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19.11.03

MANUEL BANDEIRA

Louvação a Rachel de Queiroz


Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, minha amiga, nata e flor do nosso povo.
Ninguém tão Brasil quanto ela, pois que, com ser do Ceará,
em de todos os Estados do Rio Grande ao Pará.
Tão Brasil, quero dizer Brasil de toda maneira
- brasílica, brasiliense, brasiliana, brasileira.
Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel e, louvada uma vez, louvo-a de novo.
Louvo a sua inteligência e louvo o seu coração.
Qual maior? Sinceramente, meus amigos, não sei não.
Louvo os seus olhos bonitos, louvo a sua simpatia.
Louvo a sua voz nortista, louvo o seu amor de tia.
Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo
Louvo Rachel, duas vezes, louvada, e louvo-a de novo.
Louvo o seu romance: O Quinze e os outros três;
louvo As três Marias especialmente, mais minhas que de vocês.
Louvo a cronista gostosa.
Louvo o seu teatro: Lampião e a nossa Beata Maria.
Mas chega de louvação, porque por mais que louvemos,
nunca a louvaremos bem.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

(de Poesia completa e prosa, J. Aguilar, 4ª ed: Rio de Janeiro, 1990)

18.11.03

MANUEL BANDEIRA

Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, minha amiga
nata e flor do nosso povo.
Ninguém tão Brasil quanto ela,
pois que, com ser do Ceará,
tem de todos os Estados,
do Rio Grande ao Pará.
Tão Brasil: quero dizer
Brasil de toda maneira
- brasílica, brasiliense,
brasiliana, brasileira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel e, louvada
uma vez, louvo-a de novo.
Louvo a sua inteligência,
e louvo o seu coração.
Qual maior? Sinceramente,
meus amigos, não sei não.
Louvo os seus olhos bonitos,
louvo a sua simpatia.
Louvo a sua voz nortista,
louvo o seu amor de tia.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, duas vezes
louvada, e louvo-a de novo.
Louvo o seu romance: O Quinze
e os outros três; louvo As Três
Marias especialmente,
mais minhas que de vocês.
Louvo a cronista gostosa.
Louvo o seu teatro: Lampião
e a nossa Beata Maria.
Mas chega de louvação,
porque, por mais que a louvemos,
nunca a louvaremos bem.
Em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Santo, amén.

(da edição do Jornal de Letras de 12 de Novembro de 2003 - sem indicação do livro de origem nem da data)
RACHEL DE QUEIROZ

Nasceu em 1910, em Fortaleza, capital do Ceará, Brasil.
Escreveu, antes dos vinte anos, um dos romances mais belos da literatura brasileira contemporânea, a que se seguiu uma vasta obra, muito marcada pelo neo-realismo (Rachel foi membro do Partido Comunista Brasileiro) e repartida por ficção, teatro, crónica e infanto-juvenil, à qual foram atribuídos inúmeros prémios. Foi a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras, em 1977.
Morreu no dia 4 deste mês.


O pequeno ia no meio da carga, amarrado por um pano aos cabeçotes da cangalha.
De vez em quando, levava a mãozinha aos olhos, e fazia rah! rah! ah! ah! numa enrouquecida tentativa de choro.
Cordulina chegava-se à burra para o consolar, ajeitava-lhe o chapéu de pano na cabeça, até que um dos menores gritava:
- Olha, mãe! Os pés da zabelinha! olha o coice!
Chico Bento fechava a marcha, com o cacete ao ombro, do qual pendia uma trouxa.
Mocinha, de vestido engomado, também levava sua trouxa debaixo do braço, e na mão, os chinelos vermelhos de ir à missa.
O sol ia esquentando. De cima da cangalha, o menino chorou com mais força, debatendo-se, até que Cordulina o retirou, com medo de uma queda.
Pô-lo no quarto; logo uma briga se armou entre os outros, num assalto aceso ao lugar na cangalha; na balbúrdia da disputa, eles se confundiam e só se podia distinguir, de momento a momento, um murro, um rasgão, e nuvens de poeira.
Chico Bento, intervindo, trepou o menor. E os outros, por trás do pai, vingavam-se, estirando a língua, com gestos insultuosos mas perdidos porque o cavaleiro não os via, mergulhado na alegria de sua vitória.
Súbito, sua vozinha estridulou num grito comovido:
- Olha a Rendeira!
E apontava para uma vaca pintada de preto e branco, que, magra e quieta à beira da estrada, parecia esperar a família fugitiva para uma derradeira despedida.
Cordulina recomeçou a chorar; o próprio Chico Bento passou rapidamente a manga pelo rosto.
A Rendeira fitou em todos os seus grandes olhos dolorosos, donde escorria uma lista clara sobre o focinho escuro, como um caminho de lágrimas.
Só Mocinha olhou a rês com indiferença, ajeitou na mão as chinelas, e continuou a andar no seu passo macio, tão rápido e leve que mal esmagava os torrões quebradiços do chão.

(excerto de O Quinze, 1930)