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25.5.13

IOSIF BRODSKII


Os palhaços estão a demolir o circo. Os elefantes fugiram para a Índia;
os tigres vendem na rua as riscas e as argolas;
no interior da tenda rota, do trapézio pende,
balançando-se como num guarda-roupa, o fraque
dum desiludido ilusionista,
e os poneys, lançando fora as coberturas bordadas, posam para um retrato
do motor. Na pista,
enterrados em serrim, os palhaços brandem no ar
os martelos com toda a gana e demolem o circo.
Público, ou não há ou não aplaude.
Apenas um cãozinho amestrado
late sem parar, sentindo que está cada vez mais próximo
do torrão de açúcar, ou seja, que está quase a ser
mil novecentos e noventa e cinco.

1995


(tradução de Carlos Leite, in Paisagem com Inundação, Livros Cotovia, 2001)

4.11.11

ÓSSIP MANDELSTAM


Não te seduzam alheios idiomas, esquecê-los é bom que tentes:
seja como for não poderás morder o vidro com os dentes.

Com que sofrimento se domina o voo do crocitar alheio —
pelo êxtase ilegítimo, que dura paga te espera.

Porque o nome alheio à hora da morte não vai salvar
o corpo moribundo e a boca pensante e imortal.

E se os encantadores Ariosto e Tasso, que nos seduzem,
são monstros com escamas de olhos húmidos e cérebro azul?

E, amante de sons, castigando-te a vaidade,
vai passar-te pelos lábios a esponja de vinagre.

Maio de 1933


(in Fogo Errante - antologia poética, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio d'Água, 2001)

19.6.10

ÓSSIP MANDELSTAM


Um friozinho faz cócegas na nuca,
é impossível ver de imediato:
também a mim me corta o tempo como
a ti se desgasta e camba o salto.

A si mesma se vence a vida, o som
derrete pouco a pouco, falta sempre
qualquer coisa, até falta o tempo
para ter qualquer coisa que se lembre.

Dantes era melhor, é bem verdade;
esse velho sussurrar de outrora
em nada se pode comparar,
ó sangue, ao teu sussurrar de agora.

Pelos vistos não é gratuito
este leve mexer dos lábios,
e abanam, mexem-se os ramos
que condenaram a ser cortados.

1922


(de Fogo Errante - antologia poética, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio d'Água editores, 2001)

16.2.09

IOSIF BRODSKII

TRANSATLÂNTICO


Os últimos vinte anos foram bons praticamente para toda a gente
menos para os mortos. Mas talvez também para eles.
Talvez o Todo-Poderoso-em-Pessoa se tenha tornado um tanto burguês
e use cartão de crédito. Pois doutra maneira a passagem do tempo
não faz sentido. Daí as recordações, as memórias,
os valores, as maneiras de sociedade. Esperamos não termos
gasto a mãe ou o pai ou ambos, ou uma mão cheia de amigos até ao
último, pelo facto de deixarem de nos povoar os sonhos. Os sonhos,
ao contrário da cidade, despovoam-se
à medida que envelhecemos. Por isso é que o eterno descanso
oblitera a análise. Os últimos vinte anos foram bons
praticamente para toda a gente e constituíram
a vida no outro mundo para os mortos. A qualidade dessa vida podia ser
questionada mas não a duração. Os mortos, supõe-se, não se
importariam de conseguir o estatuto de sem-abrigo e dormir em passagens
pedonais, ou de ficar a ver os submarinos grávidos regressarem
ao curral onde nasceram no fim duma viagem à volta do mundo
sem destruírem vida na terra, sem terem
sequer um pavilhão decente para içarem.
1991

(de Paisagem com Inundação, tradução de Carlos Leite, edições Cotovia, 2001)

3.2.09

MARINA TSVÉTAÍEVA

Nós – as crianças, somos os reis
do mundo das visões nocturnas.
Caem sobre nós as alongadas sombras
brilham as lanternas por detrás das janelas,
escurece o tecto do salão,
os espelhos absorvem o seu rasto…
Não há tempo a perder!
Alguém sai do seu canto.
Debruçamo-nos os dois por cima do piano negro
e o medo chega-se a nós,
embrulhados num xaile da mamã
nem respiramos, pálidos de terror.
Vamos lá ver o que se passa
por baixo da cortina das trevas inimigas.
Os rostos deles fundiram-se no escuro,
– de novo saímos vencedores!
Somos os elos de uma mágica cadeia
e no fragor da batalha jamais desfalecemos.
Aproxima-se o combate derradeiro,
e com ele há-de perecer o reino das trevas.
Os adultos inspiram-nos desprezo,
pela rotina adormecida dos seus dias…
Nós sabemos, sabemos muita coisa
do muito que eles não sabem.

(in E cantou como canta a tempestade, selecção de Inês de Medeiros, tradução de António Mega Ferreira, Assírio & Alvim, 2007 – Gato Maltês)

15.5.08

MARGARITA ALIGER

LÁGRIMAS DOS OLHOS, COMO CENTELHAS DE SÍLEX


Lágrimas dos olhos, como centelhas de sílex,
como uma palavra justa, arrancar para que serve?
Nada há de especial. A palavra é como fogo,
e o coração do homem não vive de soluços.
Não é absolutamente isso que me atormenta.
Mas levantarmo-nos de madrugada, à chegada do dia,
a dizer a quem vai à frente:
- Felicidades! –
Dar-lhes uma canção, com toda a alegria,
que proteja como uma autêntica armadura,
das palavras que soam vãs e falsas.
Queremos do homem não a centelha mas o fogo.

(tradução de Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Soviética, editorial Futura, 1973)

4.7.07

[a propósito da poesia russa num certo blog]

BORIS PASTERNAK

INSÓNIA

Que horas são? É escuro. Quase as três.
Parece que não torno a fechar os olhos.
O pastor da aldeia faz estalar o chicote à alvorada.
O vento frio soprará na janela
que dá para o pátio.
E estou só.
Não é verdade. Com
toda a onda penetrante do teu
ser puro, tu estás comigo.

(in Poetas Russos, tradução e prólogo de Manuel Seabra, Relógio d'Água, 1995)

12.9.05

[o canto e a ceifa III]

OSSIP MANDELSTAM


Quando sai para os céus a lua citadina,
E a noite prenhe de cobre e mágoa cresce,
E de lua a cidade espessa se ilumina,
E a cera canora ao tempo rude cede,

E na sua torre de pedra o cuco chora,
E a pobre ceifeira - no mundo dessangrado -
Ajeita de leve agulhas da sombra enorme
E as lança, palha amarela, no sobrado...

(de Guarda a Minha Fala para Sempre, tradução Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, 1996)

13.5.04

YEVGENY YEVTUSHENKO

FÁTIMA


Estive na festa de Fátima. Vendo como se empurravam nas bermas
cães, burros, jornalistas, embaixadores, turistas,
e ao longo das estradas, de joelhos ligados,
em todo o asfalto, de cabeça perdida o povo se arrastava.

Com imprecações, gritos, lágrimas, gemidos,
por poças, montes de esterco, cacos de vidro,
arrastava-se para que a bênção de Fátima
viesse ao povo e o pudesse ajudar.

Arrastam-se camponeses, amargura no rosto enrugado
como haveria no da mãe de Jesus Cisto
quando lhe devolveram, por fim, o filho crucificado,
tocando-lhe ao descer o seu corpo branco na cruz.

Arrastavam-se madalenas, torciam-se, gemiam, ofegavam,
e semeavam lágrimas, confiando nessa sementeira,
mas só sorriam anjos mudos e impertinentes
arrastando a sementeira às costas, como rapazes traquinas.

E nos automóveis pretos, louvados os Apóstolos,
com buzinas que passavam pelos saloios arrastando-se na poeira,
corriam, como para o futebol, os ideólogos do andar de rastos,
os polícias de casse-tête sendo super-indulgentes.

E no estádio, com a voz forte da Phillips,
o comércio da fé deixava cair a sua palavra quente
sobre o mar de cabeças confusas e chapéus de jornal,
oscilando trémulas como um prato de pudim.

Apelava o comércio, estendendo as mãos bem cuidadas,
na altura em que nas estradas pejadas,
que se arrastavam ao longe sobre joelhos invisíveis,
o poente se mostrava através duma neblina como sangue através de ligaduras.

E o povo arrastava-se. E os tristes camponeses não sabiam
que os pastores de rebanho, de submissa e simples fé,
não só não podem - tudo podem os grandes do mundo! -
como não pensam tirar os seus filhos da cruz...

(de Poiúchtchaia dámba, 1972 - tradução de Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Soviética, editorial Futura, 1973 - Yevtushenko havia estado em Portugal em 1967 para um recital em Lisboa)