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7.4.14

ANTÓNIO RAMOS ROSA


Mil cores, e uma sombra só te despe.
Substância perfeita da sombra mais feliz.
Substância ardente e diamante firme.
Água feliz do corpo, água de mil sombras,

e esta é a mais fresca, onde o cavalo bebe
sobre os teus seios tão altos como as chamas mais verdes.
O teu vestido de sombras torna cálido o corpo
e as sílabas do cavalo refrescam-se no mar.

Na praia mais selvagem caminha esse cavalo
que nos transforma o corpo e nos abre a face
mais escura da terra. E todo o mundo aceso.


(de Ciclo do Cavalo, Limiar, 1975)


JAIME ROCHA


VARIAÇÃO SOBRE POEMA 26 DO CICLO DO CAVALO
Para o António Ramos Rosa
Um cavalo desce pelo corpo danificado
da água, pelas suas ranhuras, pelo segredo
que se esconde nas conchas.

Falo de um corpo feliz, dos despojos de
um barco na sombra, de uma lua azul que
vem beber com os pássaros e transforma
as pedras num autêntico abismo.

É um cavalo com as armaduras inclinadas
para o vento, para o teu rosto, acrescentando
à pintura uma luz devoradora.
Um cavalo que percorre o espaço aberto da
areia como se investisse contra uma paisagem
de mármore e nela encontrasse o teu corpo frio,
uma mulher febril com os braços pendurados
na madeira.

O cavalo e a mulher debatem-se com as ondas,
perdem-se no tempo. Ele esmagando-lhe o
peito com os cascos, ela cegando-o com as mãos
como se pertencessem a uma deusa de vidro.


Ambos, ela e o cavalo, despidos sob uma lâmpada,
dançam no silêncio. É a terra que se abre para eles,
a terra escura, o pensamento.
Lisboa, 2007

(de Lâmina, Língua Morta, 2014)

11.10.13

MARIA ALZIRA SEIXO


NOITE INFLECTIDA

Desaparece assim teu encanto solar de redomas frágeis atraindo chispas vermelhas sobre as pedras nuas. Encantamentos frouxos que mutáveis te abrem os ares tão agrestes da manhã. Olha esse astro que então abandonaste por incauto revertimento a áridas páginas que te tomam na morte da imagem, e não lhe desapegues a incomensurável brandura de tecedura limpa, nitidez reflexiva da morte cruel dos outros. Vê o espanto. Repara no que frágil anoitece e rubro volta em cada grito de presença por sinal maligna. Que do teu entendimento a forte perda se enreda pelos tumultos da escrita lisa, esse sentido do teu embevecer. Perdoarás as manchas, porém nunca as mansas quietações redundantes dos alvores da descoberta. Porque o sabes te esvais e renasces em cada hora do mais puro infinito discorrer dos mundos.

para o António Ramos Rosa

(de Flores de Lava, in letra da terra, o oiro do dia, 1983)

9.10.13

ANA HATHERLY


A PALAVRA MISTERIOSA

a António Ramos Rosa

Sobe da sombra mais opaca
a tua figura radiosa
oh palavra misteriosa!

No obscuro pulsar de cada acto
reconstróis tudo por ausência
e o sentido consentido
sobe sem esforço as tuas escarpas

Potencial qualidade do outro
o teu segredo está
numa parábola
numa elipse
num ponto só
infinitamente alheio e sem medida


(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

27.9.13

ANTÓNIO RAMOS ROSA


Exigir que a obra de arte tenha uma regulação perfeitamente lógica, resulta do equívoco de confundir dois níveis sucessivos, mas diferentes, do intelecto, o qual não pode ser apenas limitado à sua actividade porventura mais pura, mas também mais convencional: a do discurso lógico e racional. Na poesia e na arte clássicas, a intuição criadora submetia-se a uma organização lógica que não as impedia, efectivamente, de atingir a realidade poética através da combinação das qualidades sensíveis que, quer a poesia, quer qualquer forma de arte, põem em jogo. Todavia, essa superestrutura lógica interpunha-se como um obstáculo ao livre desenvolvimento da imaginação e da emoção criadoras. Na poesia e na arte modernas, o processus criador liberta-se completamente da regulação lógica, desenrolando-se através de estruturas próprias, que se organizam não-racionalmente em ordem a uma nova realidade que se torna, assim, fruto mais directo e mais fiel da inicial intuição criadora. O facto de não haver regulação lógica não destitui a obra de uma estrutura coerente, nem de uma significação própria: pelo contrário, a sua estrutura e significação ganharam um grau de pureza e densidade específicas, que são a resultante inevitável da evolução histórica dos processos artísticos.
De tudo isto se conclui a necessidade de revisão do conceito de poesia e de obra de arte, que já não podam aferir-se pelos critérios do passado. As relações entre obra de arte e espectador sofreram já uma alteração substancial. O conceito de obra «aberta» implica uma nova comparticipação do consumidor estético. A uma poética do unívoco, que corresponde a um mundo estático, sucede-se uma poética de polivalência e ambiguidade, onde tudo é movimento. Mas tal processo não se iniciou sequer no século passado: é um processo que remonta à perspectiva dinâmica que nos oferece a arte barroca, como acentua Umberto Eco. É a partir daí que as poéticas «tendem a promover estas atitudes de invenção criadora do homem novo, que já não vê na obra de arte um objecto de pura dilecção estética, fundado em relações explícitas, mas um mistério a penetrar, um fim a atingir, um apelo permanente à imaginação». Através de uma criação livre, o artista continua a procurar e a descobrir a sua unidade com o universo, de que comparticipa numa aventura sem fim.»


(excerto de «O Poema, sua Génese e Significação», in Poesia Liberdade Livre, 2ª edição: Ulmeiro, 1986 - artigo publicado originalmente em 1960)

23.9.13

ANTÓNIO RAMOS ROSA


Em qualquer parte um homem
discretamente morre

Ergueu uma flor
Levantou uma cidade

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri


(de Viagem através de uma Nebulosa, 1960)

19.1.12


ANTÓNIO RAMOS ROSA


À Morte dum Poeta

Sem ternura
sem pureza
não grito a tua morte apenas violenta
a tua morte apenas violenta ecoa em mim
e já não existo senão escuro e tremo
um pobre corpo atemorizado um coração de vazio
e a vergonha de não ter lágrimas e a ignorância
Estou mais razo do que tu, poeta, a uma mesa de café
mais morto mais falso mais nojento do que tu
e disfarço o silêncio e naturalmente continuo na vida
e rio e fujo e não consigo enterrar-te
não consigo chorar-te
porque o horror violento me desenha o corpo
Tiraste-me a vida e quase te odeio poeta
a minha morte teria sido muito mais insignificante
a minha morte teria sido mais justa
É esta ideia que te não perdoo, esta ideia horrorosa que bebo
esta ideia de que não mereço a tua morte
porque não mereci a tua vida
O que eu odeio é não te ter amado
o que eu odeio é a minha pobre vida e a minha culpa
o que eu odeio é ter ficado
Deixaste-me a responsabilidade tremenda de sobreviver-te
e por isso te amo e por isso descansa, poeta!

11 de Fevereiro de 1952.


(in Árvore – folhas de poesia, Inverno de 1951-52 / número dedicado «à memória de Sebastião da Gama, ao Poeta e ao Amigo que perdemos»)

23.11.10

ANTÓNIO RAMOS ROSA


VERTENTES


a Herberto Helder



As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo

(de Voz inicial, 1961)

17.10.08

[Será que o poema poderá suster a sua verde adolescência?]


ANTÓNIO RAMOS ROSA

Os versos podem ser pedras brancas
ou cabeleiras
um líquido murmúrio vagamente solar
a cintilação de uns olhos na brisa ou na folhagem
as vibrantes antenas de um insecto
o perpassar de uma sombra sobre um rio
um ávido crescimento
um alvoroço intenso

Às vezes todas as imagens parecem aspirar
à pura tranquilidade de um deserto
ou de um reino azul desconhecido
Outras vezes são escuramente velozes
ou ofuscantes como relâmpagos num abismo
Quando sobem em espiral dentro de um corpo
tocam um céu de folhas e de um azul cristalino
Outros consagram o pão dos homens com a luz
ou oferecem o seu sangue nas suas pontes de sombra
Alguns são tão suaves como a brisa de um olhar
ou tão transparentes como um corpo de água
Outros abrem as portas às bocas sequiosas
e são o desejo de chegar às fontes vivas
com mãos de mercúrio e incandescentes cabelos
Mas todos têm a chama de um amor branco do espaço



Sabemos que não há resposta
e que a não resposta é um não há
Qual é o rumo então dos nossos passos?
Estamos talvez num círculo que é o círculo do tempo
Mas a nossa aspiração é encontrar o espaço
ou formar o espaço
em que a ausência e o desejo coincidam
numa palavra que seja
a palavra mais contigua ao silêncio
como um tapete antigo mas recente
com a frescura nova para habitar o dia



O que há de mais nu
é o fértil murmúrio do ócio e do olvido
Talvez não seja mais do que a vibração do nada
ou o frémito do silêncio como um pólen branco

Há uma equivalência entre a página e a espádua côncava
do dia Dir-se-ia que uma mulher lavou
um solo vermelho e que à fronte subiu
a frescura inicial dessa passagem de água
e que o silêncio novo lavou as veias

É então que reparamos numa plácida jarra
com duas flores brancas e sentimos o odor denso
de um nome impronunciado que inunda toda a casa
com vigor lento de uma larga pulsação
que tem a brancura espessa do pulmão de um deus



O que será o silêncio? Como pode o poema
partir do que ignoramos e a que damos um nome
sem saber a sua natureza e qual a sua plenitude?
Não será ele apenas um pressentimento um frémito
sem existência própria um irredutível quase
que nunca chegasse à revelação de um termo ou ao cimo de si mesmo?
Nós sentimo-lo como se a luz vagarosamente repousasse
numa onda de suavidade e o barco do efémero
revelasse a plenitude do eterno a essência viva
do nosso ser sob o voluptuoso véu de um sono imaculado
Sentimos a nudez da brancura e nela o princípio o centro e o alvo
do nosso desejo de coincidir com a indizível formosura
que numa onda silenciosa ascende e sem se revelar culmina
numa corola transparente ou num jardim de nuvens
de que só apercebemos o aroma branco e subtil
que não embriaga mas nos inebria como se vogássemos numa lua
que fosse unicamente aérea e de pura identidade
Será que o poema poderá suster a sua verde adolescência
e receber este sopro diáfano para que ele próprio seja um astro de silêncio?

(in Bumerangue N.º 1)

27.2.08

[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #2]

ANTÓNIO RAMOS ROSA

(...) A sua profunda insatisfação, mais de raízes ontológicas do que religiosas, leva-o a uma implacável inquirição do real e, consequentemente, ao despojamento de todas as certezas e logros, de todo o sentimento de identidade e de segurança. Interrogando-se, buscando-se, enfrentando obsessivamente a morte e a solidão, é este poeta um dos que melhor testemunham a situação espiritual do homem contemporâneo, para o qual encontra fórmulas de um raro poder expressivo. Se ele atesta a impossibilidade de uma total aceitação da vida, nem por isso a sua poesia se exime à permanente e renovada tentativa de criar um espaço respirável.

(excerto da nota sobre Ruy Belo, in Líricas Portuguesas - quarta série, Portugália editora, 1969 – Antologias Universais)

14.12.07

ANTÓNIO RAMOS ROSA

A S. JOÃO DA CRUZ


Por uma secreta escada
desceste ao nocturno horto
onde encontraste o Amado
pastor de invioláveis graças
entre perfumadas nascentes.

Sem arrimo e com rumo
da tua cegueira vidente
te consumaste no centro
da divindade obscura,
alma e amor conjugados.

Num cego e escuro salto
subiste e logo desceste
para de novo subires
à indizível essência
de um não sei quê misterioso
ao qual, inteiro, te rendeste.

Pão vivo e fonte eterna
chamaste ao fruto escondido
que o teu desejo aspirava
e nele encontraste guarida
mesmo dentro da noite.

Sabias não haver caminho
para chegar a essa fonte
de que a origem não sabias
e que de tudo era origem
e a que chegaste num lance.

Toda a ciência transcendias
sem entender entendendo
e no puro imo bebias
o sol da profunda noite
em divina companhia.

Nada mais te contentava
que a vida da tua vinha
que lá no alto pairava
e lá no fundo ardia
com o rosto da formosura.

Chegaste aonde não eras
por onde não eras foste,
sempre às escuras na noite
até esse não sei quê
que é a existência da Vida.


(de Os Signos da Amizade, edições Asa, 2004 - colecção pequeno formato)

8.7.07

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Cavalo, cavalo da terra, saltas sobre
toda a pobreza chã ou obstáculo.
O vigor da palavra é evidência acesa
é saber-te do chão até à crina.

Quem te arranca a força de raiz
em que vale te cavam ou te calam,
de perfil ou de fronte és cavalo sempre,
cavalo de sempre.

O teu nome é uma parede que nos fala
sobre o teu silêncio. E é um nome
que não se excede e horizontal se lê,
a prumo.

(de Ciclo do cavalo, Limiar, 1975)

23.10.06

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Do lado da melancolia com as árvores das estrelas


Em lucidez plana de espaço silencioso
e de tensão repousante estão as árvores do sangue
com as suas aves brancas e seus diademas brancos
Os tendões da atenção sustentam a coluna branca
sob a chuva deslumbrante que as pombas atravessam
com frescor estalidos que vão quebrar a cal

Estão as árvores do sangue em tensão repousante
e dir-se-ia que vêem a lua vacilante sob a chuva
e que respiram o odor da chuva o odor lento
e fresco da terra de humidade vermelha
e um navio sob uma nuvem passa na lentidão da chuva
enquanto um pássaro no parapeito de um terraço
desfere duas notas de fina felicidade

O silêncio das árvores vem de um ouvido azul
e perfuma o espaço de deslumbrante solidão
Há uma plácida harmonia entre as árvores dos campos
e as ténues árvores das ramificadas artérias
Ouve-se o que se esconde o seu pudor vegetal
e os nomes levantam-se como vagas ondas
e pousam lentamente como melancólicas aves
de um Outubro em que brilha um sol cor de laranja

(in Espacio Espaço Escrito 11/12 - Outono/Inverno 1995)

27.2.05

ANTÓNIO RAMOS ROSA

ATRAVÉS DA MEMÓRIA

a Jorge de Sena

Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
Edna St. Vincent Millay

Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.

A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
de uma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem de um espelho,
com a auréola de uma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.

Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.

Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência,
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.


essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mão suaves.

Mas nunca
ele cantara assim.

N. do A.: [Os versos da epígrafe] são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte» de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema Através da Memória foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, e também extraída da referida tradução.

(de Viagem Através De Uma Nebulosa, 1960)


EDNA ST. VINCENT MILLAY

(Sonnet XLIII)

What lips my lips have kissed, and where, and why,
I have forgotten, and what arms have lain
Under my head till morning; but the rain
Is full of ghosts tonight, that tap and sigh
Upon the glass and listen for reply,
And in my heart there stirs a quiet pain
For unremembered lads that not again
Will turn to me at midnight with a cry.
Thus in winter stands the lonely tree,
Nor knows what birds have vanished one by one,
Yet knows its boughs more silent than before:
I cannot say what loves have come and gone,
I only know that summer sang in me
A little while, that in me sings no more.

(de Collected Sonnets, 1941)


WHAT LIPS MY LIPS HAVE KISSED

Que lábios os meus lábios já beijaram,
Onde e porquê, esqueci, como em que braços
Até pela manhã tive a cabeça;
Mas esta noite a chuva traz espectros

Que batem na vidraça, à escuta, à espera;
E uma saudade calma há no meu peito,
De jovens que não lembro e nunca mais,
Noite alta, me desejam num soluço.

Qual árvore isolada, assim, no Inverno
Não sabe de aves idas uma a uma
E só seus ramos sabe mais silentes,

Não sei que amores vieram e partiram:
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.

(tradução de Jorge de Sena, in Poesia do Século XX, de Thomas Hardy a C. V. Cattaneo)

26.10.04

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Há uma certa cegueira vidente no poema e na palavra silenciosa
que o precede e o move. Sem essa parte obscura a palavra
imobilizar-se-ia na evidência da sua visão. Por isso, escrever é
avançar, de ruptura em ruptura, através de um domínio obscuro
onde, a cada passo, se nos depara algo imprevisível. O poema
não reproduz nem designa porque o seu movimento se antecipa à
cristalização dos conceitos e das enunciações póstumas. O seu
objectivo não é o real, mas a energia nascente que incorpora na
sua dinâmica substância. O que se retira ou se retrai é idêntico ao
que se manifesta e se ausenta na sua própria manifestação. Nunca
a palavra é uma doação integral da presença mas o seu horizonte
mantém-se na abertura viva a si própria e ao mundo que a rodeia
no interior do seu círculo inaugural.

(de Relâmpago de nada, Labirinto, 2004)

3.7.04

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Para Sophia de Mello Breyner Andresen


Vejo-te sempre vertical num apogeu azul
em que celebras as coisas e pronuncias os nomes
com a claridade das cúpulas e das evidências solares
Em ímpetos claros vais figurando o cristal
que dos actos transferes para as palavras límpidas
O ar te deslumbra na sua extrema seda
em ângulos fugitivos Tão perto e tão remoto
o intacto rosto! Não ser? Estar estar
atentamente até que o silêncio seja o cimo
que tudo vai reunindo consagrando no visível
Que possessão d vida que doçura tão forte
te liga a tanto fundo oculto a tanta festa
silenciosa! Tudo se vai definindo em sombra e cor
e as sílabas latentes soletram as evidências
simples e prodigiosas Através delas o espaço
das coisas se identifica ao ser absoluto
Em harmoniosa fluência e na atmosfera límpida
os vocábulos dizem a amizade do universo
Tão inteira tão firme na grande realidade
que se levanta como uma onda e te expõe frente a frente!
Aproximas-te do mar dos montes e das nuvens
e sustentas a atenção pura no número dos teus versos
O teu dom de ser acende-se nas coisas e no verbo
e os volumes vivos unificam-se em assombro
Tua vasta alegria é um ócio resplandecente
que propaga e ondula o ouro maravilhado
Toda te convertes em presságio e fragrância
e a tua vida freme em ti como uma rosa no espaço
És o dia a claridade do dia dominado
e de cimo em declive és o oriente amanhecendo
Frágil é o teu poder? Frágil e perfeitíssimo
num universo em que a criatura encontra o equilíbrio
justo e a delícia da certeza que é o espaço
De súbito as palavras têm um aroma a vento
e modulam as curvas como sinuosas barcas
Insinuam por vezes matizes de palácios
com pátios interiores onde desliza a água
Nada é um sonho por mais leve que seja
porque tudo é um trabalho sobre a madeira do mundo
Que potência cálida e tão certa entre as árvores
que enlaces naturais e que cintilantes cimos!
O teu destino é já música e sortilégio simples
de uma triunfal harmonia tão límpida e tão firme
que é de todos Porque em ti o mundo se redime
e toda a magia é a realidade da palavra

(in Relâmpago nº 9, 10/2001 - número de homenagem a Sophia)

8.5.04

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Para que o verso vibre que fascine o silêncio
e deslize na brancura sem ser um prisma de pétalas
Ó pura timidez aveludado tremor
de um pássaro! Arco
de água subtil
arco de ser ninguém
de nulo olvido
lâmpada de anémona

Como a água sobe à água da retina
como a flor se desfaz m torno do seu centro
assim o poema caminha para a nudez
enquanto como cílios as suas sílabas vibram
dilaceradas consoladas pelo olvido
entre dois silêncios de árvores

(de As Espirais de Dioniso, Pedra Formosa, 1997 - Arco Imperfeito)

28.3.04

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Voz entre árvores


Ouço a tua voz de mil murmúrios e de um só espaço,
de uma só visão silenciosa.
Tu já começaste há muito com o sol e com os pássaros.
A tua voz ilumina as folhas e as pedras.
Eu sou o que começa, o que quer começar
para estar contigo entre as árvores e a água.
Aspiro a luz com o hálito de uma criança.
Estou enraizado numa pedra junto a um ribeiro.
Tu cantas e é o espaço que canta, um só desejo
que principia e adormece e no sono principia.

(de O Não e o Sim, Quetzal editores, 1990 - Graffiti)

3.2.04

ANTÓNIO RAMOS ROSA

ATRAVESSAR O DESERTO


Repetem-se as palavras como a erva.
Entre o corpo o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.

(in «ARCO-IRIS», Caderno de Ideias Literárias, 3, Porto, Abril de 1977 - edição conjunta dos 3 primeiros números: A Regra do Jogo, 1977 - direcção de Eduardo Paz Barroso e Paulo Jorge Tunhas)


EXERCÍCIOS DO DESERTO

I

Que sinal acender?
A mão sem terra sem o fogo.
O suporte inicial? A busca unânime?

A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?

Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.

Um nome de ar e terra, um nome só
agora no centro desolado.
Um nome acorda?
Um flanco alvo no desolado centro.
A tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação. Que nome
és tu, que nome ou nomes,
onde e onde
e boca ou folha
e não são os resíduos sobre a sombra.

Onde tocava a pedra. Onde o corpo.

II

Vestígios de um lugar. Vestígios verdes
cinzentos
Mas sem o espaço sem a amplitude do campo.

Escrever com ardor na sombra do quarto.
Á espera de. Ou sem esperar. Escrever.
E ele escreve, ele espera o que ele chama

a densidade.

III

Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti.
Um espaço deserto.

Ele prescuta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
que traços são estes, qual a origem destas palavras nulas?

Ele escreve. Ele deseja esse desejo
de tornar habitável o deserto.

(in «ARCO-IRIS», Caderno de Ideias Literárias, 4, A Regra do Jogo, 1977 - direcção de Eduardo Paz Barroso e Paulo Jorge Tunhas)


[não sei se estes poemas tiveram outra edição]

22.12.03

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Tocar com um dedo, auscultar
a pulsação,
o ritmo único das pedras do deserto,
algumas ervas ou talvez estrelas,
talvez apenas uma haste silenciosa
e, todavia, saber arriscar tudo
num jogo em que a pobreza é extrema
e o desastre de um exacerbado múltiplo
pode fragmentar o prisma incorruptível
e desviar o dardo da divina desmesura.
A mão, no entanto, escruta e suscita
as constelações tecidas pela matéria
do silêncio num alvor de navio
e as torres lentas das pulsações
ao longo das veias
com janelas abruptas e ardentes.
Há um assombro nos músculos e palavras
e os olhos são porosos como os seixos.
Fulminado pelo impossível, o poema
sustenta-se sobre o ilegível
entre a plenitude e o nada.

(de O Centro Inteiro, em colaboração com Agripina Costa Marques e António Magalhães, Cadernos Solares, 1993)