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28.7.14



RUI CAEIRO



Percorra a gente os caminhos que percorrer, Travessa dos Remolares incluída, sempre em nosso desnorte alguma coisa procuramos - ainda quando aparentemente estamos a fugir de qualquer coisa, às vezes nem sabendo bem de quê, ou ainda quando fugimos daquilo que procuramos ou procuramos aquilo de que fugimos.
Após tão arrevesado parágrafo, regressemos ao que ora importa, isto é, que remédio, à Travessa dos Remolares ela mesma.
Quem por lá passa, e não sei porquê (ou não sei eu outra coisa) nunca são muitos os que por lá passam, procura o quê?, foge de quê?, encontra o quê?
Há para mim mais metafísica, isto é, mais fonte de perplexidade, nestas três perguntinhas - ainda que a resposta devida a cada uma delas não passe de de um atónito «nada!» - do que nos terríveis labirintos dos livros sagrados: toras, bíblias, corões...
Percorrer a Travessa dos Remolares inculca, quer pela pequenez da artéria, quer pelo que nela há de insuportável, sair de lá quanto antes. Que aquilo não é sítio para um peão se demorar. Sair, tão depressa quanto possível, para depois trazer a rua agarrada à sola dos sapatos, à laia de algo que se pisou sem querer.


(excerto de Travessa dos Remolares, Paralelo W, 2013)

27.11.08

[outros melros LIV]

RUI CAEIRO

ROLAS, MELROS


Descem do céu, de parte nenhuma, para debicarem
ora um ora outro, os restos de comida
no prato do gato

(de O Carnaval dos Animais, livraria Letra Livre, 2008 – honrosa oferta do Changuito, aquando da minha primeira visita à Poesia Incompleta)
RUI CAEIRO

Na minha terra travei conhecimento com as palavras. Primeiro, aquelas que os meus pais me ensinavam. Depois as outras, que estavam em volta. Depois as que eu trazia da rua, sempre mais apetecíveis e que brilhavam como uma moeda nova. Destas últimas, as mais interessantes eram sem dúvida as que tinham o cunho de proibidas.
A meu ver, todas elas, sem excepção, tinham direito à vida. Todas, mesmo as proibidas – principalmente as proibidas.
Todas eram, por igual, fruto da situação que as vira nascer. Todas eram imprescindíveis.

****

Na minha terra tomei gosto pelas palavras. As que ouvia, as que lia, as que dizia, as que não podia dizer. Tenho que reconhecer que algumas davam mesmo um prazer muito especial. Como um rebuçado que lentamente se dilui na boca, em contacto com a língua.

(de Pranto por Vila Viçosa, edição do Autor, 2007 – adquirido na livraria Poesia Incompleta, o local mais indicado para encontrar obras deste Autor)