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28.3.19

RUY BELO


Nunca ao indefeso leitor de poesia terá sido fácil discernir o que, na produção contemporânea, é ou não poético e o continuará a ser — ou a não ser —, alguns anos volvidos. Teria para isso de conseguir determinar pouco menos que toda a linha futura da história da poesia. Mas que essas dificuldades são hoje em Portugal quase insuperáveis, ninguém de olhos limpos o poderá negar.
Muitas causas para isso contribuem, desde o mais ou menos larvado desrespeito pela liberdade e isenção da crítica até à conversão da mediocridade em ideal de arte. Dir-se-á que esta questão é secundária, que sempre o poeta surgiu além ou apesar de cenáculos, compadrios e venalidades de configuração mais ou menos típica, com maior ou menor consciência praticados.
Mas, no limiar do exercício da crítica, levanta-se a indeclinável obrigação de procurar ao menos apontar para o mal. Sendo a formação do gosto poético tradicionalmente deixada à livre e desconexa iniciativa de quem lê por ler ou para, lendo, escrever, impõe-se-nos o trabalho preliminar de ao menos levantar a voz para, quanto mais não seja, não colaborarmos nessa obra de perversão do gosto. E a crítica, embora de feição construtiva ou talvez por isso mesmo, não poderá deixar de se impor esse ingrato trabalho, até por uma elementar questão de honestidade.
Ultimamente tem-se abusado dessas técnicas de desnorteamento que, por fraqueza ou ambição desproporcionada, sempre aliás se usaram. A poesia, que outrora se apresentava discretamente, de mãos caídas, aparece agora divulgada, se não até construída, através de métodos mais ou menos jornalísticos, não sabendo ou não querendo os poetas renunciar a um maior alcance no espaço, em favor de uma mais autêntica sobrevivência no tempo. Daí a dificuldade — momentânea apenas, valha-nos isso — em distinguir entre poetas que o são e pessoas — respeitáveis pessoas, vamos lá — que por tal se pretendem fazer passar.
Se outro remédio não houver, resta aos autênticos poetas, àqueles que só a uma norma íntima afinal obedecem, resta — dizíamos nós — aos poetas cultivar a impopularidade, certos de que a poesia é, como toda a arte, essencialmente impopular. Se houverem de prescindir de público, aliás tão necessário na progressiva definição dessa norma íntima, que lhes não faleça a coragem de saber prescindir. Esse público acabará por se formar, não talvez a tempo de influir beneficamente na criação da obra, mas de qualquer forma em condições de delimitar-lhe o espaço de circulação.
Só é pena que, podendo porventura preencher lugares altamente remunerados ou pelo menos granjear uma merecida consideração social, os aventureiros da poesia não saibam eximir-se a perturbar o trabalho daqueles que à poesia sacrificaram pelo menos elevada remuneração e alguma consideração social.


(excerto de «Atentados contra a criação artística», in Na senda da Poesia, 1969)

16.1.14


RUY BELO, entrevistado por MARIA TERESA HORTA


— Acha que a poesia não pode, ou melhor, não deve ser ambígua, difícil, mas sim clara, fácil?

A poesia é por natureza difícil. Como o futebol. Desculpe a alusão. Mas não é descabida. Porque é que eu leio muito jornais desportivos? Porque os nossos maiores jornalistas são Alfredo Farinha, Carlos Pinhão, Aurélio Márcio ... Este último fez uma reportagem notável no Popular sobre o último Campeonato do Mundo de futebol. A anotar muito bem o concreto, o pormenor, como o melhor Hemingway. E Fernando Pessoa nunca será conhecido por tanta gente como Eusébio. E acho bem. O êxito.


(in «A Capital», de 18 de Setembro de 1968, e reproduzido em Na senda da Poesia, 1969)

16.4.10

RUY BELO


NO AEROPORTO DE BARAJAS


Não são os aviões que aqui levantam voo
aqui não é metálica a imaginação
Daqui levantam voo estes americanos
que perto matam longe o povo heróico vietnamita
que aqui pagam em dólares a dor dos sul-americanos
que fingem vida aqui a morte do nordeste brasileiro
As barrigas aqui assinaladas pelo menos por meio cento de estrelas
ocultam esses índios esses pretos essa gente sub-americana
que garante a barriga destes sobre-americanos
Aqui branqueja a branda casa branca
perfurada pelo mais narigudo dos narizes
que em toda a parte surge onde não é chamado
Aqui se representa a primeira das damas deste mundo
essa mãe virtuosa e responsável
que limita a natalidade sua sem deixar
de controlar também a das mulheres de todo o mundo
Pat aliás acaba de ganhar a eleição anual das
mulheres que segundo a revista good housekeeping
maior admiração de nós merecem
pela coragem e pelo desejo
de ajudarem outros seres humanos e
se não ajuda os pretos nem os índios nem aqueles
que neste mundo nesta vasta américa do norte
que é a maior parte deste mundo
é porque se duvida seriamente de que sejam seres humanos
Aqui grassa o mau gosto aqui a gente
que fica por aqui em todos quantos partem
aqui a gente goza a ver estes patuscos
que passam de montera na cabeça
aqui a gente vive a morte que aí vai aqui
vive nestas barrigas quem não vive
Aqui os servos nós eles senhores
aqui ficamos nós aqui levantam voo não
os aviões mas estas certas aves de arribação


(de Transporte no Tempo, 1973)

18.9.09

JOSEFA DE AYALA

Retrato do Beneficiado Faustino das Neves, c. 1670
Igreja de Santa Maria de Óbidos


(reproduzido a partir de Linha do Oeste - Óbidos e Momentos Artísticos Circundantes, coordenação de Benedita Pestana, Assírio & Alvim, 1998 - volume adquirido ao Henrique, na companhia do José do Carmo Francisco)


RUY BELO

O BENEFICIADO FAUSTINO DAS NEVES


Quem seria o beneficiado faustino das neves
que vê de viés quem o visita alguma vez?
Pergunto e não quero que ninguém me responda
perguntar por perguntar pode ser a mais alta forma de saber
A pergunta ondula no ar ou na alma como uma nuvem
será talvez um til num texto uma ruga na testa
um gesto de quem contesta uma leve crispação da crista
Não importa talvez o que se pergunta mas como se pergunta
a ânsia na voz o brilho nos olhos um movimento de pés
Que me importa a mim faustino das neves mero pretexto para isolar
da boca cariada do tempo um simples olhar?
Que importa um olhar a análise dos tecidos orgânicos
dos olhos das células vivas de súbito impressionadas
e das fotografias logo reveladas na câmara escura do cérebro?
Um olhar interroga um olhar duvida talvez um olhar é coisa de tempo
é a mais funda fala de quem num momento se sente bem
se despede de si mesmo de todos se isola cortante como uma proa na vida
Olhar é talvez como que pensar como sentir como dissimular que se sente
e às vezes dar vida a casas costumes coisas ao vento
ao vento que varre todos os gestos que desenhamos nos dias
é lutar corpo a corpo com corpos provisoriamente opostos ao nada
é uma sala de estar onde os amigos podem entrar de chapéu na cabeça
tuna sala onde a luz levanta a manta de velhas coisas inúteis envoltas em volta
Nos olhos começa às vezes o mar os olhos animam nas coisas o vento
nascem nos olhos as nuvens que arrastam consigo a tristeza para o lado sul
Faustino das neves não é homem de anjos
repele discretamente as mãos coercivas do transcendente
joga tudo na vida volta-se de uma vez para sempre para estes dias
emerge da sombra para os mais leves sintomas do sol
sai das mãos de josefa pra uma tela sombria do século dezassete
abandona na ponta dos pés a igreja da santa casa da misericórdia
pisa na noite as pedras da vila de óbidos
Faustino das neves muda de roupa põe o breviário de lado
actualiza certos aspectos antiquados do seu português
submete-se às leis da fonética embora saiba que há quem negue que sejam leis
responde aos inquéritos linguísticos por correspondência do doutor paiva boleo
enriquece o léxico com nomes de coisas do novo mundo com termos técnicos
com construções colhidas nas páginas de aquilino ribeiro ou guimarães rosa
maneja também para isso os modernos meios audio-visuais
anda a par das novas conquistas do estruturalismo evita os vários suplementos literários
embora tenha ouvido falar de fernando luso soares e alberto ferreira
acompanha mesmo as novas correntes do pensamento
Faustino das neves caminha por óbidos mas é um homem do nosso tempo
sensível aos slogans ao chamamento luminoso das montras
recorre ao crédito contribui irresistivelmente para a inflação
que um governo em guerra prometeu combater não sabe bem como
não tem precisão de emigrar mas intervém nos problemas do nosso tempo
assina o seu nome em listas apresenta-se como intelectual responsável
é até dos homens mais à esquerda do nosso país
pensa talvez promover ortodoxamente em portugal
exactamente a revolução russa de mil novecentos e dezassete
Faustino das neves olha através dos séculos
coloca o pé pisa as pedras as nuvens com elegância
conspira diz mal calcula caminha na vida
O beneficiado não crê na promessa do dia nem na verde alegria
de banhar o rosto num instante na própria fonte
de ver sequer de passagem mais que a sua simples imagem
esse núcleo de luz ardente que agora tenho na minha frente
essa fuga feliz a um mundo onde dia a dia me afundo
talvez a única sombra que a mim me deslumbra
sonhada morada nunca conseguida
sensível e audível e palpável mas inconcebível
desmedido portal onde poderá começar o ignoto mundo do mal
onde uma coisa logo que nomeada é coisa realizada
Josefa foi a submissa foi decerto a pintora mas foi também
doméstica e simples e amiga e mãe
Josefa de óbidos não pinta há muito anda assustada
o seu cliente beneficiado fugiu-lhe ingratamente das mãos
não a respeita não reconhece que só graças a ela chegou até hoje
e a pintora tem o seu nome uma reputação nacional e até
internacional devida talvez a josé augusto frança
começa a recear as consequências de ter criado tal criatura
Josefa de óbidos ficou no seu tempo pintou metafisicamente um olhar
meteu-o na cara de um homem enquadrou esse homem numa classe
ficou descansada tinha a imortalidade assegurada
mas agora até pensa deixar talvez de pintar
Josefa de óbidos noutro país talvez tivesse pintado
essas bolas de sabão que manet continua a soprar até nós de um longínquo verão
como imagem do tempo da vida da terra em breve desaparecida
ou aquele menino togado mas truncado
que jaz no prado irremediavelmente ameaçado
pelo perene fado essa mensagem do passado
transmitida ao presente eternamente
ou aquela dama romana donde intermitentemente mana
o mar de recordar esse insistente soluçar
de quem tem no olhar uma forma garantida de passar
a vida indiferentemente recordada esquecida
mais tarde também josefa se fosse um homem
ou enfim defendesse a liberdade sexual da mulher
talvez decerto com a sua dose de sorte se chamasse goya
assistisse a touradas pusesse saber e sabor em pintar aquele picador
que pica um touro castigado nalgum domingo do século passado
ou se não mais na sua linha um cardeal de goya frio fixo como uma jóia
que um homem depois de ver de boamente consente em morrer
ou as perfeitas santas justa e rufina onde se afina e refina
a mão que por vezes guia a loucura através do pretexto da pintura
Mão que não sentiu a pouco e pouco gastar os dedos do autor a pintar
que pintou noite e dia sem sentir que se desfazia
para para sempre ficar num grupo álacre que a dançar
envolve na roda a distância do requinte e da elegância
de quem num instante ímpar se desenha no ar
para tudo e todos imolar ou pelo menos diminuir
Josefa não pode parar talvez quem saiba consiga pintar
a maja desnuda ou a maja vestida
os velhos vorazes que no comer põem a mais viva forma de morrer
essa romaria de santo isidro onde há gente que deve os olhos de vidro
ao vinho e à mais triste alegria que num madrid há muito passado se construía
ou o cão já meio afogado só salvo depois de pintado
com a raiva de quem assassinasse talvez a própria mãe
ou a si mesmo se houvesse matado ao deixar-se auto-retratado
A pintora de óbidos desconhece a finura o donaire o sorriso dessa figura
helena fourment modelo de rubens uma criatura da terra que até hoje perdura
não viu uma velha de duas igrejas fiar e de fuso na mão para sempre ficar
com o tempo todo na face mãos fechadas sobre a velhice
ou a usurária de ribera mulher que é hoje na tela mais que no tempo era
mulher mumificada na mão levemente destacada
território de rugas talvez onde se intensifica a luz
rosto rijo e rigoroso onde o boletim meteorológico anuncia sempre tempo invernoso
olhos que no campo circunscrito da parecença
distinguem a distância que existe entre quem começa
e quem a vida já vela com um véu de névoa
Josefa pinta como quem pensa ou considera e só assim recupera
esse passado mais que no nome na realidade inexoravelmente passado
por ser a mesma mulher e serem freiras e serem viúvas ou outras quaisquer
ou esse santo por heredia pintado e depois disso irremediavelmente degolado
e não menos que o anterior cão deixado nas águas do tempo afogado
Josefa na arte comprometida passaria o pincel pela vida
pelo baile campestre alegre e triste
onde é visível o vento que apenas dura nesse momento
em que se dança intensamente e alguém vai e vence
com a decisão inabalável das marés do mar o bailarino mais exímio a dançar
casamento campestre conjunto de gestos urbanos num meio agreste
neptuno do olhar velado neste mesmo instante emerso do mar do passado
objecto de gesto jamais talvez ultrapassado apesar do desígnio sempre esboçado
por quem um dia nalguma parte deu o que tinha e não tinha pela arte
Josefa de óbidos assustou-se porém pois podiam dizer a alguém
que pintar implica ao fim e ao cabo ter um pacto com o diabo
pois o diabo vivia nos dias de então vestia a toga da inquisição
e a pintora pensou deixar a pintura com medo da alma e da censura
Não existe decerto censura mas o gesto foi sábio porquanto existe o exame prévio
e se formos a pensar um bocado é realmente perigoso pintar um beneficiado
pois bem vistas as coisas o homem às vezes é vário muda de roupa deixa o breviário
sopram os ventos da história e modificam a forma de toda a matéria
e talvez tenha sido assim que faustino se pôs a pensar josefa que foste tu fazer

(de Toda a Terra, 1976)

2.5.09

[para uma antologia de bicicletas - 15]

JOÃO CAMILO

DE BICICLETA


Como se o teu olhar me perseguisse,
eu preocupava-me em executar da maneira mais perfeita
todos os gestos. Via-me de fora como tu me verias
se fosses atrás de mim quando pedalava na bicicleta,
sentada no banco confortável de um automóvel.
O rio à direita da estrada tinha certa beleza
e as árvores, como sempre, faziam do asfalto preto por onde eu ia
um caminho em que apetece passear ao fim da tarde.
Enquanto me olhavas ias conversando para o lado
com os teus companheiros de viagem. O cabelo
loiro sobre os ombros iluminava o teu rosto à janela
e aqueles que te viam passar ficavam a pensar em ti.
eu lá ia, tranquilo e inquieto a pedalar,
convencido de que ao ver-me sem esperar assim ali
descobrias mais duas ou três razões para me amares.
Não olhava para trás para que tu não te escondesses
e em cada pedalada deixava a atenção
com que poderias falar-me e eu escutar-te.



MEMÓRIA DE RUY BELO

Madrid está deserta do teu corpo, só os fantasmas
do desejo se digladiam ainda ao sol das praças.
Era tão curta a distância entre a eternidade
e a luz nas esplanadas dos cafés, na pedra dos edifícios?
O amor, ave desencontrada das estações, acena ainda
nos olhos das raparigas de braços nus. E tu,
morto mais discreto da pátria, adormeceste
sem ter beijado a mulher e os filhos, longe
para sempre das romarias e do mar.

(de A mais nobre das artes, editorial Caminho, 1991)



(…) quando jogava futebol na equipa da Faculdade de Letras de Lisboa nunca joguei a guarda-redes, em geral jogava a defesa direito, às vezes ao lado do Ruy Belo ou do Arnaldo Saraiva, do Moreira, do Madeira, do Carlos Correia, etc.; e gostava muito de arrancar por aí adiante a caminho da baliza adversária. Uma vez, depois de vários passes com o Pissarra, um puto cheio de talento, fui rasteirado na área adversária e tivemos direito a uma grande penalidade. Imagino que o Pissarra a deve ter transformado em golo. Velhos tempos. (…)

(daqui)

8.8.08

[se sou alguma coisa sou-o sem saber]





[Estou em agosto estou um pouco em agosto]


RUY BELO


COMO SE ESTIVESSE EM AGOSTO


Estou todo no mês de agosto
Estou escarranchado no lombo nutrido de agosto
sentado à mesa de um café envolto no manto de múltiplas vozes
olhando pela janela uma toalha de mar e a terra ao fundo
debaixo do céu azul e branco do sol e do vento
café e vozes céu terra e mar tudo coisas talvez de agosto
objectos que o deus deste mês se porventura dada a fartura houver também um deus para os meses
utiliza para que assim toda a gente possa falar univocamente de agosto
e agosto não seja o nome frio dos números
mas seja um tempo e a orla da água que banha os pés desse tempo
e as coisas que existem na mão aberta desse tempo
Agosto não é o oitavo mês do ano
as ferias há muito previstas e marcadas o sitio
de certos rostos por um instante resplandecentes mas cedo bebidos pelo esquecimento
talvez para o ano vindos na vaga de um novo mês de agosto
Agosto são muitos jornais vagarosamente lidos
de páginas uma a uma passadas como os trinta e um dias deste mês
agosto é o espaço do pensamento da boca boquiaberta
do sol outra vez usado como o único relógio de pulso
Agosto é o regresso dos emigrantes o mês da morte na estrada dos emigrantes
de uns homens que antes eram portugueses e hoje são emigrantes
e voltam a estas paragens como as aves às terras serenas e avaras do norte
Agosto é a estrada estreita que o mar enfia nos campos
como faca que fura sebes de canas campos de couves
e ensombra ainda um pouco mais a sombra de certas árvores
Agosto é eu estar aqui a trazer as mangas arregaçadas
é envelhecer ao sol na dispersão distraída de determinados gestos
é saber que estou de momento separado de secretárias com muitos problemas em suspenso
que me sento numa pedra e oiço uma música e reconheço a minha forma mais frequente de me sentir vivo
embora depois complique o que sinto e diga talvez que me sinto feliz
Por vezes agosto é o nevoeiro essa espessura de certa maneira branca
que me faz pensar que penso e achar que há uma certa profundidade no que por vezes penso
nevoeiro que mora um tempo na minha cabeça e depois
desce até às páginas do livro que leio de maneira diferente
dos livros que leio nos outros meses do ano
Agosto não é a pura palavra não é determinada designação para um tempo
onde cada uma dessas coisas anualmente se encontra comigo
Agosto são talvez estas palavras todas onde me perco onde procuro pôr os meus passos
onde afinal penso que permaneço um pouco mais do que no frágil edifício dos dias
Não escrevo neste domingo de agosto onde já houve sinos
e há gestos diferentes dos mesmos gestos que fazemos nos outros dias
Estou um pouco nestas palavras na própria
palavra agosto que ponho sobre o papel
e que embora aponte para agosto não é esse mês de agosto
Estou em agosto estou um pouco em agosto

(de Toda a Terra, 1976)
EDUARDO PRADO COELHO

RUY BELO – A CAMINHO DA ESCOLA
(excerto)

(…)
Se existe uma equivalência entre o poema que se escreve e o caminhar na vida («um só poema é toda a vida de um homem» [da explicação que acompanha a 2ª edição de Aquele Grande Rio Eufrates]), é natural que os poemas de Ruy Belo se alonguem, que sejam demorados exercícios no sentido de o poeta se afeiçoar à prática da morte, instrumentos dilatórios para suspender o ponto final.
Isto explica talvez que a morte, sendo, como é, o decisivo virar de uma esquina, tenha em Ruy Belo uma existência graduada. Há uma dosagem da morte cada dia e é o trabalho da escrita / deambulação que regula essa dosagem. Por conseguinte, «ó homem que tens à espera de ti / virada a esquina da rua e do tempo o teu próprio rosto / não tenhas pena de quem morre / de árvore para árvore / e é diferente no princípio e no fim da rua» [Metamorfose, in Aquele Grande Rio Eufrates].
Na poesia de Ruy Belo, morre-se muito, morre-se pouco, assim assim, um bocadinho. Mas, se isto faz que a morte se insinue no dia, permite também que o dia contenha a morte. Lemos assim: «ele vai só ele não tem ninguém / onde morrer um pouco toda a morte que o espera» [Homem para Deus, in Aquele Grande Rio Eufrates]; «nunca até hoje eu morrera tanto em alguém» [Vita mutator, in Aquele Grande Rio Eufrates]; «Terás no fim para nós uma morte tão funda / que nos separe de todo o mal que fizemos / e assim nos aproxime do bem que desejámos?» [Narração, in Aquele Grande Rio Eufrates]; «Eu não dispenso a morte eu quero morrer muito» [Mudando de assunto, in Homem de Palavra(s)].

Mas, no termo da estrada, para além da estrada, para além do horizonte, essa morte imensa é tão grande como o mar ou a infância.
(…)

(in A Mecânica dos Fluidos – literatura, cinema, teoria, Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1984 – temas portugueses)
JOSÉ MÁRIO SILVA


A MARGEM DA MELANCOLIA
(excertos)

(...) Foi tanta a água, Ruy, que passou debaixo das pontes. E agora, assim de repente, vejo-me a escrever esta prosa que não sei o que é, nem para onde vai, vejo-me a enviar uma carta sem destinatário a alguém que não conheci, a uma figura que sempre se materializou, para mim, em dez livros e umas quantas fotografias. Escrevo sobre o fio da navalha, é bom que saibas, arriscando a queda no ridículo, abrindo o peito à confissão e deixando de lado as cautelas que é costume exigir ao jornalista. Corro o risco, e assumo esse risco, de escrever à procura de uma intimidade que nunca existiu, que muitos dirão ser falsa e a que provavelmente não tenho direito. Mas ainda assim escrevo e avanço linha a linha, à beirinha do abismo, procurando não olhar para baixo, pensando apenas que de certa forma sou teu amigo próximo desde sempre, desde que me feriste com um verso que falava da solidão e da morte. Por isso escrevo ainda, sem saber em que direcção, porque repito para mim mesmo que sou teu amigo desde sempre e que os amigos tratam-se por tu, os amigos olham-se nos olhos, os amigos sabem perdoar os desvarios feitos em nome da amizade.
Passou muito tempo, 20 anos. E confesso-te desde logo que ignorei a tua morte na inocência dos meus seis anos. Era Agosto e eu brincava certamente na praia, em luta contra as ondas da Caparica, procurando pequenas conchas e correndo sobre a areia. Era verão e eu ainda não sabia ler (só entrei para a escola em Outubro). Era verão e eu não podia imaginar que as notícias do dia seguinte explicavam mal a causa da tua morte (estou convencido que se alguém abrisse aquele coração destroçado, numa imaginaria autopsia, não encontraria lá dentro uma única gota de sangue, mas sim milhões de minúsculas sílabas: puras, brilhantes, perfeitas).

(...)

Volto ao tema da morte, mais uma vez,. e se pudesse estar contigo agora, face a face, gostaria que me explicasses se foi por causa desse enigma paralisador, dessa definitiva suspensão do tempo, que começaste a escrever poemas tão longos. Posso estar enganado, mas vejo nesses poemas que se estendem por páginas e páginas, acumulando detalhes e repetindo palavras («Nada sei de emoções manipulo morfemas», disseste algures), vejo nessas intermináveis sucessões de versos uma espécie de fuga para a frente, como se temesses o vazio que fica depois da última palavra. Enquanto escrevias, o mundo e as suas torturas mantinham-se à distância e tu sentias-te isolado numa esfera de silêncio, sentias-te salvo no único paraíso possível, não era?
Continuo a olhar para ti. Ou antes, para a imagem que do teu rosto no meu pensamento. E digo-te, sem hesitar, que não alinho com os críticos que veneram a tua obra por inteiro. Mentiria se não dissesse que há versos frágeis, metáforas infelizes, poemas inúteis, rimas escusadas e cacofonias incómodas. Ter consciência de que existem – apontá-las a dedo se for preciso – não diminui em nada a tua grandeza poética nem belisca a admiração que tanta gente nutre por ti. Aliás, sabes tão bem quanto eu que a perfeição é própria dos deuses. E a imperfeição só te torna humano, ainda mais humano.
Afirmei no princípio que ignorava para onde se dirigia esta prosa. Era a mais pura das verdades. Escrevi de um jacto, sem plano nem estrutura, aqui e ali à flor da pele. Reparo agora que me aproximo do limite. Estou próximo do fim da página, tão próximo como do tal abismo que se abre aos pés de quem escreve sem rede. E ainda não disse metade do que queria dizer. Ainda não falei desse refúgio que era para ti a praia da Consolação; ainda não falei da fotografia em que apareces a olhar o horizonte como se o «bateau îvre» do Rimbaud estivesse a passar ao largo; e ainda não falei de todas as coisas que às vezes as palavras (as tuas e as minhas) não conseguem exprimir.
Morreste há 20 anos. Vinte anos exactos, contados dia a dia. Mas fica a saber que deixaste neste lado do rio, nesta margem melancólica (melancólica porque te sabe ausente), marcas que não se apagam. E sabes porquê? Porque foram deixadas por um homem lúcido que olhou a morte de frente. E soube fazer de cada verso uma despedida.

(in DNa Nº 89 – 8 de Agosto de 1998)

27.2.08

[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #9]

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

«Motivos alheios à sua vontade»

Foram estas cinco, as últimas palavras que escreveu. Nelas interrompeu Ruy Belo o currículo que repetia a pretensão de concorrer a um posto da Faculdade de Letras de Lisboa que vira anunciado num jornal. Mas essas ocasionais palavras atingidas pela despedida absoluta, figuravam o inquietante brazão daquilo em que se haviam tornado os seus últimos anos. Um homem obstinadamente retirado das ribaltas, submetido a uma profissão inadequada, preso ao reduto de um corpo demasiado pesado para a mobilidade da sua mente.
A morte de um poeta torna-se, muitas vezes, um alto momento exemplar. Ela evidencia todas as taras da organização nacional e põe a nu os critérios culturais de um povo. Tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar.

(início de um artigo sobre Ruy Belo, in Os dois crepúsculos – sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas, A Regra do Jogo, 1981)
[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #8]

RUY BELO

COMO QUEM ESCREVE COM SENTIMENTOS


Estou sujeito ao tempo sou este momento
perguntam-me quem fui e permaneço mudo
o tempo poisa-me nos ombros em relento
partiu no vento essa mulher e perdi tudo
Já não virá ninguém por muito que vier
em vão esperei a rosa da minha roseira
quando um pássaro sai dos olhos da mulher
é porque ela é de longe e não da nossa beira

Resta-me um sonho desconexo e desconforme
Na haste da camélia que o vento quebrou
jamais a vida branca como ela dorme
Eu era essa camélia e nunca mais o sou

A minha vida é hoje um sítio de silêncio
a própria dor se estreme é dor emudecida
que não me traga cá notícias nenhum núncio
porque o silêncio é o sinónimo da vida

O mundo para além dessa mulher sobrava
tudo vida vulgar tumultuária e cega
o brilho do olhar equilibrava a chuva
nas suas costas hoje toda a luz se apaga

Mulher que um golpe de ar me pôde arrebatar
enfim não existia ou só ela existia
Asas que ela tivesse deixou-as queimar
e tê-la-á levado estranha ventania

Daqueles traços fisionómicos de pedra
não quero já ouvir a voz que às vezes vem
na calma destacada por um cão que ladra
Não há ninguém perto de mim sinto-me bem

Cada casa que roço é escura como um poço
se sou alguma coisa sou-o sem saber
sossego solitário sem mistério isso
talvez tivesse sido o que sempre quis ser

As flores vinham nela e era primavera
mas tanto a nomeei e tanto repeti
erros numa estratégia imprópria para ela
tamanho amor expus que cedo a consumi

A noite quando ao fim descer decerto há-de
ser certa solução. Foi há muito a infância
Ao tempo o que tu tens tu bem o sabes cede
estendo as mãos talvez te fique a inocência
A vida é uma coisa a que me habituei
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto
A infância é uma insignificância eu sei
e apenas por a ter perdido a amamos tanto

Estou sozinho e então converso com a noite
das palavras que nos subjugam nos submetem
As coisas passam e em vez delas é aceite
o nosso sistema de signos onde as metem

Esta minha existência assim crepuscular
devida àquela que é rastos destroços restos
acusa hoje alguma intriga consular
de quem não tem cabeça a comandar os gestos

Foi uma rosa rubra a autora desta obra
aberta e arrogante grácil flor do instante
que triunfante não há coisa que não abra
para ferir quem a viu e morrer de repente

E noite sou e sonho e dor e desespero
mero ser sórdido e ardido e encardido
mas já não tarda a abrir-se na manhã que espero
um arco com vitrais aos vendavais vedado

E embora a minha fome tenha o nome dela
e da água bebida na face passada
não peço nada à vida que a vida era ela
e que sei eu da vida sei menos que nada

(de Toda a Terra, 1976)
[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #7]

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

R. B.


Escrevo-te cartas longas em longas tardes de esplanada
E repito constantemente coisas datas e palavras
Nas tuas praias e nos teus livros respiro os poemas
Como se fosse possível eu compreender tudo

Escrevo-te cartas que não chego nunca a pôr no correio
Não sei a tua actual direcção nem saberei
Se mesmo tendo direcção gostarias de as receber
Ou se a leitura te poderia provocar alguma alegria

Escrevo-te cartas e demoro-me com medo na tarde
Quando o céu se transforma numa nuvem cinzenta
Que se abre como se fosse a boca de alguém
À procura das palavras soletradas pela morte

(de Iniciais, Moraes editores, 1981 – Círculo de Poesia)
[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #6]

RUY BELO

Ao escrever poesia, nunca me deixei levar por circunstâncias acidentais. Mas, menos paradoxalmente do que parece, circunstâncias acidentais explicam em parte e de certo modo essa poesia: a minha educação católica e mesmo mística, a reorganização da minha vida já perto dos trinta anos, a minha crise actual. Isto para só falar de mim. Mas, embora sem isso constituir um programa, tenho reagido às injustiças que vejo à minha volta e, como a poesia é por natureza revolucionária – renovação da sensibilidade, da linguagem –, não é de estranhar que por vezes sublinhe temas ou motivos participantes. A realidade imediata não se absorve, porém, de tal maneira, que não me continue a preocupar por exemplo o sentido da vida. Já em Aquele grande rio Eufrates havia linhas de ruptura, mas todo esse livro foi escrito num clima a que não tenho mais acesso. Boca bilingue é duplamente um livro de crise: nos temas e nas formas. E, em alguns poemas que posteriormente escrevi, soltei tais apelos que só me admira que certos profissionais da salus animi ainda não tenham tentado lançar-me uma mão.

(excerto de Entrevista 2, in Na senda da poesia, 1969 – original publicado em 1968, no jornal Notícias da Covilhã)
[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #5]

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

Para N.G., R.B., L.N.J., C. DE O., L.M.N.
e os outros que já viveram

Tantos poetas morreram, em minha vida,
antes de mim, não só no sangue ou só na carne,
mas na portuguesa língua.
Deles fica a obra que fizeram.
Todavia vocábulos, para sempre
insonoros, ou no futuro incriados,
demonstram que os poetas todos
morrem sempre mais na língua.

(de Cenas Vivas, 2000)
[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #4]

A ler:

UMA ALDEIA QUE NÃO EXISTE


#1 #2 #3 #4 #5
[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #3]

RUY BELO

NO WAY OUT


Sei hoje que sou pequeno
e não é esse o meu menor mal
mas faço meus os problemas
da gente de beaver canal

Nasci numa aldeia perdida
nestes caminhos de portugal
mas tanto tenho irmãos aqui
como os tenho em beaver canal

Eu a miséria da minha terra
contemplei-a ao natural
enquanto vi no cinema
como se vive em beaver canal

Mais do que a pedra mais do que a árvore
o homem é para mim real
e tanto sofre a dois passos de mim
como sofre em beaver canal

Não há país que não seja meu
em qualquer parte morro pois sou mortal
mas aproveito a força da rima
para dizer que a minha rua é beaver canal

Morra eu dividido aos quatro ventos
seja o legado sentimental
fique no mundo onde ficar
deixo o meu coração a beaver canal

(de Homem de Palavra[s], 1970)
[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #2]

ANTÓNIO RAMOS ROSA

(...) A sua profunda insatisfação, mais de raízes ontológicas do que religiosas, leva-o a uma implacável inquirição do real e, consequentemente, ao despojamento de todas as certezas e logros, de todo o sentimento de identidade e de segurança. Interrogando-se, buscando-se, enfrentando obsessivamente a morte e a solidão, é este poeta um dos que melhor testemunham a situação espiritual do homem contemporâneo, para o qual encontra fórmulas de um raro poder expressivo. Se ele atesta a impossibilidade de uma total aceitação da vida, nem por isso a sua poesia se exime à permanente e renovada tentativa de criar um espaço respirável.

(excerto da nota sobre Ruy Belo, in Líricas Portuguesas - quarta série, Portugália editora, 1969 – Antologias Universais)
[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #1]

AL BERTO / PAULO DA COSTA DOMINGOS / RUI BAIÃO

Nasceu em S. João da Ribeira (Rio Maior) a 27 de Fevereiro, 1933. A morte veio a 8 de Agosto de 1978, em Queluz. Pelos motivos habituais dessa dialéctica bem portuguesa que se ilude no luxo de fechar portas na cara dos poucos vivos, enquanto refocila em tudo o que feda moribundo, a Ruy Belo iam-no ignorando. Bom, a sua passagem pela Opus Dei também o prejudicou bastante. A obra tem vindo a ser coligida por 4 volumes graficamente lastimáveis. Assinalável a tradução de Moravagine de Blaise Cendrars.

(nota sobre Ruy Belo, in Sião, frenesi, 1987)

29.7.07

[Ah, este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento]


RUY BELO

OH AS CASAS AS CASAS AS CASAS


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

(de Homem de Palavra[s], 1969)


[Casa onde Nasceu Ruy Belo, São João da Ribeira / Rio Maior - 28 de Julho de 2007]


AMADEU BAPTISTA

ROYAL LABEL BLACK


(a Ruy Belo)

Este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento;
vai connosco até à rua; responde-nos
um cigarro primeiro, uma construção na areia, depois um ferro
a espetar nas dunas e no mar
enquanto o mar houver e a paz durar;
come connosco à nossa própria mesa; ama a nossa mulher
e experimenta o odor da nossa casa aonde os nossos filhos
lhe entram pelos joelhos, o cobrem de carícias, lhe atiram
a satisfeitíssima bola de brincarmos aos adultos quando é tarde
ou os dias apresentam um cariz de pouca chuva.

Divide o nosso frango, a frugal fruta, as sobras do almoço
e sai-nos portas dentro quando o pôr-do-sol, a solução do sol, o sol
das terras de portugal e das noites de madrid
dialoga connosco, connosco estabelece a nítida fronteira
entre aeroportos, casas - oh as casas - e a mulher que,
podendo ser a de um estivador, do camisola amarela, desse
irreverente basquetebolista que por um grande azar não é das nossas relações,
foi, é, será sempre a mulher
encontrada e perdida na poeira, nas arcas, nas infâncias multicoloridas
que parcimoniosamente nos excedem.

Procura, sim, procura as cores do nosso entendimento;
bebe do nosso vinho; vai à missa connosco; veste-nos
a pele de lobos esfaimados nesta selva de ratos onde os ratos
se confundem com navalhas, intelectuais empalhados, inquiridores
por conta d'outrem (e própria), só para que o amor
um pouco sobreviva, exíguo e tenso; ri
às bandeiras despregadas como só um menino, como só
alguém que sabe da poda pode rir
enquanto os táxis, o choro, as dores de consciência
- que afinal não há, embora os cais... - atravessam o meio-dia, desesperadamente.

Ah, este homem procura as cores mais secas
do nosso entendimento; limpa-se
às nossas toalhas; chega
ao extremo de utilizar a escova privada da nossa privadíssima higiene; rompe
os nossos sapatos (meias inclusive); joga
à pancada connosco, ao eixo; e rouba-nos a carteira
como só quem sabe sorrir pode roubar-nos, pode
assinar de cruz por nós, solucionar
o problema da nossa talvez habitação
sem prestígio nenhum, ao menos uma praia de consolação em que morrer

com o mesmo à vontade, modéstia e alegria
deste homem que procura,
procura as cores mais secas do nosso entendimento.

(de Green Man & French Horn, in A jovem poesia portuguesa / 2, Limiar, 1985 - colecção Os Olhos e a Memória)

27.2.04

RUY BELO

ÚLTIMA VONTADE


Quando a sereia se ouvir
no coração desolado como uma cidade
recorda que te procurámos através das árvores
E tu escondias-te por trás dos frutos
e recolhíamos as mãos
cheias apenas de tempo
Sempre brincaste connosco
desde os dias da nossa juventude
Puseste-nos nos olhos
estação sobre estação e a vida dava as mãos
de árvore para árvore à volta da terra
Ia de ramo morto para ramo vivo
como um pássaro mais e nós ríamos
na tua transparência

Fechem-se-te agora os lábios
sobre a palavra que somos
Perdoa se algum dia
errámos com o coração
Não nos deixes morrer longe de jerusalém

(de Aquele Grande Rio Eufrates, 1961/1972)