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2.3.19

[outros melros LXXI]


LUÍS FILIPE PARRADO


UM MELRO NO TEMPO

Negro, anónimo, bravio,
demora-se por uns segundos apenas
(em voo é mais difícil de captar)
Na cerca de ferro forjado
Do jardim público.
Eu escuto-o, fico em suspenso. E confesso
que, lidos os mapas astrais
e os melhores tratados
de ornitologia,
continuo às cegas,
sem compreender porque me comove
tanto este assobio dilacerante.
Consegues ouvi-lo?
Sim. Canta como se tudo estivesse
no seu lugar, como se este
fosse o primeiro de todos os dias do mundo,
como se nada de mal nunca nos pudesse acontecer.


(in «Nervo – colectivo de poesia» / 4, Janeiro/Abril 2019)

14.12.18

[outros melros LXX]


LUÍS FILIPE JOÃO


(Mas) O que é um melro?

É uma ave, veste negro fulvo
e bico loiro.
(não gosta do amarelo
como toda a gente.)

Saltita no Outono
em seio úbere ou carvão
incandescente.

Enjeita ninho
não inocente.

É poeta: alimenta ofício
de ave bem atenta.

(de Chocolate em Repouso, Átrio, 1994)

19.9.18

MENDES DE CARVALHO


CANTIGA DO POBREDIABISMO DE CAFÉ


Intelectuais reconhecidos pelo notário
poetas muitos reconhecidos pela família
romancistas traduzidos lá fora cá pra dentro
o dr. bastante burro que faz mal às musas
o escultor que tacteia a senhora escultural
o ensaísta amigo das poetisas lusas
o crítico ficheiral arrumado responsável
irresponsável vespertinamente às quintas-feiras
a viúva abundante devoradora de miúdas
pequenas com muito jeito pró teatro e tudo
mancebos beija aqui beija ali beija acolá e nada
o tatebitatismo do senhor que foi ministro
o fotógrafo de arte que tem dentes postiços
a postiça menina que se atira à dentadura
o profissional contador de anedotas
e a anedota que se conta da esposa
a antiga casta susana entre os velhos
os velhinhos entre a vida e a morte
os artistas suburbanos da amadora
antologistas do verso erótico dos amigos
o declamador nortenho de pronúncia ainda lá
três inventores e meio da filosofia nacional
muitos pintores que chateiam as paredes
muitos senhores que teimam tinta e papel

e se houvesse justiça tinham pena capital


(de Cantigas de Amor & Maldizer, 1966)

19.8.18


MÁRIO AVELAR


APRIL LOVE – ARTHUR HUGHES

a José Tolentino Mendonça

Esmagado ainda pelo peso
da cor, da mancha sufocando o espaço
sobre Saulo… a conversão, como
Caravaggio a concebeu… absorto,
no meu rumo íntimo
para Damasco, regressava
de Santa Maria del Popolo, pela
Via del Corso, quando a voz
De um anjo me interpelou…
a mim, apenas a mim, nos versos
do meu amigo Francesco:

E qualcosa rimane,
fra le pagine chiare,
fra le pagine scure.

Seria o seu rosto como
o céu de abril?

Dela retive apenas
a silhueta sentada
numa cadeira de rodas.

Revi-a meses depois,
ao regressar uma vez mais de
Santa Maria del Popolo.
Na Via del Corso, pois bem.

Agora, que o espanto
se ausentara, olhei-a
sem pudor, detive-me no
rosto cortado pelas rugas –
não era este o de um céu de abril.

Entre a alegria e a dor,
perplexo fiquei perante a
prótese metálica… e a velha
guitarra acústica.

Mas a voz… a voz, essa era ainda a
de um anjo.


(de No Rumor das Imagens, in Coreografando Melodias no Rumor das Imagens, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2018)



19.5.18

MARIA VELHO DA COSTA


DESESCRITA

Quando o disserem calo ou farta brotoeja
cardo sem gosto e arremedo velho
tão serôdio apoucar de outros mais hábeis
ou por tão burilada terem sua arte
ou por sofrentes mais no engenho dela,
hei-de guardá-lo meu por apara da gesta
que todos tentamos por modesta
ao pegar das palavras todas gastas
e pôr-me com mais força a ver da giesta
e do rumor das rugas dos que passam
que para isso estou,
bem mais que no contá-lo e dividi-lo.
Por isso não se afina entendimento lato
nem maestria mais ao escrito e trato:
são tantos os instantes a cuidar pla rama e rua
que só fica o que resta
fresta
cantata rota e rouca
entre o escrito e a estória.


(de desescrita, edição da autora/Afrontamento, 1973)

12.5.18

HELDER MOURA PEREIRA


Coração e lâminas doiradas no vento de Verão,
estoira sobre as nossas cabeças a imposição
de várias categorias de ruído, nós perante
o nojo, a ocupação dos passeios, o lixo
a esvoaçar ao vento de Verão, e o lixo de cima,
onde há quase sempre uma televisão, ruído
repetido pelo dia, seguem-se opções de compra,
situações de empréstimo, maneiras de aluguer
por tudo quanto é lado, nós num refúgio,
numa espécie de refúgio, a fazer dos braços
um horizonte fechado, sim, de protecção,
tábua de muro, a parte de cima de raiz
a sobreviver, ainda, golpe após golpe.
O vento de Verão estragado à nossa volta,
imagina que o golpe de sorte não se tinha dado
e éramos sombras inúteis a carregar fardos
de desgosto, sem dizer uma única palavra
quando passávamos um pelo outro cheios de sede.


(de Pela parte que me toca, Assírio & Alvim, 2013)

23.3.18


JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA


INDÚSTRIA

Não sei ser útil como a chuva
nas raízes das árvores,
ou o osso que o cão fareja:
já tentei – se tivesse
de dançar como uma abelha,
em frente da colmeia,
de certo erraria os passos
e indicaria um rumo estéril.

O destino, erros na transcrição
de aminoácidos, uma educação
inadvertidamente condenada
ao fracasso? Já tive
momentos de felicidade,
ignorando mãos, gestos,
propósitos, temo que,
um dia destes, a minha
morte não sirva para nada.


(de De Passagem, Assírio & Alvim, 2018)

26.2.18


RAMIRO S. OSÓRIO


tem sotaque divino
a única poesia que frequento

sou íntimo dos deuses

sei o que digo

não o que escrevo

a verdade tem um cheiro
que não engana

chamar-se-ia senão mentira
a poesia


(de Ao Largo de Delos, Companhia das Ilhas, 2018)

15.2.18


TATIANA FAIA


mágoa sem objecto

na casa as mulheres rasgavam
para panos os lençóis velhos
aproveitavam as sobras
costuravam juntas
reclamavam poderes oraculares
que nunca tinham tido
saíam muito pouco

a mais velha às escondidas
fumava o cachimbo de um marido
embarcadiço mas sobre ela
ninguém se ia dar ao trabalho de escrever
a rime of an ancient mariner
não importava quantas vezes
acendesse aquele cachimbo

a única perenidade que podia
ter alcançado residia em que
alguém dela tivesse feito
uma estátua em pedra
e séculos depois alguns pescadores
a tirassem do mar como
àquela vénus em rodes

elas deviam ter sido as sereias
algum homem com risco de vida
tinha o dever de se ter feito atar
ao mastro de um navio qualquer
vedar com cera os ouvidos dos seus marinheiros
só pelo puro prazer de as ouvir cantar

mas para efeitos daquele enredo
elas não puderam
ser mais do que um bando
de euricleias sem história excepto
pelo hábito reduzido a inofensivo
de chorar sobre cicatrizes


(de teatro de rua, do lado esquerdo, 2013)

12.2.18


CATARINA SANTIAGO COSTA


Haverá quem queira roer-te a líbido
só porque o teu sexo tem a forma de um grão de café
com molusco dentro. Mas tu
mantém-te livre sempre.
E o que é ser livre senão cultivar e colher
aquilo que nos hidrata e nutre
dos alicerces à água-furtada.

Há um homem no bairro que me olha com os dentes todos,
um homem pequeno com um filho mais pequeno que ele
por sua vez pouco maior que a minha pequena,
um homem com um cão corpulento
e uma dentição tão feroz como a dele.

Um dia esse homem vai agarrar-me
seviciar-me, apostado que está em
amestrar-me, tornar-me servil
– é isso que temo e me diferencia
da vizinhança masculina.

Está tudo bem por ora:
cheguei sã e salva a casa,
a porta, o cofre-forte e o frigorífico estão intactos
os iogurtes: frescos e dentro do prazo
as plantas desabrocham
as abelhas polinizam lá fora.
Tudo está em ordem.


(de Filha Febril, Douda Correria, 2017)

12.1.18

PEDRO TIAGO


MATAR UM HOMEM

Quando, aqui há uns anos, me perguntaram se era capaz de matar um homem, respondi que sim, mas, na verdade, se me perguntassem isso hoje, penso que responderia o contrário.
A verdade é que já matei homens pelo caminho. A alguns retirei os olhos, tendo-os, depois, guardado numa caixinha de madeira vermelha sob a cama, em cima de um tapete velho. Julgo, com base num conhecimento livresco, e não empírico, que já não existam, só a caixa, talvez apenas com um muco estranho a empapá-la, ou uma secura extrema de cheiro a corpos mortos, quando a abrirem. Mas isto, como quase tudo, não vem ao caso, vem apenas ao texto, num fluxo absurdo através do qual o autor, que temo realmente ser eu, nos leva.
Sei que era incapaz de matar um homem, resumindo, que é o que importa, e não interessando os homens que matei entretanto, que isso, diga-se, foi outra pessoa, perdida numa estase, qualquer, numa onda de tempo que ficou congelada, como se numa fotografia, a perpetuar um gesto, (de assassinato, porque não?), ao longo da eternidade. Ou seja, o que se passa é que este eu, com todo o peso, certamente, de todos os outros anteriores, não era capaz de matar um homem. Aliás: não é capaz de matar um homem. Porque sabe que um homem é uma máquina poética que morre sozinha.


(primeiro poema de O comportamento das paisagens, Artefacto Edições, 2011)



junho

não é tempo para pés nem para pernas e não é tempo
para os outros (quem são os outros?)

tudo arde em itálico, no terraço, duas pessoas perguntam
coisas, uma responde; uma é hiperactiva, outra tem
dislexia, a terceira sofre de anorexia nervosa. todas
pensam em línguas dentro da boca, as línguas ocupam
demasiado espaço, dentro das cabeças, mais do que se
julga. mãos nos parapeitos, pés dentro de chinelos,
a língua dentro da boca, enjaulada nos dentes.

não é tempo para poesia nem para palavras, é tempo
para dormir.


(primeiro poema de a lonely gigolo, do lado esquerdo, 2018)

16.10.17

JOSÉ MIGUEL SILVA


O sabor da cereja - Abbas Kiarostami (1997)

Não é fácil para um homem
sepultar a sua sombra,
encontrar o melhor
que a terra nos dá:
um esconderijo.

A língua queimada
recusa as cerejas.
Nenhuma palavra
remove da boca
o gosto a poeira.

Circula sem vida,
por montes e restos,
o corpo tresmalhado.
Alguém há-de saber
para que serve um morto.


(de Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005)


31.3.17

HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO


12.

um triângulo escaleno recorta a paisagem
geometria perfeita entre o caos do mundo
que forma terei eu visto de onde estás?
e a nuvem que sobre ti passa?
e o vento que te atravessa?

somos as formas deformadas do universo
somos aberrações deambulando pelas ruas
repletos de verdades e de fórmulas
manifestando amiúde a falência dos teoremas
que em nome do pai do filho e do espírito santo
nos fazem supor vidas eternas
onde resta apenas tédio e comiseração

eis a minha forma deformada
sombra de gestos provindos de um fundo negro
a dizer: acredito nos homens
e na força das utopias
acredito nos horizontes que impelem à caminhada
para logo ao primeiro passo
tropeçarem no abismo
e das crenças e das utopias restar apenas
e tão-somente uma ideia vaga

mas tu manténs-te firme nos teus propósitos
és o aço que enfrenta as intempéries
na tua quietude vislumbro o ponto
onde fixar os olhos
assim evitando a vertigem que me afunda
no degredo interminável das teorias

triângulo escaleno da minha paisagem quotidiana
na tua área desenho o imo da minha solidão
e em cada aresta afio as pontas
que hão-de penetrar mortalmente a carne das horas



(de A Grua, volta d' mar, 2017)

21.12.16

MADALENA DE CASTRO CAMPOS


Lavandaria Lusitana

Davam-lhe vómitos. Todos.
Os evidentes e os obscuros, os traduzidos e os ignorados,
os premiados, os ressentidos, os que escreviam
contra a lógica e os que esbracejavam contra a língua,
os homens, as mulheres, os novos, os velhos,
os consagrados, as promessas, os carecas, os tatuados,
as desleixadas e as meninas bem.
Levavam-se sempre demasiado a sério,
confundindo as palavras com o umbigo e a literatura com
um livro de reclamações, no qual garatujavam
uma meia dúzia de banalidades que tinham lido algures
e desde então tomavam por expressão, exigindo para si
um direito que não reconheciam aos outros
e de que se mostrariam incapazes de fazer uso,
percorrendo as linhas com a ponta do dedo,
na veneração de analfabetos
que constatam os caracteres, sem reconhecerem o sentido,
e admitem respeitosamente a existência de uma gramática
que não compreendem e que nunca saberão contestar.
Lia-os por obrigação, desistia depressa.
Não via invenção, mas erros de perspectiva,
não via transgressão, mas incorrecções ortográficas,
falhas de concordância
em género e número, tempo, modo e tudo
quanto pudesse tornar-se disforme.
E também ela,
fruto do mesmo buraco que os tinha parido,
não faria diferente.
Abria a mesma boca, usava a mesma língua,
engolia com a mesma garganta.
Limparia ela própria o seu vomitado.



20.12.16

JOSÉ MANUEL SIMÕES


PLENO VÁCUO

Repleto no oco do que ao longo
dos braços que o não contêm
se escoa, perde e anula,
o estar presente é não já acto
mas dádiva, porque ao não ter
dou de mim o espaço, emblema
de nos ouvidos e no sangue
poder conter amor, sexo, distância
a pôr entre os que para sempre
e desde sempre sabem
qual o longe de ter ao pé
a solidão que os move e excede
e não dá ao corpo o sossego
de abandono se jazer e imóvel
dizer não à eternidade.


(de Sobras Completas, Abysmo, 2016)


19.11.16

FERNANDO ALVES DOS SANTOS


DOIS POEMAS DA INTRANQUILIDADE

I

Deve haver uma maneira tranquila
uma tranquilidade
uma certeza.
Deve haver uma febre
uma febre que seja, quando menos,
que nos dê olhos para ler tudo.
Depois dizem que há uma salvação…

Da minha infância
não guardo agora senão o chão que piso
e esse não chega.
Talvez a minha face
o meu vulto
a sombra
possam servir de algo.
Mas não.

Assim sem alegria
arrefecido, antigo
como posso comover-me
arder exausto
ou beijar o ar
o ar simplesmente
enleado!

II

Porque não posso senão trazer esta humildade
como posso dar-me ou pedir-me
se me pedem e me dão
dizendo fazê-lo por uma esperança.
Mas eu vejo
o que a morte me tem sido para que veja
e não respondo ao que imagino
porque sei que só posso desejar o que desejo.



(in Diário Flagrante [Poesia], edição de Perfecto E. Cuadrado, Assírio & Alvim, 2005)

18.11.16

JOÃO RUI DE SOUSA


O ESPELHO E A FACE

ao Rui Knopfli

É porque somos bóias da terra
e lesta a semente se move
é porque as roupas perturbam
e simples a alegria transcende
é porque a exaustão dos canos
impede sair de repente
é porque com vírgulas se abraçam
os gestos incandescentes
e a viagem viagem viagem
é a noite de muita gente
é porque com o fel das lágrimas
se afundam céus generosos
e são tao vis pedregosas
as mortes de tantas irmãs
é porque há a erva dobrada
mesmo sem vento ou granizo
e frágeis ramos deslizam
na fuga de mágoa e mágoa
– que nascem rugas no rosto
(a esperança e a desesperança)
por nomes de voz rasgada


(de Corpo Terrestre, 1972)

24.7.16

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


CRIPTOPÓRTICO

Quem pudera viver sempre pelos dias do
verão, quando o mar é a pele que sentimos
e o sol fica a amassar a erva dos caminhos
nas lojas, nos corredores sob o chão de
Aeminium, sob a vaga luz de uma lucerna
— o âmbar do azeite — o pão escuro,
a doce tâmara, uma cesta de sal, as cores
vesperando de tapetes esperam o repouso, a
conversa, notícia do Império — Caracala
manda assassinar Gela, seu irmão — a
um canto o vendedor de cerâmica de verniz
vermelho e figuras
sob outro alvéolo, os que se dispunham a
celebrar sacrifícios, danças, péan por um
deus por um herói. A água corria das
ânforas, pérolas frias, semelhantes ao gelo
e o vinho, uvas esmagadas deixavam nos
lábios um sabor doce, acidulado de sombras
— as essências ardiam nos turíbulos —
eram vagos, então aqueles que passavam na
cripta, entre um e outro piso. Hoje,
quando regresso ao calor ténue dessa luz
coada, a vida, não mais essa outra vida que
não tenho já, mas que terá sido a tristeza e a
alegria com as quais agradei e frustrei o
génio que me foi dado outrora — também
hoje chegará um verão pelo som dos passos
da ligeira sandália e se fundeará na aeternitas
imperii

* Alicerce do fórum romano. C. 40-50 d. C.


E DE REPENTE IRROMPE A RUA

E de repente irrompe a rua da cidade
aquela que se chama do Cabido
a de S. Salvador, com o
pequeno largo — vejo-as do extenso
vidro da janela. Na igreja escreveram
zona antifascista
um pouco mais abaixo, a roxo, praxe
sedativo n.º 1 em Coimbra

duas vizinhas descem para a Rua do Loureiro, se
acaso nestas ruas ainda vive alguém
num andar esconso, no desvão dos cafés manhosos —
nas mesas cai a dama de espadas
a juventude regressa noite fora — entre
uma porta e uma janela cega
passeia-se o desenho de um gato preto
líquenes nos beirais, a culpa venial
de mais um dia que passa, denso, varrido por clareira
de rogos. E

se nos virarmos
o grande teatro da Capela do Tesoureiro
à nossa espera
como se estivéssemos em tribuna eleita
bem em frente a imagem de Fortuna, festão de pedra.

Vai o olhar pela rua que foi dos açougueiros. Estreitos
quintais entre muros, ancoradouro de laranjas
o casario estremece nos versos de António Nobre
transporta carta selada
leva escrita a distinção entre a morte e o acto de viver.
Na outra margem o que resta de olival e de bosque.


(de Mirleos, Relógio d'Água, 2015)

19.6.16

[outros melros LXIX]

CATARINA SANTIAGO COSTA

És um melro azul-ígneo,
os meus tímpanos vibram com os teus gorgeios
 ouço o que cantas, não o que dizes.

Pergunto-me se preferia ser a magnólia
pesada de folhas e flores gordas
que terias por morada
ou um parasita mínimo,
alfaiata de bainhas e mielina
que se aconchegasse no teu cérebro,
assomasse à escotilha do olho
a ver-te o voo.
Sairia depois pelo teu bico em sinfonia
perguntando «queres que regresse?»
e «sim» ou «não» seriam respostas boas
desde que me mantivesses por perto.

Mas é hora de chegar a termos com a dieta aérea
e acolher o vazio infinito de Deus
até ele forjar mar e terra.


(de Tártaro, douda correria, 2016)

13.6.16

LUÍS FALCÃO


Descascas o musgo das paredes
sustentando redenções
estucas o reboco
revendo a cartografia
da pertença a uma dor
reordenas prioridades
procurando
entre anotações para herbários
e troncos para o lume
outra arrumação para os dias profanados


(de Bruma Luminosíssima, Artefacto Edições, 2016)