De alegre e anónima viuvez

Flutua como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar...

Ouvi-la alegra e entristece...
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida...

E com tão nítida pureza
A sua voz entra no azul
Que em nós sorri quanto à tristeza
E a vida sabe a amor e a sul!

Canta!... arde-me o coração...
O que em mim ouve está chorando...
Derrama no meu peito vão
A tua incerteza voz ondeando...

Canta e arrasta-me p'ra ti,
P'ra o centro ignoto da tua alma,
E que um momento eu sinta em mim
O eco da tua alada calma...

Ah! poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência
E a consciência disso! Ó céu,
Ó campo, ó canção,... a ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve...
Entrai por mim dentro, tornai
Minha alma a vossa sombra leve...
Depois, levando-me, passai...

(in Cartas a Armando Côrtes-Rodrigues, introdução de Joel Serrão, 3ª ed: 1985 - ortografia actualizada)

4.3.05

ÁLVARO DE CAMPOS

Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do "Sentimento de um Ocidental"!

Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Humedece interiormente o instante lento e longínquo!

Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar ... Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja idéia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a ideia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
- Tu que me conheces - quem eu sou...

(segundo dos Dois Excertos de Odes)


ALBERTO CAEIRO

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo por cima dos olhos que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para as árvores,
E o de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E vê que está a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarras...

(d'Os Poemas de Alberto Caeiro)

8.5.04

ALBERTO CAEIRO

XXXI


Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa coisa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

12.3.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

GOMES LEAL


Alucina-me a Cor! - A Rosa é como a Lira,
A Lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a núpcia sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, às vezes, brota a flor que não inspira
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor de alguma flor que expira...

Há plantas ideais de um cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim...

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada.
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
- Tem notas marciais, soa como um clarim.


CAMILO PESSANHA

Floriam por engano as rosas bravas
No inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

Sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor! - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?


ÂNGELO DE LIMA

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz do esquecimento.

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado.
Pára e fica, e demora-se um momento.

Pára e fica, na doida correria.
Pára à beira do abismo, se demora.
E mergulha na noite escura e fria.

Um olhar de aço, que essa noite explora.
Mas a espora da dor seu flanco estria,
E ele galga e prossegue sob a espora...


FERNANDO PESSOA

GOMES LEAL


Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.

Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.

Inúteis oito luas de loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!

Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.


EDMUNDO DE BETTENCOURT

ABRIGO


Presa da chuva corre a prostituta,
corre presa,
e em frente é a porta aberta do palácio que lhe acena.

Mas à entrada,
o resto duma sereia emerge do escuro,
e um lobo acorda do sono dum tapete,
com uma risonha flor nos dentes,

que a uma claridade subterrânea
o palácio está sem tecto,
suas paredes transparecem,
todo ele é uma poça de água cintilando!

Fora,
uma lira de chuva num deserto
acena à prostituta...


VITORINO NEMÉSIO

O recorte de um cão, na areia, ao luar.
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.

Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vi uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!

Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Ninive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.

Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.


CARLOS DE OLIVEIRA

SONETO FIEL


Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.

As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.

O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.


MANUEL DE CASTRO

A VOZ QUASE SILÊNCIO


vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco gasto frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento

o homem que foi um feto que foi um peixe
que foi o ar que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos

ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade

garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio


ANTÓNIO GANCHO

ULISSES-OLISIPO


Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe

A chaminé na cidade deita o fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu, Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração

O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa
também eu te vou a cantar

Grande a nostalgia do teu néon luminoso
a sentir-se dentro de mim e a dizer-se que já não posso

Aqui a enorme cidade aqui a tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céus.

[todos estes poemas estão incluídos em Edoi Lelia Doura, antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa, organizada por Herberto Helder, Assírio & Alvim, 1985]

20.9.03

ÁLVARO DE CAMPOS

Lisbon Revisited (1923)


Não, não quero nada
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas complexos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica,
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
PESSOA E AS RÁDIOS PIRATAS - memória de há quinze anos

Quem, como eu, nasceu em 1972, tinha 16 anos quando aconteceu o centenário do nascimento de Fernando Pessoa.
Ora, nada melhor para entediar e provocar a indiferença de um adolescente do que as "Grandiosas comemorações" ocorridas.

Mas outro dos fenómenos de 1988 foi o auge caótico das rádios piratas. E foi de uma delas, que eu ouvia quase religiosamente, que me chegaram vários poemas de Álvaro de Campos, lidos com fervor e um ligeiro eco a dar um tom solene que, apesar da piroseira, foi o que me levou a começar a ler Pessoa.

...isso, e o facto de ter tido um colega de carteira chamado Ricardo Reis.