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27.8.10

[recuperando séries antigas - gatos mortos]

RUI MANUEL AMARAL


O gato morto


Um homem batia num gato morto. Batia-lhe com toda a força, ventilando ao mesmo tempo os seus sentimentos de desprezo por meio dos piores insultos que jamais foram dirigidos a um gato. Ora, estando morto, o bicho evidentemente não reagia. Mas nem por isso o homem parecia disposto a parar. Pelo contrário: cada vez mais encarniçado, batia-lhe umas vezes nas costas, outras nas patas, outras no focinho, puxando-lhe outras vezes a cauda e os bigodes. Numa palavra, assentava-lhe bem as costuras. Isto prolongou-se durante longos minutos, só abrandando quando se sentiu fatigado e quando já não havia no corpo do bicho um lugar sequer que não estivesse macerado. Foi então que de repente o gato se lançou furiosamente sobre o homem e lhe esgadanhou a cara com tal ímpeto que só por um incrível rasgo de sorte lhe não arrancou o nariz e as orelhas.

(daqui)

4.6.08

RUI MANUEL AMARAL

História do homem que perdeu a alma num café


Como de costume, José Augusto vai até ao café depois de sair do trabalho. Bebe uma ou duas cervejas. Vá lá, três. Até aqui, tudo bem. Pega no jornal e passa os olhos pelas gordas. Nada de particularmente importante. Depois, levanta-se e, de mãos nos bolsos, volta para casa a assobiar.
Em casa, repara que se esqueceu da alma no café. José Augusto fica aborrecido porque já tinha calçado as pantufas e porque a mulher lhe enche os ouvidos com censuras. A mulher está convencida de que a alma esquecida no café não passa de um pretexto para ele passar a noite fora a beber cerveja e até, quem sabe, a envolver-se noutras coisas.
De qualquer maneira, José Augusto volta ao café. Procura a alma na mesa onde estivera a beber. Mas a mesa e as cadeiras estão vazias. Os empregados dizem que se a alma tivesse ficado ali esquecida, eles teriam reparado. Afinal de contas, não é fácil uma alma passar despercebida. Seja como for, não deixam de lhe notar que nos tempos que correm não se pode confiar em ninguém e que é possível que outro cliente a tenha levado com segundas intenções.
José Augusto resigna-se à sua sorte e, com grande abundância de suspiros e ais, regressa a casa sem a alma. E embora fosse natural e até aconselhável, decide não apresentar queixa às autoridades.
Isto já se passou há bastante tempo. Mas ainda hoje José Augusto sente uma dor muito fina no local onde deveria estar a alma. Em especial durante a época de caça ao faisão. Ou será à perdiz? Não, é ao faisão.

(de Caravana, Angelus Novus, 2008 – Microcosmos)


PAULO KELLERMAN

Lixo


Era uma vez um homem que passava uma parte considerável dos seus dias a mexer no lixo alheio.
Explicava, a quem desejasse saber, que procurava uma alma. Perdera a sua e, por isso, precisava encontrar outra com urgência.
Acrescentava que o local mais óbvio para procurar era entre o lixo dos outros. Pois se a bondade apenas se destaca quando contraposta à maldade, se a virtude apenas o é em relação ao pecado, se a verdade apenas existe enquanto a mentira existir, em que outro local procurar a pureza senão entre a impureza?
Sorria e continuava a revolver o lixo.

(de Miniaturas, edições Colibri / Câmara Municipal de Portimão, 2001)


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

ALMA PERDIDA


Sigefredo botou anúncio classificado, dizendo que perdera sua alma, com promessa de gratificar quem a encontrasse. Não explicou - nem podia - como a tinha perdido.
Apareceram algumas pessoas trazendo pacotes com almas, e nenhuma era a dele. Não se ajustavam a seu corpo, e mesmo que ele quisesse fazer experiência, era evidente que não combinavam com o jeito de Sigefredo. E ele era muito ocupado. Não tinha tempo a perder.
Já se resignara a viver mesmo sem alma, quando uma noite encontrou a desaparecida, à porta de um bar, com aparência de pobreza, mas tranquila.
Seu primeiro impulso foi recolhê-la, mas pensando melhor achou que não valia a pena. A alma de Sigefredo também não manifestou interesse em voltar para ele. Dir-se-ia que aprendera a viver por conta própria, e mesmo naquele estado era independente.
Sigefredo passou por sua alma sem cumprimentá-la, entrou no bar e pediu o drink habitual. Ao sair, viu a alma, a pequena distância, dar alguns passos e saírem dos ombros duas asas, com que ela se alteou, voando para a Zona Norte.

(de Contos Plausíveis, José Olympio editora, 1981)

29.2.08

[outros melros L]

RUI MANUEL AMARAL

De um momento para o outro


Os melros nem sempre foram os pássaros tímidos e esquivos que conhecemos hoje. Houve um tempo em que os melros eram brancos e, em alguns casos, semelhantes a peixinhos dourados. E cantavam maravilhosamente nas tardes sombrias de Inverno e escondiam-se nas profundezas húmidas dos jardins, e comiam minhocas também. Mas depois, de um momento para o outro, tudo mudou.

(daqui)

21.2.05

[só para demonstrar o equívoco de umas certas afirmações]

RUI MANUEL AMARAL

Eléctrico n.º 18


Tarde cinzenta de domingo. Chuva a bater nos vidros,
pouco trânsito desaparecendo nas ruas quase desertas do fim-de-semana.
Lembra-me as antigas tardes de Inverno
em que descíamos de eléctrico a avenida da Boavista
entre as pequenas histórias do dia e o vento frio
que crescia nas janelas.
Vagaroso como um caracol, o velho eléctrico seguia pela tarde,
por dentro da sua fina concha de sal.
Cinco mil metros de solidão até ao mar
e o meu amor a desaparecer sob uma nuvem de espuma.

Imenso o céu, intocado pelo brilhos das vastas ondas,
o mar tão branco enrolando nos cabelos,
a invadir os muros, a ecoar nas fachadas.
Homens e gaivotas remoinhando no vento,
os dedos claros como grãos de areia.
Por entre as árvores baixas da foz
o mar espalhava as suas sementes misteriosas.

Há muito que o eléctrico não desce a longa avenida.
Hoje lembrei-me de ti. A tarde caía para sempre
no coração sombrio deste longo Inverno.
Um resto de morte invadiu-me antes ainda de a noite nascer.

(in Diário de Notícias de 7 de Fevereiro de 1999 - secção DN Jovem)


CEUTA

Café Ceuta. Anoitecer. À minha volta as mesas estão vazias. Dois
empregados conversam ociosamente encostados ao balcão. A porta abre-se
(vento frio). Um homem entra. Senta-se do outro lado da sala. Um
empregado aproxima-se. O homem pede um café. O empregado afasta-se.
O homem tira um livro da mala preta e pousa-o sobre a mesa. Acende um
cigarro. Lê a primeira página. O empregado traz o café. O homem bebe um
pouco. Depois arranca a página e come-a. Lê a página seguinte. Acaba de
beber o café. Arranca essa página e come-a também. Apaga o cigarro.
Fecha o livro e guarda-o na mala preta. Levanta-se. Aproxima-se da porta
(vento frio).

Noite. As mesas continuam vazias. lá fora as árvores na praça falam entre si,
na sua linguagem nublada de anjos da distância.

(de Quartzo, Feldspato e Mica, incluído em Com faca e garfo - colectânea de Jovens Criadores 2001, Íman edições e Clube Português de Artes e Ideias, 2002)


You Are Here

Meia-noite no porto a um domingo de tarde.
O sol avança sem vontade, como um gato ensonado,
pelas amenas ruas de Fevereiro.
Os cafés rangem cheios de gente
acendendo e apagando eternos cigarros
impregnados de Inverno.
Os velhos cruzam a cidade,
aos pares nos autocarros,
de lá para cá e de cá para lá,
dormindo profundamente.
E os pássaros quase se deixam apanhar,
Flutuando como borboletas pesadas
Sobre os canteiros indolentes das praças.
Tudo isto se pode ver em plena penumbra.
E tudo isto Fevereiro arruma,
lenta e meticulosamente,
ao longo de uma interminável tarde de domingo.
E pronto. Mais nada.

(de Bronze, incluído em A Semiologia Segundo Tarzan Taborda - colectânea de Jovens Criadores 2002, Íman edições e Clube Português de Artes e Ideias, 2003)

27.11.03

[uma espécie de mistura temática de dois blogs que muito admiro, num poema do autor de outro blog, que igualmente admiro]

RUI MANUEL AMARAL

QUE DIRÁS ESTA NOITE


Desta vez eu tenho um plano.
Vou crescer para ti como um gato,
aninhar-me como um gato no teu colo,
vou sussurrar coisas secretas ao teu ouvido,
prender o teu coração como uma sombra
ou um deus silencioso.
Esta noite, um saco de flores
para o meu único amor.
Um cigarro eternamente azul
para mim.

(de Quartzo, Feldspato e Mica, incluído em Com faca e garfo, colectânea de textos Jovens Criadores 2001, co-edição da Íman edições e do Clube Português de Artes e Ideias, 2002)

31.8.03

[gosto muito de inventários V]

RUI MANUEL AMARAL

Inventário

Duas esculturas em pedra de mestre mateo (séc. xiii)
dois zurbaran, um luis de morales,
um elegante e suave cristo muerto sostenido por um ángel,
o inquietante retrato de juan rizi,
la dolorosa de murillo, um valdés leal,
outro carreño, um claudio coello,
os retratos de felipe iv e do conde de benavente,
ambos de velazquez.
A raiva e a sua fonte mais apaixonada,
o amor.

(de Quartzo, Feldspato e Mica, obra incluída em Com faca e garfo - colectânea de textos Jovens Criadores 2001, co-edição: Íman edições e Clube Português de Artes e Ideias, 2002)